Conta-se que, andando por uma rua da Recoleta, em Buenos Aires, o poeta, contista e ensaísta Jorge Luis Borges foi cercado por estudantes da esquerda peronista. Os jovens vociferavam: “Morra, Borges! Morra, Borges! Morra, Borges!”

Calmamente, com a fleuma dos argentinos que se consideram meio-ingleses, Borges teria dito: “Bem que eu quero morrer, mas sou imortal”.

Os ditos acima podem resultar de lendas que se contam de Borges. Porque há lendas e mitos a granel a seu respeito — espalhados por argentinos e pelo próprio autor do magistral conto “O Aleph” (Companhia das Letras, 156 páginas, tradução de Davi Arrigucci Jr.).

Certa feita, no muito bom sebo Dickens, na Avenida Corrientes, em Buenos Aires, um argentino de cerca de 65 anos, peronista — “mas não kirchnerista”, advertiu, veemente —, me deu uma “aula” sobre Borges.

De cara, o portenho disse que Borges era “homossexual”. Depois, garantiu que “era impotente”. Por fim, assegurou que o escritor “tinha a pingola mignon”. Por isso, seria “rejeitado pelas mulheres”.

Contraditei o “jubilado” (como se apresentou): “O sr. acabou de dizer que Borges era homossexual e agora acrescenta que era ‘rejeitado’ pelas mulheres”.

Leonor Acevedo e Jorge Luis Borges Foto Reprodução
Jorge Luis Borges e Leonor Acevedo: filho e mãe eram muito ligados | Foto: Reprodução

O argentino pigarreou e disse, suspirando: “Você não sabia que tem gays que saem com mulheres?”. Ponderei: “Li três biografias de Borges e, apesar da dificuldade com mulheres, não há indícios de que era homossexual; inclusive morreu casado com mulher, María Kodama Schweizer” (1937-2023).

O portenho me olhou, de maneira depreciativa, e tascou: “Você, brasileiro, quer saber mais do que eu, que sou argentino?” A  conversa sobre Borges praticamente acabou.

Para encerrar a discussão, mantendo a cordialidade, perguntei se o homem, Diego, conhecia a literatura brasileira. “Li Jorge Amado, mas o meu escritor brasileiro preferido é Paulo Coelho”, disse o “jubilado”, aposentando a conversa, em caráter definitivo.

Borges: o conhecido-desconhecido

Pergunte nas livrarias (Eterna Cadencia, Libros del Pasaje, Guadalquivir, Hernández, Edipo e Cúspide são as melhores; El Ateneo é para turista-fotógrafo) e sebos da Argentina: há alguma biografia do grande poeta Oliverio Girondo? A resposta é a de sempre: “não”. De Borges, há várias biografias e estudos.

Borges Capa de El Orden del Aleph de Gustavo Faverón Patriau 500

Na El Ateneo e na Yenny, da mesma rede, há uma estante só com livros de e sobre Borges. Há, inclusive, um belo livro exclusivo sobre uma de suas melhores histórias: “El Orden del Aleph” (Peisa, 336 páginas. Caro: 185 reais), de Gustavo Faverón Patriau.

De Victoria Ocampo é possível encontrar ao menos três (inclusive romances que relatam sua vida), em sebos. De Silvina Ocampo apenas uma, curta mas ótima (até nas fofocas: Bioy Casares, o belo, foi amante da excelente escritora mexicana Elena Garro, casada com o poeta e ensaísta Octavio Paz), de autoria de Mariana Enriquez.

Borges é um continente muito conhecido e, ao mesmo tempo, desconhecido. Sua obra e sua vida continuam rendendo múltiplas interpretações de jornalistas e analistas acadêmicos. Sua literatura não é, mas parece impenetrável. A crítica ajuda muito a ampliar seu entendimento.

Mesmo com várias biografias, a vida de Borges precisa ser mais contada, por assim dizer. Porque, repetindo, é o conhecido desconhecido.

Borges nasceu em 24 de agosto de 1899 — há quase 127 anos — e morreu em 14 de junho de 1986, há 40 anos. Tinha 86 anos.

