Laís de Souza Brasil: quando o intérprete se torna legado
24 junho 2026 às 12h24

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A música brasileira perdeu, na última semana, uma de suas mais importantes guardiãs. Aos 91 anos, partiu a pianista Laís de Souza Brasil, artista cuja trajetória se confunde com a própria história da interpretação pianística brasileira no século XX e início do XXI.
Em tempos em que frequentemente se celebra a figura do compositor como criador absoluto, a vida de Laís nos lembra da importância igualmente fundamental do intérprete. Afinal, a música somente se realiza plenamente quando encontra alguém capaz de transformá-la em som, emoção e experiência compartilhada. Foi exatamente esse papel que ela desempenhou com rara excelência ao longo de décadas.
Formada pela antiga Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil, atual UFRJ, e aperfeiçoada em centros europeus de tradição pianística, Laís construiu uma carreira sólida, marcada pelo rigor técnico, pela inteligência musical e, sobretudo, pelo compromisso com a música brasileira. Em um período em que grande parte dos pianistas concentrava seus esforços no repertório europeu consagrado, ela escolheu dedicar-se também à valorização dos compositores de seu país.

Seu nome permanecerá para sempre associado ao de Camargo Guarnieri, numa das mais fecundas relações entre compositor e intérprete da história da música brasileira. Não foi apenas uma executante de suas obras. Tornou-se interlocutora artística, inspiradora e destinatária de composições que hoje integram o patrimônio musical do país. A estreia de obras como a Sonata para Piano e o Concerto para Piano e Orquestra nº 5, ambos dedicados a ela, demonstra o grau de confiança que Guarnieri depositava em sua compreensão estética.

Mais do que interpretar, Laís ajudou a construir a recepção da obra guarnieriana. Sua gravação integral dos cinquenta Ponteios permanece como referência incontornável para estudiosos, professores, estudantes e pianistas. Em suas mãos, a escrita de Guarnieri revelava toda a sua riqueza rítmica, sua expressividade contida e sua profunda identidade brasileira.
Em entrevista concedida à Revista Concerto em 2007, a pianista descreveu com admirável sensibilidade aquilo que a fascinava na música do compositor:
“a marca autoral inconfundível, a espontaneidade do discurso, a força da polifonia e a naturalidade de uma escrita que jamais parecia buscar efeitos gratuitos. Sua leitura revela não apenas uma intérprete talentosa, mas uma artista capaz de compreender profundamente os processos criativos da obra que executava’.
Os depoimentos surgidos após sua partida ajudam a dimensionar a importância de sua presença na vida musical brasileira. O maestro e flautista Norton Morozowicz recordou a colega de palco com quem percorreu o Brasil levando a música nacional a diferentes públicos. Já o compositor Ronaldo Miranda destacou sua combinação rara de doçura, rigor crítico e dedicação absoluta à arte, lembrando episódios que revelam não apenas sua competência técnica, mas também sua generosidade intelectual.
Talvez seja justamente essa palavra, generosidade, que melhor sintetize sua contribuição. Laís dedicou sua vida a fazer com que a música brasileira fosse ouvida, compreendida e valorizada. Gravou, estreou, ensinou, pesquisou e compartilhou repertórios que, sem sua atuação, talvez permanecessem restritos aos arquivos e às partituras.
Sua partida convida a uma reflexão necessária sobre a preservação da memória musical brasileira. Em um país onde tantas vezes se conhece pouco dos próprios compositores e intérpretes, o legado de Laís de Souza Brasil demonstra que a construção de uma identidade cultural depende também daqueles que dedicam a vida a manter viva a música de seu tempo e de seu lugar.
Os intérpretes são, em certa medida, os grandes mediadores da memória. Entre o silêncio da partitura e a emoção da escuta existe uma ponte. Durante mais de sete décadas, Laís foi uma dessas pontes.
Agora, resta o silêncio da ausência. Mas permanecem também as gravações, os alunos, os concertos, os ensinamentos e, sobretudo, a inspiração de uma artista que compreendeu que interpretar música brasileira era também uma forma de valorizar a cultura e a história do país.
Laís de Souza Brasil parte, deixando um legado que continuará reverberando muito além das salas de concerto.
Para conhecer um pouco da arte de Laís de Souza Brasil, recomendo a audição do Concertino para Piano e Orquestra de Câmara, de Camargo Guarnieri, obra que sintetiza muitas das qualidades admiradas pela pianista na escrita do compositor:
a riqueza rítmica, a espontaneidade melódica, a força da linguagem brasileira e a delicada combinação entre lirismo e vigor expressivo.
Na gravação, Laís atua como solista ao lado da Orquestra Filarmônica de São Paulo, sob a regência de Simon Blech. Ao ouvir, observe a clareza da articulação pianística, o refinamento das nuances sonoras, a fluidez do fraseado e a extraordinária naturalidade com que a intérprete conduz o discurso musical. Mais do que uma interpretação exemplar, trata-se do encontro raro entre uma grande artista e um repertório que ela ajudou a transformar em patrimônio vivo da música brasileira.



