Derrota do modelo: entenda por que a seleção brasileira perdeu a Copa de 2026 e pode perder a próxima
11 julho 2026 às 21h01

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Donni Araújo
Especial para o Jornal Opção
Mais uma vez a Seleção Brasileira de futebol encontrou sua contraparte norueguesa pelo caminho. E novamente a Noruega se mostrou uma pedra na chuteira nacional. Pela quinta vez consecutiva, o Escrete Canarinho foi abalroado pela remada viking. Com dois empates e três vitórias no retrospecto, a Noruega segue sendo a única seleção que enfrentou o Brasil múltiplas vezes e nunca perdeu. A recente derrota por 2 a 1, com dois gols de Haaland, pôs um ponto final na Copa do Mundo de 2026 para os brasileiros.
Na opinião de muitos analistas, a eliminação do Brasil não chegou a ser novidade, uma vez que empresas especializadas em prognósticos, como a Opta Analyst, apontaram, antes do início da competição, que o time brasileiro tinha meros 6% de possibilidades de ganhar o troféu. Além disso, as previsões mostravam que havia várias equipes à sua frente na lista de candidatos ao título.
De qualquer forma, embora uma eliminação seja sempre difícil de digerir, o problema que se apresenta diante do chamado país do futebol parece ser outro. E bem mais complexo. Trata-se da longa sequência de desclassificações do Brasil em Copas do Mundo para seleções de cada vez menor grandeza histórica.
Desde seu último triunfo, em 2002, no torneio da Coreia e Japão, o time brasileiro caiu para a França, em 2006; para a Holanda, em 2010; para a Alemanha, em 2014, com direito ao inapagável vexame de perder por 7 a 1 em casa; 2018 para a Bélgica; 2022 para a Croácia; e agora, em 2026, para a Noruega.
O problema, portanto, não está apenas em perder. No futebol, derrotas acontecem. O que importa é como o perdedor reage a elas. No caso do Brasil, chama atenção a forma como o País passou a reagir aos seus fracassos.
A cada eliminação, repete-se um ritual conhecido. Primeiro vem a indignação. Depois, a caça aos culpados. Em seguida, a discussão se concentra nos nomes mais visíveis. Questiona-se o treinador, o camisa 10, o centroavante, o goleiro, o dirigente da vez. Promete-se uma reformulação, fala-se em reconstrução, anuncia-se o início de um novo ciclo. Passados alguns meses, porém, o debate se esvazia, a rotina reaparece e a estrutura que produziu o fracasso segue praticamente intocada.
É nesse ponto que a derrota para a Noruega deixa de ser apenas mais um resultado ruim e se transforma em sintoma. Mais do que explicar por que o Brasil perdeu este jogo, talvez seja necessário observar o que o futebol brasileiro escolhe discutir depois de perder.
Derrotas e perguntas históricas
Nem sempre o futebol brasileiro reagiu da mesma forma aos seus fracassos. Houve um tempo em que uma derrota era capaz de provocar muito mais do que indignação. Ela despertava questionamentos profundos e, em alguns casos, mudanças que marcaram a história da Seleção.
Foi assim depois da frustração de 1950. A perda da Copa, em pleno Maracanã, para o Uruguai não provocou apenas uma comoção nacional. Levou o futebol brasileiro a rever conceitos, símbolos e a própria identidade da Seleção.
A eliminação ainda na primeira fase da Copa de 1966, na Inglaterra, também abriu caminho para uma profunda revisão dos métodos de preparação da equipe nacional. Quatro anos depois, o Brasil apresentava ao mundo uma das maiores seleções de todos os tempos e conquistava seu terceiro título mundial, no México.

A sequência das Copas de 1982, 1986 e 1990 produziu outro tipo de ruptura. A derrota da escola identificada com o futebol-arte, simbolizada pelo trabalho de Telê Santana, abriu espaço para uma mudança de paradigma. A partir dali o futebol brasileiro passou a buscar um modelo mais pragmático, que encontraria sua consagração com a conquista do quarto título mundial, em 1994.
Vieram depois a inesperada derrota para a França na decisão de 1998, a conquista do quinto título mundial em 2002 e as eliminações de 2006 e 2010. Cada episódio gerou debates, críticas e cobranças, mas nenhum deles produziu uma transformação comparável às grandes revisões que marcaram outros momentos da história da Seleção.
Quando aconteceu a goleada sofrida em casa, no Mineirão, por 7 a 1 diante da Alemanha, em 2014, parecia que o humilhante resultado iria representar um novo ponto de inflexão. O tamanho do vexame sugeria que o futebol brasileiro voltaria a discutir seus caminhos de maneira profunda. Não foi o que ocorreu. Mudou-se o treinador, trocaram-se alguns nomes, inaugurou-se mais um ciclo, mas as perguntas essenciais permaneceram praticamente as mesmas. E, 12 anos depois, o Brasil voltou para casa com outra eliminação e praticamente os mesmos questionamentos superficiais de sempre.