Josefina Dorado e Bioy Casares e Victoria Ocampo e Jorge Luis Borges
Josefina Dorado, Bioy Casares (grande amigo do autor do conto “Aleph”), Victoria Ocampo (criadora da revista e da Editora Sur) e Jorge Luis Borges, em 1935 | Foto: Reprodução

Agora, sai mais uma biografia do autor de “O Livro dos Seres Imaginários” (Companhia das Letras, 219 páginas, tradução de Heloisa Jahn). Trata-se de “Jorge Luis Borges — Un Destino Literário” (Cátedra, 720 páginas. Caro: 269,6 reais), de Lucas Adur, de 43 anos, professor da Universidade de Buenos Aires (Uba) e doutor em Letras.

No dia 6 de junho, Carmen Ercegovich, do jornal argentino “Clarín”, entrevistou Lucas Adur. Seu livro resulta de uma pesquisa de cinco anos.

Ercegovich cita Adolfo Bioy Casares, um dos principais amigos de Borges: “Passei pelo quiosco [banca de revista]. Fui a outro entre a [rua] Callao e a Quintana, sentindo que eram meus primeiros passos em um mundo sem Borges”. O autor de “A Invenção de Morel” está se referindo à morte do escritor, em 1986, e à sua importância como escritor e amigo. De fato, o mundo só não ficou “pior” sem Borges porque sua obra permanece entre nós, para todo o sempre, do Oiapoque a Yakutsk.

Dançava tango, bebi e brigava

“Até agora, os que escreveram sobre Borges, ainda que não o tivessem entrevistado, tinham a imagem sua, pelo menos por tê-lo visto na televisão ou o escutado no rádio. Eu não tenho recordações pessoais porque Borges morreu quando eu tinha 3 anos. Mas creio que isso me permite ter outro olhar, evitar [contornar] certos preconceitos que para os contemporâneos de Borges era difícil ignorar”, assinala Lucas Adur.

Borges capa de O Aleph 500

A repórter pergunta: “O que faltava contar sobre Borges?”

“Há 20 anos não se publicava uma biografia e tem aparecido algumas novidades que faltava incorporar, especialmente o ‘Borges’ de Bioy [nota do Clarín: livro publicado em 2006 com extratos dos diários de Bioy Casares sobre a relação entre os escritores), com muitíssimos dados e a possibilidade de aceder à sua intimidade, mediada pela visão de um amigo”, explica Lucas Adur.

O biógrafo afirma que estudos acadêmicos exibiram um Borges multifacetado, mais “terreno” e menos “deus”, digamos assim. Perseguido no governo do presidente Juan Domingo Perón, o escritor, para sobreviver, dedicou-se a dar conferências em clubes e associações do interior da Argentina.

Lucas Adur diz que isso acaba com a ideia de que, consagrado, Borges vivia numa “torre de marfim”. “Ele tinha de sair de Buenos Aires para trabalhar e ganhar o pão.” Por sinal, sua “consagração foi um trabalho de formiga”. Surge, então, um Borges trabalhador. Quase um proleta cultural.

Não há um, e sim “vários” Borges, postula Lucas Adur. O escritor era cego. Mas criou-se uma mitologia, impulsionada pelo próprio Borges, a respeito. Cristalizou-se uma espécie de Homero dos tempos modernos. Quase uma divinização da cegueira. Quem leu para Borges se tornou famoso.

Borges capa de Poesia500
Poesia de Jorge Luis Borges em tradução precisa da brasieira Josely Vianna Baptista | Foto: Jornal Opção

“Quando jovem, Borges dançava tango, fumava, se embebedava, trocava tapas e frequentava bordéis com amigos”, relata Lucas. Quando acordava, a turma mal sabia onde estava, às vezes aparecia nos lagos de Palermo.

“Dos 18 aos 30 anos, a vida de Borges era a de um jovem vanguardista. É uma imagem que parece incongruente com Borges, que depois adotou a imagem do velho Borges, o ancião venerável”, diz Lucas Adur.

Prisão da mãe e antiperonismo

Borges era um antiperonista visceral? Em termos políticos, de acordo com Lucas Adur, “há vários Borges”. “Havia um fervoroso adepto da Revolução Russa [de 1917] e outro para quem o comunismo era ruim.”

O escritor apoiou, por exemplo, Yrigoyen. “Sua ideologia, como sua religiosidade ou sua literatura, mudou ao longo dos anos. O Borges que publica aos 23 anos não é o mesmo que publica as obras completas.” Por isso, diz Lucas Adur, é preciso “historizar” suas posições tanto políticas quanto literárias.

