A aula de Mozart que atravessou 248 anos
02 julho 2026 às 18h20

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Em meio às notícias que diariamente disputam nossa atenção, poucas conseguem realmente emocionar quem ama música. Na semana passada, porém, uma descoberta silenciosa fez o mundo da musicologia voltar os olhos para Paris. Um manuscrito desconhecido de Wolfgang Amadeus Mozart, contendo quarenta e quatro páginas de aulas de composição, veio à luz na Biblioteca Nacional da França. Mais do que um documento histórico, trata-se de uma rara oportunidade de observar o compositor em uma função, pouco lembrada, a de professor.
Acostumamo-nos a imaginar Mozart como um gênio inalcançável. O menino prodígio que, aos cinco anos, já compunha; o autor de óperas, sinfonias e concertos que atravessaram os séculos praticamente sem perder o frescor. No entanto, esse caderno nos apresenta um Mozart profundamente humano, paciente, provocador, exigente e, sobretudo, interessado em despertar a criatividade de sua aluna.
Em 1778, durante sua permanência em Paris, Mozart foi contratado para ensinar composição à jovem harpista Marie-Louise-Philippine de Bonnières de Guînes, filha do duque de Guînes.

As páginas recém-descobertas registram exercícios, correções, pequenas ideias melódicas e exemplos escritos pelo próprio compositor. Em determinado momento, percebendo a dificuldade da aluna para concluir uma frase musical, Mozart escreve apenas o início de um minueto e a desafia a terminá-lo. A estratégia pedagógica revela algo precioso, no qual ensinar composição não significava transmitir fórmulas prontas, mas estimular a invenção.
Curiosamente, em cartas enviadas ao pai, Leopold Mozart, o compositor demonstra certa impaciência. Reconhece que a jovem compreendia os aspectos técnicos da teoria, mas lamenta sua dificuldade em criar ideias próprias. A crítica pode soar dura, mas revela uma convicção estética profundamente atual, onde conhecer regras é apenas o primeiro passo; fazer música exige imaginação.
Para os musicólogos, o manuscrito possui um valor extraordinário. São raríssimos os registros que permitem acompanhar o cotidiano pedagógico de Mozart. Acostuma-se estudar suas partituras acabadas, suas cartas e documentos administrativos. Agora, pela primeira vez, pode-se observar seu pensamento em processo, acompanhando a maneira como conduzia um estudante diante do desafio da criação musical.

Essa descoberta também nos convida a refletir sobre um aspecto frequentemente esquecido da vida dos grandes compositores. Mozart não vivia apenas de inspiração. Dava aulas, negociava encomendas, escrevia cartas cobrando pagamentos, enfrentava dificuldades financeiras e procurava equilibrar sua intensa atividade artística com as necessidades da vida cotidiana. O mito do gênio absoluto muitas vezes obscurece o profissional disciplinado que existia por trás da obra.
Talvez seja justamente essa dimensão humana que torne Mozart ainda maior. O extraordinário não nasce apenas do talento, mas também da prática diária, da escuta atenta e do exercício constante da criação.
Há poucos dias, voltaram a circular também notícias sobre as inúmeras hipóteses que cercam sua morte prematura, aos trinta e cinco anos, em Viena. Infecções, febre reumática, insuficiência renal e diferentes diagnósticos retrospectivos continuam alimentando debates médicos e históricos. No entanto, diante desse caderno recém-encontrado, talvez a pergunta mais interessante deixe de ser “como morreu Mozart?” para se transformar em outra: “como pensava Mozart quando fazia música?”.
A resposta começa a surgir nessas quarenta e quatro páginas cuidadosamente preservadas durante quase dois séculos e meio. São folhas aparentemente modestas, mas capazes de aproximar o leitor de um dos maiores criadores da história da música.
Em tempos em que tanto se fala sobre inteligência artificial, algoritmos e criação automática, emociona-nos perceber que a essência do ensino de Mozart permanecia profundamente humana, provocando perguntas, incentivando tentativas, corrigindo caminhos e confiando que uma boa ideia musical só nasce quando alguém aprende, pouco a pouco, a ouvir antes de escrever.

E, para que essa história não permaneça apenas nas páginas dos livros, convido o leitor a ouvir uma das obras mais delicadas de Mozart: o Concerto para Flauta e Harpa, KV 299, composto justamente em 1778 e dedicado à jovem harpista Marie-Louise-Philippine de Bonnières de Guînes e a seu pai, o duque de Guînes, renomado flautista da corte francesa.
A gravação que recomendo foi realizada pela Orquestra Sinfônica da Bahia, na temporada de 2005, tendo como solistas Cristina Braga, na harpa, e Norton Morozowicz, na flauta, que também assina a regência. Depois de conhecer a história desse manuscrito recém-descoberto, talvez a escuta ganhe um significado ainda mais especial. É como se, por alguns instantes, pudéssemos ouvir a música que nasceu do encontro entre um mestre e sua aluna.
Procure perceber como a flauta e a harpa conversam ao longo da obra. Em nenhum momento há disputa pelo protagonismo; ao contrário, Mozart constrói um diálogo elegante e delicado, no qual os dois instrumentos se alternam entre conduzir a melodia, responder um ao outro e se fundir ao som da orquestra. Fique atento também na leveza do segundo movimento, de rara beleza lírica, e na vivacidade do movimento final, onde a escrita transparente de Mozart revela sua extraordinária capacidade de transformar simplicidade em sofisticação. Talvez seja impossível ouvir este concerto, hoje, sem imaginar que foi justamente para aquela jovem harpista parisiense que essas páginas começaram a ganhar vida.



