O jornalista e pesquisador Leonencio Nossa escreveu uma espécie de “Grande Sertão: Veredas” das biografias. O livro “João Guimarães Rosa — Biografia” (Nova Fronteira e Topbooks, 735 páginas) é uma obra-prima. Uma enciclopédia incontornável sobre o escritor e o país de seu tempo.

É, claro, uma biografia, mas também um guia —  uma porta de entrada segura — à obra de Guimarães Rosa (1908-1967 — viveu 59 anos). O capítulo “Personagens da vida e da obra de Rosa” é uma contribuição formidável ao entendimento das personagens que foram baseadas em pessoas reais.

Ainda assim, trata-se de literatura, e não de jornalismo. Pois as personagens são “inventadas” e não meramente “transcritas” do real para as histórias imaginadas por uma voz literária poderosa (uma voz não-caipira sobre o mundo sertanejo).

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João Guimarães, autor de “Grande Sertão: Veredas”, adorava gatos, cachorros e papagaios | Foto: Reprodução

A partir de determinados indivíduos (Manuelzão e ele próprio, que, de alguma maneira, é Miguilim), criava a magia literária: personagens que passam a conviver conosco como se realmente existissem — espécies de lendas vivas. Diadorim e Riobaldo são nossos “irmãos”. Circulam com a gente pela vida, às vezes “pondo” palavras nas nossas bocas (“viver é muito perigoso”, por exemplo).

O livro mostra como Guimarães Rosa absorvia a literatura alheia, às vezes sem admitir a influência. Dada sua originalidade, bebia em várias fontes, mas o resultado era puramente made in Rosa. De alguma maneira, a criatura de Cordisburgo melhorou aqueles que o inspiraram.

A biografia deixa evidente que a literatura de Guimarães Rosa é, de certo modo, um contraponto ao desenvolvimentismo de um aliado político, o presidente Juscelino Kubitschek. O autor de “Corpo de Baile” não apreciava a modernização destrutiva do mundo sertanejo, do qual era um apóstolo siderado. Cada um luta com as armas que tem. A dele era a literatura.

Guimarães Rosa capa de Grande Sertão Veredas

As qualidades de Guimarães Rosa, com sua literatura inventiva, já foram expostas por Leonencio Nossa e pelos resenhistas da biografia. Por isso, neste texto, será apresentado o (quase?) latin lover, algo mais, digamos, mundano.

Sabe-se pouco, quase nada, sobre os relacionamentos de Guimarães Rosa com mulheres. Ao contar as histórias, sem nenhum sensacionalismo e demonização, Leonencio Nossa torna o gênio, o deus da literatura brasileira, mais, digamos, “normal”. Gente como a gente. Coisa assim. O deus sai humano, mais humano, da pesquisa de 20 anos.

Lygia Cabral, Beata Vettori e Aracy Moebius

A primeira namorada de Guimarães Rosa foi Nadir Gazinelli. Conheceu-a quando tinha 15 anos e estava estudando violino. Foi “a primeira relação íntima do jovem Rosa. (…) A relação durou cerca de dois anos”.

Beata Vettori uma das paixões de Guimarães Rosa
Beata Vettori: a diplomata foi uma das paixões de Guimarães Rosa | Foto: Reprodução

Alto (1,80m), Guimarães Rosa não era galã, mas atraía mulheres interessantes. Talvez pela timidez ou pela sensibilidade? Mais provável pela inteligência, pela cultura e pelos modos refinados, gentis.

Sim, como tantas pessoas, mesmo casado, Guimarães Rosa teve amantes. Em “Ave, Palavra”, escreveu: “Amar é a gente se abraçar com um pássaro que voa”.

No concurso do Itamaraty, para diplomata, Guimarães Rosa ficou em segundo lugar, atrás do alagoano Renato Firmino Maia de Mendonça. Duas mulheres — Beata Vettori e Myriam Leonardo Pereira (mãe da atriz Renata Sorrah) — passaram em terceiro e quarto lugares.

Em 1930, aos 22 anos, Guimarães Rosa se casou com Lygia Cabral Penna (parente do presidente Afonso Pena). Os dois se davam bem. Mas o jovem tinha olhos para outras mulheres.

