A jornalista Malu Gaspar escreveu dois livros que, se fosse americana, teria ganhado o Prêmio Pulitzer de reportagem investigativa. Trata-se da mais prestigiosa premiação dos Estados Unidos.

Os dois livros, somados, contêm 1176 páginas e são uma história do capitalismo — selvagem ou civilizado — no Brasil. Sobra para todo mundo: governos, políticos, executivos, bancos, empresários. Ninguém sai ileso — à esquerda e à direita. São um retrato preciso de como se faz negócios no Brasil, quase sempre com recursos públicos, distribuídos a rodo aos cidadãos do mercado (aqueles que, quando dão entrevistas, costumam falar contra a Bolsa Família e sugerem cortes fiscais).

Os livros são “Tudo ou Nada — Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X” (Companhia das Letras, 536 páginas) e “A Organização — A Odebrecht e o Esquema de Corrupção Que Chocou o Mundo” (Companhia das Letras, 640 páginas). São radiografias incontornáveis de como funciona o capitalismo — dito liberal — em conexão com o setor público.

Se publicados nos Estados Unidos, país que valoriza o jornalismo investigativo de alta qualidade, Malu Gaspar ganharia, até facilmente, o Pulitzer. Ela merece, ao menos, um Pulitzer honorário.

Quando pesquisa e escreve, Malu Gaspar não o faz para agradar direita, centro e esquerda. Nada disso. Publica aquilo que precisa ser divulgado, doa a quem doer.

Eike Batista e a família Odebrecht

A direita fala mal de Malu Gaspar, assim como a esquerda já marchou pela mesma seara. Quando os dois lados — os extremos — criticam é sinal de que se chegou à verdade.

Nos tempos dos campeões nacionais, advocacia capitalista do petismo, Eike Batista era saudado como rei pela imprensa, por governantes e outros. O que fez Malu Gaspar? Retirou o glamour, as lantejoulas (carros caríssimos e otras cositas más) e os mitos. Ao desnudar o empresário, exibiu como funciona o capitalismo patropi — sempre às portas do Estado, como pedinte e raramente pagante.

Em seguida, Malu Gaspar “biografou” o capitalismo ao contar a história da Construtora Odebrecht e de suas múltiplas alianças políticas e econômicas. Mostrou que o início dos esquemas se deu muito antes dos governos petistas.

Nos governos militares estavam lá, todos pimpões, Norberto e Emílio Odebrecht — faturando alto, às vezes sob o olhar relativamente benevolente do general-presidente Ernesto Geisel (por sinal, um indivíduo decente, mas, claro, ditador). A ditadura civil-militar anabolizou os negócios dos príncipes de Pernambuco e da Bahia.

Para os capitalistas verde-amarelos, notadamente os que precisam do BNDES, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal e dos recursos do Orçamento da União, o discurso contra o Estado é isto: apenas retórica. Não é, ideologicamente, a sério. Quanto mais criticam o Estado, este “ser” meio avô do mercado, mais arrancam dinheiro público para investir em suas empresas e comprar aviões, imóveis no Brasil e no exterior e iates. Festejam com grana pública e “arrotam” mercado.

Daniel Vorcaro: o banqueiro-doador

O caso mais recente, quem diria, não acabou no Irajá, e sim na Papudinha — nome tão simpático para um lugar nem tanto. O banqueiro — não é justo falar em ex-banqueiro — Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, está preso na Papudinha, a “filha” da Papuda, quer dizer, da Papudona.

Diz-se, entre os crentes, que Deus é amor e, como tal, doa amor. Pois Daniel Vorcaro, que se habilitava como deus, sem “d” maiúsculo, repassava dinheiro para políticos, magistrados, advogados e quejandos.

Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro fotos reproduções
Flávio Bolsonaro: Daniel Vorcaro “deu” grana pro filme sobre Jair Messias. O que recebeu em troca? | Fotos: Reproduções

Não se pode dizer, de maneira enfática, que doava dinheiro. Porque certamente exigia algo em troca. O senador Ciro Nogueira, o amigão — um apóstolo, quem sabe —, ganhou uma boa grana para ser o anjo da guarda de Daniel Vorcaro no Congresso, e não apenas no Senado. Assim como outros políticos, até de Goiás.

Secundando o Banco Nacional, dirigido por José Luiz Magalhães Lins, em tempos idos, o banco de Daniel Vorcaro repassou — a fundo perdido? — 61 milhões de reais para a família bancar a produção do filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do senador Flávio Bolsonaro e do “fugitivo” Eduardo Bolsonaro.