Para Lucas Adur, “o antiperonismo de Borges era mais um sentimento do que uma posição política. Há uma explicação histórica: o peronismo prendeu a mãe de Borges [Leonor Acevedo] e sua irmã” (Norah Borges).

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Jorge Luis Borges e Juan Domingo Perón: inimigos viscerais | Fotos: Reproduções

A prisão da mãe e da irmã “não é a origem do antiperonismo de Borges, mas deriva daí que seu antiperonismo ia se tornar irreversível”.

Assim como o ex-presidente Jair Bolsonaro, nos dias atuais, a prisão de Leonor Acevedo foi domiciliar e durou dois meses, “o que representou um grande sofrimento. A irmã foi encarcerada”. O escritor jamais perdoou o ataque à sua família. A divergência política se tornou pessoal.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Borges, assim com sua amiga Victoria Ocampo, “foi militantemente antifascista e, sobretudo, antinazista”.

Entretanto, Borges “escreveu um conto, ‘Deutsches Requiem’, no qual fala o subdiretor de um campo de concentração”.

O escritor “não o justifica, mas se interessa em explorar como havia sido a voz [o que pensava] do nazista. Ele se interessa pelas particularidades de seu pensamento”.

Frise-se que, como cidadão-intelectual, manteve a condenação ao nazismo da Alemanha de Adolf Hitler (pelo qual Perón nutria simpatia).

Quanto ao peronismo, postula Lucas Adur, Borges não o trata com nuances. Era intransigente e ponto final. “Para ele, o peronismo é simulacro, é canalha; com o peronismo não tem sentido pensar, só ironizar e polemizar.”

Amores de Borges, cegueira e suicídio

A repórter do “Clarín” diz que Borges chegou a pensar em suicídio. “O que o fez sofrer mais: o desamor, a cegueira, a falta de reconhecimento (antes de ser consagrado)?”

Borges e Estela Canto
Jorge Luis Borges e Estela Canto: ele quis se casar; ela, não | Foto: Reprodução

“O golpe da cegueira é muito duro. Porém o supera reinventando-se, aprendendo a escrever de outra maneira, dando conferências, em um momento em que tinha seu lugar conquistado. Ele disse que deixou de ler por si mesmo em 1955, mas foi um processo. Há um texto manuscrito que é comovente. No princípio, está escrito por ele e a letra vai ficar deformada. Por isso é concluído por sua mãe”, conta Lucas Adur.

Ainda que cego, Borges continua “comprando livros”, como qualquer outro “viciado” em leitura.

Numa entrevista dos anos 1970, o escritor disse que tinha expectativa de voltar a enxergar, pois no Japão havia um tratamento “adequado”. “Vinte anos depois de ter perdido a vista, ele seguia com a ilusão de recuperá-la.”

Quando ficou cego, Borges era já um escritor consagrado, ressalta Lucas Adur.

Borges era namorador? Sim, Borges namorou várias mulheres — amores talvez mais platônicos do que físicos. Ele queria se casar; elas, não. O escritor apreciava a sensibilidade e a inteligência das mulheres. Elogiava a literatura da chilena María Luisa Bombal e da argentina Silvina Ocampo, por exemplo.

Borges e Elsa Astete Millán
Elsa Astete e Jorge Luis Borges: o casamento foi uma comédia de erros | Foto: Reprodução

Em setembro de 1967, aos 68 anos, Borges se casa com a viúva Elsa Helena Astete Millán, de 57 anos. Era idoso, ainda mais para os padrões da época. “Ele estava louco para casar. O que queria era simples: um lugar para chamar de seu”, diz o biógrafo James Woodall. Queria mais um lar do que uma mulher, talvez.

“É irônico que Elsa Astete, sua primeira mulher, também tenha sido um desses amores inalcançáveis, a quem escrevia cartas apaixonadas, mas depois terminou deixando-a sem sequer alertá-la”, diz Lucas Adur.

“Sim, Borges, que cultivava a coragem, se comportou covardemente. Disse a Elsa que iria trabalhar e nunca voltou. E ela, apesar de tudo, quase nada falou, embora o divórcio já fosse tema de revistas.” (Parece que se trata de desquite, pois o divórcio só foi legalizado na Argentina em 1987.) O escritor era casado, isto sim, com a literatura.