Causas e culpados
É justamente nesse ponto que o debate sobre a Seleção Brasileira parece ter perdido profundidade. Existe uma diferença fundamental entre a derrota de um clube e a derrota de uma seleção nacional. Um clube representa apenas um time. A Seleção representa o conceito de futebol de um país. Por isso, quando ela fracassa, as perguntas não deveriam se limitar aos personagens. Deveriam alcançar o modelo que produziu aquele resultado.
Em alguns momentos da história, isso aconteceu. As grandes derrotas levaram o futebol brasileiro a discutir identidade, métodos de preparação, conceitos de jogo e os rumos que pretendia seguir. Apontar responsáveis fazia parte do processo, mas não encerrava o debate. Era apenas o começo dele.
A primeira providência sempre foi encontrar o culpado da vez. O treinador passa a ser questionado, a convocação é colocada em xeque, alguns jogadores são transformados em vilões e dirigentes prometem mais um processo de reformulação que, quase sempre, se resume à troca de alguns nomes.
Passado o impacto inicial, porém, nas ocasiões em que as derrotas serviram de estopim para mudanças, o debate tomou um caminho mais profundo. Surgiram questionamentos que levaram o País em direção a transformações que resultaram, algum tempo depois, em conquistas que construíram fama e glória, tornando o Brasil no que passou a ser chamado de país do futebol, dono do jogo bonito.
Entretanto, após o triunfo na Copa de 2002, realizada na Coreia e Japão, parece que uma chuva anestésica caiu sobre o futebol brasileiro e o questionamento após os seguidos fracassos nos Mundiais seguintes ficou raso, como se um estranho torpor e profunda resignação tenham tomado de assalto a vocação vencedora que antes existia no País. O debate deixou de investigar as causas para limitar-se aos culpados.
Foi a partir desse momento que as perguntas mais importantes começaram a desaparecer do debate. Que conceito de futebol a Seleção Brasileira pretende representar? O processo de formação de jogadores continua coerente com essa identidade? O modelo de preparação acompanha aquilo que se espera do futebol brasileiro? O planejamento da Seleção dialoga com um projeto de longo prazo ou apenas responde à urgência do próximo resultado?
Ou, em uma única pergunta: que futebol o Brasil pretende oferecer ao mundo?
Encontrar um culpado é muito mais fácil do que enfrentar perguntas dessa natureza. Talvez por isso elas apareçam cada vez menos depois das derrotas. E, quando as perguntas desaparecem, as respostas tendem a repetir os mesmos caminhos de sempre. Muda-se muito na superfície para que quase tudo permaneça igual na essência.
Talvez aí esteja o maior equívoco do futebol brasileiro nas últimas décadas. O Brasil passou a tratar as consequências como se fossem causas. Em vez de discutir o conceito de futebol que a Seleção representa, prefere discutir apenas o desempenho do time que entrou em campo. Em vez de investigar os processos que conduziram ao fracasso, concentra-se nos personagens mais visíveis daquela derrota.
Treinadores, jogadores e dirigentes têm, naturalmente, sua parcela de responsabilidade. Mas derrotas são produzidas por processos, não apenas por personagens. E, enquanto a discussão permanecer restrita aos culpados da vez, o futebol brasileiro continuará correndo o risco de reescrever, a cada quatro anos, uma história cujo roteiro já se tornou conhecido demais.
Craques por operários de luxo
Por que as respostas se tornaram tão deliberadamente rasas?
Talvez a resposta a essa pergunta não esteja na técnica, mas no mercado e nas relações de poder que passaram a organizar o futebol. O Brasil passou a tratar as consequências como se fossem causas porque o esvaziamento do debate acabou funcionando como um eficiente mecanismo de preservação do status quo. Existe uma diferença fundamental entre o futebol do passado e o de hoje.
Durante boa parte do Século XX, a Seleção representava o ponto mais alto de um projeto de carreira para um atleta brasileiro no futebol. E esse planejamento para a profissão era todo desenvolvido dentro do próprio País. Os grandes jogadores amadureciam nos clubes brasileiros, os conceitos de jogo eram construídos aqui e a Seleção funcionava como a vitrine de um futebol cuja identidade nascia e ficava em território nacional.
Esse modelo deixou de existir.
A Seleção Brasileira deixou de ser a expressão máxima do futebol praticado no país para se transformar em uma espécie de franquia global, muito mais integrada ao mercado internacional do que ao próprio futebol brasileiro.