Lygia Cabral Mattos e Guimarães Rosa Foto reprodução
Lygia Cabral Penna e Guimarães Rosa foram casados e tiveram duas filhas | Foto: Reprodução

Em 1934, Guimarães Rosa se tornou cônsul de terceira classe. Abandonou de vez a medicina, que nunca o entusiasmara muito. Mesmo discreto, e casado com Lydia Cabral, começou a observar (“paquerar”) a diplomata Beata Vettori.

Mulher inteligente e independente, Beata Vettori, de 25 anos, encantou, de cara, Guimarães Rosa, de 26 anos. Ele “ficou fascinado. (…) Foi paixão imediata para o mineiro que chegava ao Rio”.

Havia uma pedra no meio do caminho, o Itamaraty. “Beata estava disposta a seguir carreira. Um casamento entre diplomatas não era permitido pelas regras do Itamaraty: um dos dois tinha que desistir. Naquele tempo, quem abdicava era a mulher”, relata Leonencio Nossa.

Como Beata Vettori decidiu seguir a carreira, “o amor entre os dois conselheiros ficou sufocado, escondido”.

Guimarães Rosa teve duas filhas com Lygia — Vilma e Agnes. Ele se dava muito bem com as garotas. Elas se tornaram grandes leitoras — Vilma Guimarães Rosa escreveu livros — sob incentivo do pai.

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Leonardo Nossa: autor de uma biografia extraordinária de um dos maiores escritores brasileiros | Foto: Gustavo Alcântara

Quando foi para Hamburgo, na Alemanha, Guimarães Rosa conheceu Aracy Moebius de Carvalho, por quem se apaixonou — o que resultou na separação de Lygia (mas continuaram amigos; ela permaneceu como sua conselheira).

Os dois trabalhavam no consulado de Hamburgo e, juntos, ao concederem vistos para o Brasil, salvaram vários judeus das garras mortais dos nazistas de Adolf Hitler, o ditador da Alemanha.

Na questão de salvar judeus, Aracy Moebius, tudo indica, era mais corajosa do que o companheiro. Mas ele a protegeu o tempo todo. Eram parceiros na luta contra os assassinos do Terceiro Reich, os formuladores do Holocausto.

Na Alemanha, o escritor chegou a flertar com a jovem alemã Márion Madsen, mas o “caso” parece ter sido apenas platônico.

Márion Madsen foi “quase namorada” de Guimarães Rosa. “Durante um dia.”

Aracy Moebius e Guimarães Rosa
Aracy Moebius e Guimarães Rosa: paixão começada na Alemanha de Goethe | Foto: Reprodução

Cabarés em Paris e Manaus

A aparência sisuda de Guimarães Rosa, com aquela “aristocrática” gravata borboleta, escondia um homem que se divertia e sabia divertir os outros.

Leonencio Nossa conta que, “nos elevadores, quando tinha mulheres, Rosa apagava a luz e começava a gritar ‘ai, ai, ai’, como se estivesse sendo atacado por elas”.

Ao visitar Montecatini, na Toscana, Guimarães Rosa ficou mesmerizado com a beleza das mulheres. Para comprovar, enviou fotografias de algumas para os amigos diplomatas Roberto Assumpção e Lolô Bernardes (Carlos Alberto Bernardes).

Guimarães Rosa na companhia de vaqueiros, homens do sertão e das veredas | Foto: Reprodução

Em Paris, pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Guimarães Rosa fazia uma peregrinação profana pelos cabarés. Anota Leonencio Nossa: “Na erótica cidade sufocada pelas autoridades conservadoras e higienistas, o escritor frequentava os bordéis agora clandestinos. Evitava, claro, deixar qualquer registro ou anotação sobre as experiências com as moças”.

O advogado e bibliófilo Manoel Portinari Leão foi confidente de Roberto Assumpção, amigo de Guimarães Rosa.

Eis o relato de Portinari Leão: “Roberto Assumpção fez uma excursão com ele [Rosa] na Itália. Me contava que não podiam chegar a uma cidade que o Guimarães Rosa queria ir para o prostíbulo. E ele, Roberto, que se achava bonitão, ficava horrorizado com isso. Rosa gostava de prostíbulos”.

Em Manaus, Guimarães Rosa pediu para o diplomata Alberto da Costa e Silva levá-lo num cabaré. Com um caderninho de anotações nas mãos, perguntou para uma mulher: “Com você se chama, minha filha?” “Sueli”, respondeu a jovem. “Eu não quero saber o seu nome de guerra, quero seu nome real.” A história, do ponto de vista físico, parece não ter avançado.