O pesquisador afirma que Borges tinha o hábito de “reescrever” tanto sua obra quanto a história de sua vida. “Há um poema muito belo que escreveu e dedicou-o a Elsa, mas, depois, o retirou da reedição de suas ‘Obras Completas’, como se não houvesse existido. Em sua ‘Autobiografia’, publicada na época em que estava se separando, apenas menciona sua mulher.”

Psicanálise e traumas sexuais

Borges procurou um analista para lidar supostamente com seus “traumas sexuais”.

Segundo Lucas Adur, Borges debochava da psicanálise, mas ia ao analista. “Isto prova que é preciso ter cuidado com o que o escritor dizia.”

Borges capa de história universal da infâmia500

Borges se tornou paciente do “doutor” Miguel Kohan Miller no momento em que havia começado a se relacionar com a escritora Estela Canto.

O autor de “História Universal da Infâmia” (Companhia das Letras, 96 páginas, tradução de Davi Arrigucci Jr.) queria se casar, mas Estela Canto disse: “Não vou me casar com você antes de mantermos relações”. “A impossibilidade de consumar o ato físico é, sem dúvida, um dos motivos” (da rejeição), sublinha Lucas Adur.

Qual era o “problema” de Borges? Lucas Adur diz que, “quando disse que Borges era impotente”, a escritora Silvina Bullrich gerou um escândalo na Argentina.

Borges ficou muito irritado quando o fotografaram, no México, urinando. Ele não queria ver sua sexualidade exposta.

Nobel de literatura e ícone popular

O fato de não ter ganhado o Prêmio Nobel de Literatura incomodou muito Borges?

Borges por Lucas Adur 550

“Ele ironizava, mas também disse, em muitas entrevistas, que tinha certa ilusão [de que poderia ganhar]. Eu creio que, sem dúvida, ele teria gostado de ganhá-lo. Acredito que tirou proveito do fato de não ter recebido o Nobel. Ele próprio dizia isto de maneira bem-humorada. Quantos prêmios Nobel há que ninguém recorda e nos lembramos sempre que Borges não o ganhou”. É como se tivesse ganhado, ou seja, cometeram uma injustiça ao não premiá-lo; ficou “feio” para a academia nórdica.

O escritor argentino ficou, de alguma forma, maior do que o Nobel de Literatura, que também não premiou Liev Tolstói, Marcel Proust, Fernando Pessoa, Virginia Woolf, James Joyce, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, António Lobo Antunes e Philip Roth. Borges figura numa companhia ilustra.

Borges se tornou um ícone popular, propõe a repórter do Clarín. Mas há leitores que consideram sua literatura “complexa e inacessível”.

“Borges não tem só sua literatura para oferecer. Tem entrevistas, iconografias, frases… tem até frases que não são suas, mas lhe atribuem. Aparece em tangos, filmes, historietas [quadrinhos]… Sem dúvida, é muito mais conhecido do que lido. É como se, para os argentinos, primeiro existisse Borges e só depois seus livros. No exterior o fenômeno é outro: se analisa sua obra”, anota Lucas Adur.

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Lucas Adur, professor da Universidade de Buenos Aires: biógrafo de Jorge Luis Borges | Foto: Reprodução

No Brasil, a Companhia das Letras tem publicado suas obras com edições caprichadas e traduções primorosas de Josely Vianna Baptista, Heloisa Jahn e Davi Arrigucci Jr.

Josely Vianna Baptista traduz, de maneira magnífica, a poesia de Borges (“Poesia”, Companhia das Letras). Trata-se de uma bem-vinda edição bilíngue.

Lucas Adur diz que “há uma relação muito pessoal dos argentinos de distintas gerações com Borges, uma presença de Borges no imaginário argentino, em Buenos Aires. Creio que é o único escritor com o qual temos uma relação equiparável à que podemos ter com Maradona, com Evita, com Gardel. Sua figura, sem dúvida, transcendeu sua literatura”.

Borges seria o Maradona ou o Messi da literatura. Talvez os dois juntos, quem sabe. Ele tem a finura de Messi e a explosão criativa de Maradona. Algo assim. De alguma forma, Borges é o eterno campeão da Argentina, dos argentinos, em todo o mundo. O símbolo do cosmopolitismo dos argentinos.

Borges trouxe, de algum modo, o mundo para a Argentina e levou a Argentina para o mundo.