O banco de Magalhães Pinto adotou o mecenato de diretores de cinema — notadamente do Cinema Novo — e de escritores (como um grande escritor mineiro). O que exigia em troca? Quase nada. Talvez nada. José Luiz Magalhães Lins, o parente do ex-governador de Minas, era, de fato, um anjo da guarda de cineastas e atores (que, como pagamento, faziam, de alguma maneira, lobby para o banco).

Daniel Vorcaro e Ciro Nogueira: Aliados | Foto: Esfera Brasil via Youtube
Daniel Vorcaro e Ciro Nogueira: amigos-quase irmãos | Foto: Reprodução

Pelo que se sabe, de Bangu à Papudinha, Daniel Vorcaro não é dado à leitura e tampouco a filmes de arte. Talvez nem saiba que “Rambo”, o filme e o personagem, é inspirado em Rimbaud, cujo nome se pronuncia “Rambô”, quase Rambo.

Se não tem interesse por cinema, por que diacho patrocinou “Dark Horse”? O que o senador Flávio Bolsonaro prometeu a Daniel Vorcaro, o mecenas da direita (Bolsonaros), da esquerda (Jaques Wagner, por exemplo) e do centro (Ciro Nogueira, Hugo Mota e Davi Alcolumbre)?

Não se sabe o que Flávio Bolsonaro prometeu para o banqueiro Daniel Vorcaro, que, até “Dark Horse”, nunca tinha “doado” um centavo para filmes brasileiros ou internacionais. Consta que, na Papudinha, perguntaram: “Daniel, você gosta de Kafka?” A resposta, a palo seco, teria sido: “Muito. Comi várias vezes num restaurante árabe”. Trata-se, decerto, de folclore. (Quem lê livros em penitenciária tem a pena reduzida. Ressalve-se que, apesar de preso, o rei do Banco Master não foi condenado.)

Se eleito presidente, este ano, Flávio Bolsonaro teria como, além de libertar o pai, ajudar o “avô” Daniel Vorcaro? Não se sabe. Explicação sobre o uso da palavra “avô”: o presente dado ao presidenciável do PL, de 61 milhões de reais, é claramente de avô para neto.

Malu Gaspar e O Globo: sempre na frente

As histórias de Daniel Vorcaro/Banco Master — e não apenas a de Flávio Bolsonaro e “Dark Horse” — saíram, em larga medida e primeira mão, em “O Globo”, jornal no qual trabalha Malu Gaspar.

Lauro Jardim: colunista investigativo do jornal “O Globo” | Foto: Reprodução

A repórter andou furando quase toda a concorrência (“Estadão” e “Folha de S. Paulo” também publicaram reportagens de qualidade. O problema de “O Estado de S. Paulo” é que está se prendendo mais à opinião, às vezes excedendo, do que à amostragem factual). O colega Lauro Jardim publicou reportagens de primeira linha.

“O Globo” não inventou o sistema, mas o aperfeiçoou. Criou várias colunas de jornalismo investigativo, com um titular e uma equipe de repórteres. Não há, a rigor, um editor — são todos repórteres. Nem todos os textos que saem na coluna são de Malu Gaspar. São de repórteres de sua, digamos, “equipe”. O “Estadão” faz isto muito bem na coluna de Fausto Macedo.

Ante a lisura de Malu Gaspar, Daniel Vorcaro tentou “comprá-la”. Ofereceu luvas e salário mensal de 120 mil reais. A repórter — ela é isto: repórter (editor, como sabe da “Gazeta Renana” ao “New York Times”, é cargo — não é profissão).

Daniel Vorcaro, com seus emissários, descobriu que, aos 52 anos, Malu Gaspar não gosta de dinheiro sujo. Gosta, isto sim, de fazer jornalismo de alta qualidade. Limpo como água de chuva antes de cair no chão.

Os sicários — de várias naturezas — investigaram Malu Gaspar. Nada descobriram de aviltante. Só que vive de maneira espartana e aprecia mais notícias verdadeiras do que “verdinhas”.

Finalmente, como não há chance de Malu Gaspar ganhar o Pulitzer — certamente vai escrever um livro sobre Daniel Vorcaro & Banco Master (indico dois títulos: “Daniel Vorcaro — O Banqueiro Que Doava Dinheiro Para Políticos” ou “Daniel Vorcaro — O Banqueiro Que Abalou a Papudinha”) —, sugiro que, sem falta, lhe deem o Prêmio Esso, a maior honraria do país.

Lauro Jardim, ameaçado pelo sicário-chefe do banqueiro-doador, também merece o Prêmio Esso.

A Malu Gaspar também poderia ser concedido o Prêmio Maria Moors Cabot. “O Globo”, que está fazendo jornalismo de primeira linha, também merece o prêmio.