A repórter Cristiane Barbieri, do “Estadão”, publicou uma das mais relevantes matérias da semana passada, que merece tanto debate quanto continuidade. “Como a arquitetura das plataformas de betz induz ao aumento do vício em apostas” é o título da reportagem.

A base da reportagem é uma entrevista com Flávio Ataliba Flexa Barreto, pesquisador do FGV Ibre. Não se trata de um enfoque moralista a respeito de jogos. Por isso merece ser lida com atenção por governantes e parlamentares.

Flávio Ataliba diz que aqueles que produzem legislação com o objetivo de enquadrar o mercado de bets no Brasil não têm observado, com a devida atenção, a questão central: “A arquitetura das plataformas, criada a partir de vieses cognitivos”. É ela que “prende” e “vicia” milhões de brasileiros, às vezes de maneira incontornável.

A legislação concentra-se em cinco eixos: “autorização das plataformas; tributação; combate à lavagem de dinheiro; restrições à publicidade e proteção a grupos vulneráveis”.

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Há risco de a pessoa se tornar prisioneira — refém — das bets e de outros jogos | Foto: Reprodução

A arquitetura da plataforma

Porém, analisa Flávio Ataliba, “a plataforma em si permanece praticamente intocada. Sua arquitetura interna de escolhas e os mecanismos que estruturam a experiência do apostador não são objeto de nenhuma norma”.

O especialista sublinha que “é na arquitetura da plataforma que o mecanismo de indução comportamental opera”.

O problema, afirma Flávio Ataliba, não é “falta de educação financeira ou de busca desesperada por saídas para o endividamento”. Na verdade, as bets colocam “iscas no lugar certo, na hora certa”. Dificilmente, enredado, o jogador escapa — do engenheiro ao servente de pedreiro.

O estudioso da Fundação Getúlio Vargas frisa que os “desvios da racionalidade não são aleatórios nem imprevisíveis. São regulares, documentáveis e, portanto, reproduzíveis em larga escala. As plataformas de apostas compreenderam essa dinâmica e a incorporaram em seu modelo de negócios”.

De alguma maneira, as bets estão usando “ciência” para fisgar supostos incautos até altamente informados. Elas “mapeiam” o jogador; é como se fossem confidentes. Só que o “dependente” não sabe que, de “sujeito”, se tornou em parte ou totalmente “objeto”. Um sujeito objetificado, digamos.

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A reportagem de “O Estado de S. Paulo”, mencionando o scholar da FGV, assinala que “cada componente da experiência do usuário, como velocidade das transações, estrutura das recompensas e momento em que uma notificação chega, é desenhado para que decisões deliberadas sejam orientadas por um objetivo preciso: maximizar o tempo de engajamento e o volume apostado por usuário”.

Assim, “o que maximiza o retorno não é a satisfação do consumidor, mas o Lifetime Value, ou seja, o valor total que cada usuário gera ao longo de sua permanência na plataforma”.

As bets operam na seguinte vibe: “Recompensas ocasionalmente grandes, intercaladas com pequenas recompensas frequentes, geram o comportamento mais resistente a abandono”. O apostador pensa que está (quase) sempre “ganhando”, quando, além de se tornar dependente crônico, está (quase) sempre perdendo.

O pós-doutor por Harvard destaca que as bets “eliminaram os entraves para o apostador. ‘Não há deslocamento até um estabelecimento, nem ficha para comprar, nem horário de funcionamento. O ciclo de recompensa variável está disponível a qualquer hora, em dois toques na tela, com depósito via Pix em segundos’”.

A articulação da dependência

Há uma rara habilidade técnica nas bets — que nada têm de amadoras e aleatórias. Cria, tecnicamente, a “ilusão de proximidade (o “quase” ganhou), medo de perder (janela de oportunidade se fechando) e redução da dor de pagar (apostas com valores baixos criam a ilusão de que a perda é pequena)”.

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A manipulação é praticamente perfeita, notadamente porque produz a ideia de que o jogador é sr. de seu destino… quando está jogando. Cria-se a ilusão de que está no comando. Quando está sendo “comandado”.

O sistema é orientado, critica Flávio Ataliba, “para reduzir a deliberação e aumentar a frequência das decisões”. Trata-se de “uma espécie de arquitetura econômica da dependência”.

O sistema conta com quatro pilares, postula o pesquisador, no registro do “Estadão”: “Redução de fricções (como depósito via Pix, aposta em dois cliques e valores mínimos baixos), recompensa variável (a incerteza sobre quando e quanto a recompensa virá torna o comportamento resistente ao abandono), personalização algorítmica (em notificações, bônus e chances) e aprendizagem contínua (cada aposta melhora a capacidade da plataforma de prever e induzir a próxima decisão)”.

O indivíduo, quando joga nas bets, está sendo monitorado e estimulado. Mas ele não percebe assim, porque parece ter o controle da situação.

O quarto pilar é o problema mais grave, na avaliação de Flávio Ataliba. “Porque as plataformas personalizam notificações e bônus por perfil. ‘A inteligência artificial permitirá determinar qual horário de notificação produz maior retorno para aquele usuário específico, qual valor de bônus maximiza o engajamento e qual sequência de quase acertos prolonga a sessão. O que hoje é uma arquitetura de massa passará a ser uma arquitetura personalizada de dependência’.”

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Flávio Ataliba pontua que “está em curso uma transformação estrutural dos mercados digitais”, e não apenas “um problema setorial de apostas”. O que está acontecendo com as bets, gerando dependência gigantesca, está migrando para outros setores da economia, como o crédito cada vez mais amplo e facilidade.

Medidas regulatórias necessárias

O expert da FGV não fica apenas no diagnóstico. Ele sugere medidas regulatórias, ao menos para “reduzir o impacto do sistema” das bets.

Por exemplo, na síntese do “Estadão”: “Substituição de avisos genéricos por informações individualizadas sobre o comportamento do próprio apostador, e intervalos mínimos obrigatórios entre apostas sucessivas”.

Flávio Ataliba sugere “também o congelamento temporário de odds (eventual retorno sobre o valor apostado) antes da confirmação, o bloqueio automático após perdas sucessivas rápidas e restrições para transações Pix destinadas a plataformas de apostas”.

O Pix precisa ser observado com o máximo de atenção. “Infraestrutura pública operada pelo Banco Central, sua velocidade de liquidação instantânea tornou-se o principal mecanismo de eliminação do espaço de reflexão antes de cada aposta. O Estado que construiu essa infraestrutura tem responsabilidade específica sobre os usos que dela se fazem.”

O Estado deve interferir na liberdade escolha do indivíduo? Não é a pergunta correta, afiança Flávio Ataliba. A pergunta adequada “é saber de quem é a liberdade que se pretende proteger: se a do apostador ou a do engenheiro de produto que projetou a plataforma”.

Uma geração de viciados vai se tornar um problema grave para a economia brasileira e, em seguida, até de saúde pública. Consultórios de psiquiatras e psicólogos ficarão repletos de jogadores compulsivos, possivelmente.