As outras biografias de Borges

Há várias biografias de Borges e nas biografias de outros escritores, como Adolfo Bioy Casares, Victoria Ocampo e Silvina Campos, ele é onipresente.

Borges biografia por Edwin Williamson500
Biografia de Edwin Williamson é considerada uma das mais amplas | Foto: Jornal Opção

Uma das mais conhecidas e apreciadas é “Jorge Luis Borges: O Homem no Espelho do Livro — Biografia” (Bertrand Brasil, 419 páginas, tradução de Fábio Fernandes), de James Woodall.

“Borges — Esplendor e Derrota” (Record, 348 páginas), de María Esther Vázquez, é citada como a mais “apaixonada”.

Jorge Luis Borges e María Kodama: paixão outonal ou companheirismo na velhice? | Foto: Reprodução

María Esther Vázquez tem uma implicância especial com María Kodama, que se casou com Borges no crepúsculo da vida do escritor (por sinal, morreram com 86 anos). Mas, aparentemente, os dois se davam muito bem.

María Kodama, na versão de María Esther Vázquez, teria sido responsável por afastar Borges de seus principais amigos, como Bioy Casares (que era uma espécie de irmão caçula da estrela-mor da literatura argentina).

Marcos-Ricardo Barnatán escreveu “Borges — Biografía Total” (Temas de Hoje, 519 páginas). É considerado um livro amplo sobre o escritor.

Solange Fernández Ordónez é autora de “O Olhar de Borges — Uma Biografia Sentimental” (Autêntica, 247 páginas, tradução de Cristina Antunes).

Borges capa de livro de Alejandro Vaccaro 500

“Borges — Vida y Literatura” (Emecé, 677 páginas), de Alejandro Vaccaro, um dos principais especialistas na obra e na vida do escritor portenho, contém um bom caderno de fotografias e documentos.

Pela Companhia das Letras saiu uma biografia que dizem competente: “Borges — Uma Vida” (672 páginas, tradução de Pedro Maia Soares).

“Borges à Contraluz” (Iluminuras, 209 páginas, tradução de Vera Mascarenhas de Campos), de Estela Canto, é um livro tão interessantíssimo quanto idiossincrático.

“Este livro não tem bibliografia. Falo aqui do Borges vivo, do homem que conheci. Apresento-o numa dimensão ainda ignorada, por meio das cartas que me escreveu, nas quais questionou o tempo todo a relação entre o homem e sua obra, explicando esta com aquele e aquele por meio destas”, diz Estela Canto.

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A enciclopédia “Borges Babilônico” acaba de ganhar uma versão revista e ampliada | Foto: Jornal Opção

Há um livro interessantíssimo sobre um intelectual pouco conhecido no Brasil. Trata-se do espanhol Guillermo de Torre (1900-1971), crítico das vanguardas, editor e ensaísta. Amigo de García Lorca, Luis Buñuel, ele morou na Argentina e foi casado com Norah Borges, irmã de Jorge Luis Borges.

A obra, “El orden del Azar — Guillermo de Torre Entre os Borges” (Anagrama, 579 páginas), de Domingo Ródenas de Moya, é, em parte, uma história dos Borges. (Lembrando que, em espanhol, azar é acaso, casualidade. Um político brasileiro teria dito, em visita à Argentina, que se sentia “embarazado”. Grávido, portanto.)

Domingo Ródenas de Moya capa de livro 500

“Borges Babilônico — Uma Enciclopédia” (Companhia das Letras, 571 páginas, organizado por Jorge Schwartz) é excelente. Não é uma biografia tradicional, mas contém biografias (verbetes) — tanto sobre Borges quanto de outros escritores que se relacionaram com ele, direta ou indiretamente — e breves mas relevantes estudos sobre movimentos culturais.

Aos que apreciam comprar no Estante Virtual, que reúne sebos de todo o Brasil, um alerta: a Companhia das Letras está lançando uma edição revista e ampliada de “Borges Babilônico” (livro que também circula na Argentina).

Emir R. Monegal (1921-1985) escreveu um livro qualificado sobre o bardo portenho: “Borges: Uma Poética da Leitura” (Perspectiva, 181 páginas, tradução e apresentação é de Irlemar Chiampi). O uruguaio, professor de Yale, é um dos principais críticos da obra do argentino.

[Email: eulerdefrancabelem@gmail.com]