O País deixou de fabricar craques para produzir operários de luxo destinados à exportação. E a saída deles passou a ocorrer cada vez mais cedo. Os atletas começaram a deixar o País tão logo completem 18 anos.
Desde então, o ecossistema do futebol brasileiro passou a consumir jogadores moldados para atender ao mercado europeu, e não mais às características que durante décadas definiram a identidade do nosso futebol.
O divórcio entre o chão do país e o time que veste a “amarelinha” é real.
Não se trata de desmerecer a qualidade técnica dos jogadores brasileiros nem de ignorar a importância econômica das transferências para o exterior. Trata-se apenas de reconhecer que a prioridade mudou. O jogador passou a ser preparado para atender às exigências de um mercado global extremamente competitivo, e não necessariamente para preservar as características que fizeram do futebol brasileiro uma referência mundial.
Nesse contexto, a Seleção Brasileira deixa de ser o ponto de chegada de um projeto esportivo nacional para transformar-se na vitrine mais valiosa de uma cadeia econômica que movimenta bilhões de dólares todos os anos.
Naturalmente, um sistema dessa dimensão cria seus próprios mecanismos de preservação. Clubes dependem da venda de jogadores. Empresários vivem da circulação desses talentos. A Confederação Brasileira de Futebol – CBF – organiza a Seleção dentro dessa realidade. As federações estaduais preservam seu peso político. Todos cumprem papéis legítimos dentro de uma engrenagem que, do ponto de vista financeiro, funciona muito melhor do que do ponto de vista esportivo.
É justamente por isso que discutir apenas o treinador ou a convocação tornou-se tão conveniente. Rever um elenco custa pouco. Rever um modelo significa enfrentar interesses políticos, econômicos e esportivos profundamente consolidados.
Talvez aí esteja a verdadeira razão pela qual o debate brasileiro se tornou tão superficial. Não porque faltem especialistas capazes de formular perguntas melhores. Mas porque as respostas para essas perguntas conduziriam inevitavelmente a uma discussão muito maior do que a permanência deste ou daquele treinador.
Porque, quando as perguntas certas ameaçam os interesses do sistema, torna-se muito mais conveniente discutir os personagens do que o sistema que os produz. Enquanto o debate permanecer restrito aos personagens, o sistema continuará protegido.
Muito além da Noruega
O Brasil deixou de influenciar o futebol mundial e passou a tentar imitá-lo.
Durante décadas, o mundo observava o futebol brasileiro para aprender. Hoje, o futebol brasileiro parece muito mais preocupado em adaptar-se aos modelos produzidos por outros centros do que em desenvolver um pensamento próprio.
Claramente, do ponto de vista esportivo essa ideia não está dando certo. Talvez esteja no aspecto financeiro, mas no âmbito desportivo, definitivamente não está funcionando.
É certo que a maior derrota do futebol brasileiro não tenha acontecido diante da Noruega nem de qualquer outra equipe internacional. Ela pode ter acontecido muito antes, no dia em que a Seleção Brasileira deixou de ser tratada como a expressão máxima do futebol praticado no país e passou a ser analisada apenas como mais um time de futebol.
Times perdem. Isso faz parte do esporte. Seleções nacionais também. A diferença é que a derrota de uma seleção deveria obrigar um país a refletir sobre o futebol que produz, sobre os conceitos que defende, sobre os jogadores que forma e sobre a identidade que pretende preservar.
No Brasil, porém, esse exercício parece ter sido substituído por outro muito mais confortável. Procura-se o culpado da vez. Muda-se o treinador, discute-se a convocação, condenam-se alguns jogadores, anunciam-se novos ciclos e cria-se a sensação de que alguma providência foi tomada. Quase nunca foi.
Enquanto a derrota de uma seleção continuar sendo tratada como a derrota de um simples time de futebol, o Brasil continuará confundindo consequências com causas. E quem insiste em discutir apenas as consequências dificilmente encontrará as causas dos próprios fracassos.
A eliminação para a Noruega passará. Como passaram as da França, da Holanda, da Alemanha, da Bélgica e da Croácia. O que não pode continuar passando é a oportunidade de o futebol brasileiro voltar a fazer as perguntas que, durante décadas, ajudaram a construir sua identidade.
Porque Copas do Mundo não servem apenas para apontar campeões. Servem, sobretudo, para revelar o estágio em que se encontra o futebol de cada país. E, nesse aspecto, talvez a derrota para a Noruega tenha revelado muito mais sobre o Brasil do que o placar de 2 a 1 foi capaz de mostrar.
Enquanto uma seleção continuar sendo tratada como um simples time de futebol, o Brasil continuará confundindo consequências com causas.
Donni Araújo, compositor e jornalista, é colaborador do Jornal Opção.