Guimarães Rosa e Antôno Olinto e Jorge Amado
Guimarães Rosa, Antônio Olinto e Jorge Amado: escritores | Foto: Reprodução

Homem galante, Guimarães Rosa, quando estava autografando “Grande Sertão: Veredas”, na Livraria Cultura Nacional, em São Paulo, ao ver o nome de Ilona Patrícia, perguntou: “A moça não está aqui?” A jovem se apresentou. O escritor disse: “Adivinhei. Com um nome tão lindo, só poderia ser uma jovem encantadora como você”.

Jurado de um concurso literário, “Rosa confidenciou [a Jorge Amado] que lera até o final romances com apelo sexual, mesmo sem qualidade literária”.

“Descobri que sou mau-caráter, original com sacanagem, por pior que fosse, eu li até o fim, tenho o espírito vicioso.” Jorge Amado disse ao amigo que fez o mesmo.

Chiquita Marcondes, a paixão outonal

Aracy Moebius de Carvalho e Guimarães Rosa se amavam? Por certo, sim. Mas, como tantos outros casais, tinham seus desacertos. Ele chegou a escrever que a convivência diária, nas mesmas dependências, gera desgastes. “A coabitação acaba sempre matando o amor”, confidenciou ao amigo Paulo Dantas.

No seu diário, Aracy Moebius anotou: “Será que Joãozinho é capaz de gostar mesmo verdadeiramente de alguém? Às vezes, chego a duvidar seriamente”.

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Chiquita Marcondes: paixão de Guimarães Rosa | Foto: Reprodução

Qual o problema? Guimarães Rosa era, decerto, capaz de amar, e, ao seu modo, amou Lygia Cabral e Aracy Moebius.

Mas talvez tenha sido casado mesmo, por 59 anos, muito mais com a literatura. “Grande Sertão: Veredas”, “Sagarana” e “Corpo de Baile” resultaram de uma paixão profunda e desmedida pela vida e pela arte. (Ao escrever “Grande Sertão”, Joãozinho chegou a adoecer. Parecia possuído por alguma “entidade”. Teria feito algum pacto com o abominável Hermógenes ou com o simpático Riobaldo?)

Quem foi a grande paixão de Guimarães Rosa? Talvez todas as mulheres com as quais se relacionou, cada uma a seu tempo.

Mas Chiquita Marcondes, de acordo com Agnes, filha do escritor, pode ter sido a paixão outonal de Guimarães Rosa. “Ela foi o grande amor dele. Ele pretendia se casar com essa Chiquita”, diz a caçula do autor de “Sagarana”.

Cuidadoso e delicado, mas sempre revelador, Leonencio Nossa conta: “A relação de Rosa e Chiquita surge com frequência nos testemunhos de quem conviveu com eles. Mas, quase sempre, na surdina. Por se tratar de um vínculo entre duas pessoas discretas, o relato desse caso afetivo é de difícil reconstituição”.

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Em Tutameia há um conto com uma personagem inspirada em Chiquita Marcondes | Foto: Jornal Opção

No Lebron, no Rio, Guimarães Rosa visitava uma casa uma vez por semana. Ele dizia para o diplomata goiano William Agel de Mello (grande tradutor da poesia do espanhol Federico García Lorca): “Preciso ir ao encontro da minha tradutora”.

Na verdade, ia ver Chiquita Marcondes, que estava separada do diplomata Lolô Bernardes. Já o escritor permanecia casado com Aracy Moebius.

Neta de Chiquita Marcondes, Letícia Bernardes Tomassini disse ao biógrafo: “João era uma figura muito permanente na casa” (da avó). Mas ressalva: “A relação dos dois é um mistério”.

Guimarães Rosa era, segundo Letícia, uma “igreja” para Guimarães Rosa. “A maneira como vovó falava do João mostrava que ele era central na vida dela.”

Em 1967, Guimarães Rosa teve um infarto e morreu. Ao ser informada da morte, “Chiquita Marcondes chorou aos prantos”. Era tão supersticiosa quanto ele: “João não podia ter tomado posse. A gente sabia que aquilo podia acontecer”.

