A história dos meus 16 infartos e um quase ataque cardíaco depois do telefonema da morte
09 julho 2026 às 13h49

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Qual é a sua expectativa de vida ao ficar internado em um hospital contra a sua vontade? A internação hospitalar é uma expectativa de morte. O fato é que fui salvo pela dra. Juliana Tranjan
Eu tive 16 infartos agudos viajando por Portugal, pelos Balcãs e pela Espanha no outono europeu de 2025. Não sentia nenhum sintoma evidente de que meu coração iria parar de funcionar e eu viraria pó de crematório por lá. Mesmo morto, não iria aceitar ajuda de nenhum governo brasileiro para trasladar meu corpo.
O que havia de errado comigo era uma dor na altura da junção do esôfago com o estômago. Uma dor eventual sofrida, mas amenizada pela medicina de vários farmacêuticos que eu mesmo procurei para resolver o problema. Na minha viagem estava fora de questão agendar um médico, mesmo com seguro de saúde.
Tinha a vindima no Alto Minho e Ponte da Barca, a vila mais linda de Portugal, à minha disposição por dez dias. Depois, eu estava muito feliz com o resultado de um livro que havia acabado de publicar sobre o professor Joveny Cândido. Tive régio jantar com o dr. Irapuan Costa Junior em Aveiro.
Tinha pela frente a Albânia, a Macedônia do Norte, o Kosovo, três dias maravilhosos em Valência e fim de viagem para fechar o sistema qualificado em Avenidas Novas, o bairro mais delicioso de Lisboa.

O resgate de ambulância
Em Goiânia não deu mais para tentar resolver o problema na farmácia. Saí decepcionado do consultório do gastroenterologista. Ele prescreveu um medicamento para refluxo, mas me advertiu de que não faria a endoscopia, pois eu estava infartado. Eu não acreditei literalmente até que veio uma crise insuportável de dor dois dias depois.
Uma dor que andava, conforme ironizava meu irmão ao imitar o atendimento de paciente atrás de atestado médico. Começava na junção gastroesofágica e irradiava para a coluna dorsal. Como resultado, andei de ambulância pela primeira vez, com resgate no apartamento por uma equipe paramédica.
Imóvel na maca, fiquei imaginando as ruas tumultuadas de Goiânia abrindo espaço para a sirene grande de um motorista atrevido no exercício da soberania de uma emergência médica. Ao chegar ao Hospital Anis Rassi, foi confirmado que eu estava infartado e só precisaria esperar uma vaga na UTI.
Ainda tentei um tráfico de influência para sair daquela que seria a roubada do milênio. Mandei os exames para meu filho intensivista para que ele tivesse uma palestra construtiva com o médico residente plantonista sobre a possibilidade de eu voltar para casa e dormir longe do berço da morte.
Ele só falou: “Pá, veja aí se você consegue uma UTI com leito e hotelaria privados, chamada humanizada, pois já está marcada a cirurgia. Já mandei teu caso para o Marcelo Pedro”.
Ao lado de Pedro Wilson Guimarães
Logo depois de me instalar na sala de triagem, não é que aparece o professor Pedro Wilson Guimarães, 84 anos, o prefeito de Goiânia do meu coração.Tomamos soro lado a lado.
Ao me apresentar à filha que o acompanhava, Pedro me recomendou como jornalista e viajante do mundo, para logo em seguida brincar que eu havia sido seu professor.

Pedro Wilson foi meu professor na Faculdade de Jornalismo. Só concluí a graduação por interferência dele junto à direção da escola. Eu estava sendo perseguido no Fisco porque um auditor fiscal não podia ter curso superior.
O Pedro foi embora para casa depois de uma hora de conversa. Tempo suficiente para que fizéssemos a entrevista que ele sempre adiou para me conceder e contar tudo da sua vida de professor, político e magnífico reitor.
Uma vez instalado no régio leito, recebi a visita do dr. Anis Rassi. Ele foi muito gentil e adiantou que um cardiologista viria me explicar os procedimentos cirúrgicos e a conduta do pós-operatório.
Eu nunca tinha visto tamanho trânsito de médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem e do pessoal da limpeza me pajeando o tempo inteiro.
No começo, me senti na classe executiva pela estrutura à disposição. Não podia nem beber água por 24 horas, mas depois que me deram um clonazepam, decolei em voo direto para Amsterdam com poltrona de 180 graus de inclinação. Um extraordinário serviço de bordo com vinho do Porto e chocolates sortidos após o jantar.
Cateterismos e stents
No outro dia da viagem do falso cavalheiro, veio a realidade do infartado na UTI, agora na fila do primeiro de dois cateterismos planejados. Um para identificar a obstrução da artéria coronária direita e outro para implantar os stents.
O ambiente em que está instalada a hemodinâmica, aparelho que faz o cateterismo, é tão sofisticado que você não sente a atmosfera da morte.