Chiquita Marcondes, informa a sobrinha Roselyn May Elizabeth Taves, “emagreceu, ficou igual a um palito”. Comportou-se como viúva amorosa e saudosa do escritor.

A “paixão” de Guimarães Rosa morreu quarenta anos depois, em 2007. Leonencio Nossa revela que Chiquita Marcondes aparece no conto “Palhaço da boca verde”, do livro “Tutameia”. É a personagem Mena Verguedo.

Francisca Marcondes, a Chiquita, “foi uma das primeiras mulheres a passar num concurso do Itamaraty. A legislação impedia que dois diplomatas contraíssem matrimônio. Assim, ela abriu mão da carreira para garantir o casamento e permanência do marido” na diplomacia. Foi aprovada em sexto lugar.

Chiquita Marcondes, de 1,75m, “era rica, de comportamento sempre alegre, atraente e bela”. “Tia Chiquita era uma pessoa elegante”, afirma Roselyn May.

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Conto de Bernardo Élis é apontado como extraordinário por Guimarães Rosa

Vários goianos são citados no livro sobre Guimarães Rosa. Alguns, como William Agel de Melo (nasceu em Catalão e morreu, aos 86 anos, em 2024) e Lauro Monteiro (vivo, aos 86 anos; nasceu em Anápolis), foram seus amigos e, até, confidentes. Sobretudo, bons companheiros de diplomacia, no Itamaraty. O escritor era agradável e solícito.

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Autor de “O Tronco” e “Veranico de Janeiro”, Bernardo Élis é o goiano mais elogiado por Guimarães Rosa. De alguma maneira, eram escritores irmãos e cultíssimos (o autor do conto “A Enxada” sabia inglês, chegou a traduzir um livro, e também tupi).

Em agosto de 1965, Guimarães Rosa participou de um almoço na Editora José Olympio, no Rio de Janeiro, em homenagem a Bernardo Élis, que havia ganhado o Prêmio José Lins do Rego pelo livro de contos “Veranico de Janeiro” (por sinal, uma obra-prima). Estavam lá Manuel Bandeira, Dalcídio Jurandir e, entre outros, Peregrino Júnior.

O conto “Ontem como hoje como amanhã como depois” (título gertrude-steiniano), inserto no livro “Caminhos e Descaminhos”, de Bernardo Élis, “repercutia nos grandes centros”. Era uma história com temática indígena.

Bernardo Élis: o escritor na Academia Brasileira de Letras | Foto: Reprodução

Bernardo Élis descreve “o drama da população nativa do Centro-Oeste diante da violência dos brancos”.

Leonencio Nossa assinala que “Rosa não poupou elogios: ‘Ninguém, em país nenhum, nenhum tempo, parte alguma, escreveu coisa melhor’”.

O escritor e crítico literário Alaor Barbosa, hoje com 86 anos, conviveu com Guimarães Rosa e escreveu sua biografia (“Sinfonia de Minas Gerais — A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa”). O goiano de Morrinhos é citado em quatro páginas.

Como Ferreira Gullar não entendeu — ou melhor, não quis entender — a prosa de Guimarães Rosa, no tempo em que foi publicada, e o atacava, o escritor, ao se encontrar com Alaor Barbosa, disse sobre o poeta e crítico: “É um sujeito estranho, não?”.

William Agel de Mello: escritor, dicionarista e tradutor | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

O tempo revelou que, quando a Guimarães Rosa, o notável bardo maranhense era mesmo um E.T. Ferreira Gullar e a turma do “Jornal do Brasil”, inclusive os irmãos Campos (Augusto e Haroldo). Os concretos só mais tarde, com o escritor morto, reconheceram o seu valor. Entenderam, por fim, de que estavam diante do James Joyce (ou Faulkner) patropi matizado por Goethe. O autor do “Poema Sujo” acabou brigando com os poetas paulistas.

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Alaor Barbosa: autor de uma biografia de Guimarães Rosa | Foto: Reprodução

Em 1962, Guimarães Rosa publicou o conto “Nada e a nossa condição”, na revista “Movimento”, a pedido de Alaor Barbosa, que era estudante e depois embrenhou-se pelo jornalismo.

Precursor tanto de Guimarães Rosa quanto de Bernardo Élis, Hugo de Carvalho Ramos é mencionado em duas páginas.