Como é que você pode morrer em um lugar situado no Brasil que seja limpo, organizado, altamente tecnológico e conduzido por ótimos médicos e auxiliares?
Você está na primeira classe de uma companhia aérea das Arábias e a aeronave não vai cair. Aproveite o trabalho do anestesista para viajar com Deus.
De volta para o que hoje considero um verdadeiro principado da UTI, estava feliz da vida com o sucesso da cirurgia, mas muito contrariado com a comida do hospital. Não pode ser boa a comida de qualquer hospital.
Eu proibi visita e a minha mulher não contrariava a dieta do principado no contrabando sugerido de gêneros alimentícios feitos em casa. A solução foi sonhar com os pratos da boa lembrança.
No âmbito regional, eu pensava no filé a Oswaldo Aranha do Bar Glória, único lugar que frequento em Goiânia. O pato numerado com meu nome no La Tour d’Argent, restaurante de Paris, voou até meu leito de morte.
Lá estavam Britz Lopes, o Generalíssimo Demóstenes Torres, a Flávia Coelho e a Aletéia Mazzula. Depois, comi sozinho uma travessa de arroz de pato feito pela Bel Coelho.
Fiquei meio cismado que seria sexta-feira e dei um pulo no restaurante Galeria 44, em Lisboa. Quatro fatias de picanha, feijão preto, porção extra de arroz, farofa e batata canoa por 9,59 euros. Precisava de comida carioca e de reencontrar a família do João antes de partir.
A Eliane Cinquenti mandou de Maiorca um fettuccine ao ragu de cordeiro que consta do cardápio do seu restaurante localizado em frente ao palácio de verão da realeza espanhola. Milhares de pessoas comovidas com os meus 16 infartos agudos prometeram barras e mais barras do clássico chocolate de leite Lindt.
“Não existe vantagem no cativeiro”
Infelizmente, nada aconteceu e eu fiquei mais de uma semana na UTI, humanizada pelas minhas fantasias famintas, comendo três refeições de hospital por dia. “Não existe vantagem no cativeiro”, escreveu o poeta José Sóter nos anos 1980. Assim, minha recuperação foi rápida, mas a internação não.
Eu havia feito um planejamento do momento em que o dr. Fabrício Las Casas entraria no leito do principado da UTI para me dar a carta de alforria. Não tinha razão para eu ficar mais três dias me humanizando na UTI de um hospital.
Queria minha casa, queria minha cama, queria me reencontrar com os quadros, pisar os tapetes, fazer bagunça “sem querer querendo” na cozinha e procurar a lanterna de cabeça na gaveta do equipamento de trekking caso houvesse um apagão da Celg.
Odeio pizza, mas pediria uma pizza de atum na massa fina e sem borda. Na indecisão, meio portuguesa sem presunto e com bastante azeitona. Podia ser azeitona chilena tipo grega.
Salvo pela dra. Juliana Tranjan
Na manhã plena de entusiasmo de que aquele 6 de dezembro de 2025 eu iria ter alta, decidi tomar o banho da despedida do Hospital Anis Rassi. A primeira vez de um banho solitário ensaboado para dissipar qualquer possibilidade de infecção hospitalar. Tomei o banho da purificação.
No chuveiro, cantei Red Chilli Pepper’s: “Just a mirror for the sun.” Estava tudo certo de que voltaria para casa em questão de menos de uma hora.

No que eu saio do banheiro da estrutura humanizada da UTI, me aparece a dra. Juliana Tranjan, com uniforme de médica. Ela era todo mundo que eu não desejaria encontrar.
O clima era de deixar o hotel, com taxista na porta em bandeira 2, para ir imediatamente ao aeroporto. Se eu acreditasse em coisas sobrenaturais, poderia ser convencido da existência de destino, da sorte e do azar.
A presença da Dra. Juliana, cardiologista de plantão na UTI, demoliu minha expectativa de alta e, de certa forma, de vida. Qual é a sua expectativa de vida ao ficar internado em um hospital contra a sua vontade? A internação hospitalar é uma expectativa de morte.
Eu já era paciente dela no Einstein de Goiânia e vi que minha roubada seria prolongada por ela ser uma ótima e muito brava médica que me considerava um paciente desertor. Seria a ocasião das pequenas vinganças. Foi a Dra.Tranjan quem descobriu que eu já tinha uma cardiopatia um ano antes dos 16 infartos.
Uma obstrução de 100% da artéria descendente identificada após check-up forçado, depois de eu lesionar a perna no altiplano da Bolívia. Eu me sentia tão bem que tinha feito a pé, dois anos antes, em seis meses, o Caminho Português de Santiago e a Alta Via 1, nos Alpes italianos.
Tudo o que eu não imaginava na vida era que parte fundamental do meu coração já não funcionava. Por conta própria, ele fez uma coisa chamada circulação colateral e eu não sentia nada de errado.
Até que a Dra. Juliana me telefona às 7 horas, o que para mim é madrugada, dizendo que eu iria morrer caso não tomasse uma providência urgente de fazer um cateterismo.
Imagina o estrago da notícia em um coração desalmado e sem saber que estava na hora da morte?
Ao final, foram 16 infartos agudos reais e um quase ataque cardíaco, que incluo na estatística das minhas mortes, provocado pelo telefonema que acabou se revelando providencial e até milagroso. É por conta dele que estou vivo.
Marcio Fernandes, jornalista, é colaborador do Jornal Opção.



