Karla Monteiro lança biografia de Leonel Brizola pela Companhia das Letras
27 junho 2026 às 21h00

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Leonel de Moura Brizola (1922-2004 — viveu 82 anos) tinha um sonho: ser presidente da República. Não conseguiu. Mas nem por isso deve ser considerado um político “fracassado”. Porque não é.
Verificando pela média, que é como se deve avaliar os políticos — porque perfeito nem Deus é, tanto que criou o homem, o ser mais imperfeito da natureza —, o gaúcho de Carazinho tem uma história altamente positiva.

Brizola foi governador três vezes: uma, a primeira, no Rio Grande do Sul e duas no Rio de Janeiro. O líder trabalhista fez governos bem-sucedidos, sobretudo na área de educação, e não tratava os pobres do Rio como “suspeitos”, e sim como cidadãos.
Gaúcho derrotou Roberto Marinho
No Rio de Janeiro, derrotou políticos consagrados e, sobretudo, a TV Globo. Quando se tratava de Brizola, o Grupo Globo se comportava como partido político e fazia campanha aberta para derrotá-lo. Não deu pé.
O carazinhense peitou Roberto Marinho e o derrotou duas vezes. Consta que o dono da Globo ficava uma fera com suas vitórias.
Em 1961, se não fosse o governador Brizola (PTB), com o apoio do governador de Goiás, Mauro Borges (PSD), João Goulart, o Jango, não teria se tornado presidente da República.
A radicalização de Brizola, entre 1961 e 1964, contribui para o golpe de Estado de 1964? É possível.

Porém, talvez seja mais apropriado sugerir que Brizola tenha sido usado como pretexto para o golpe que, formulado em 1954 — o suicídio do presidente Getúlio Vargas o travou —, finalmente ocorreu dez anos depois.
A ditadura civil-militar perseguiu Brizola até que se exilasse no exterior. No exílio — Uruguai, Estados Unidos e Portugal —, moderou-se. Parece ter entendido a democracia como valor universal e não etapa para, digamos, o socialismo.
Dada a marquetagem da direita, parte dos eleitores parece acreditar que Brizola e o presidente Lula da Silva são comunistas. Não são. Os dois são do campo da esquerda socialdemocrata.
Assim como Brizola, Lula da Silva sempre quis “melhorar” o capitalismo no sentido de torná-lo, por assim dizer, mais inclusivo.
É genuína a preocupação de Lula da Silva em melhorar a qualidade de vida dos pobres. Porém, não se pensa em substituir o capitalismo pelo socialismo. Por isso, comunistas permanecem agregados ao PT, para subsistir, mas não se entusiasmam tanto com o presidente.
Lula da Silva “substituiu” Brizola
De volta ao Brasil, com a Anistia, em 1979, Brizola deixou os militares, notadamente os da extrema direita, alvoraçados.
Quando foi eleito governador do Rio, em 1982, aos 60 anos, os reacionários — incluindo militantes, civis e a Globo — assustaram-se. Agora, era de se esperar que se tornasse presidente, com o fim da ditadura.

Mas, no caminho de Brizola, surgiu uma pedra que se tornou uma montanha intransponível — Lula da Silva.
Há quem acredite que militares — gente da estirpe de Golbery do Couto e Silva — “inventaram” Lula da Silva para impedir a ascensão de Brizola a presidente. A tese é boa, mas implausível.
Primeiro, porque militares, mesmo o bruxo Golbery do Couto e Silva, não eram mágicos. Inventar um Lula da Silva não era tarefa para a turma de Ernesto Geisel, João Figueiredo — espécie de Costa e Silva dois — e mesmo o eminência parda da ditadura, o articulador “Golby”.
Lula da Silva é cria de um tripé: o sindicalismo de São Paulo, a Igreja Católica e nichos intelectuais da Universidade de São Paulo e da Universidade de Campinas (Unicamp).

É bem possível que os militares tenham, ao menos nos bastidores, se entusiasmado com Lula da Silva como uma espécie de dique para impedir a ascensão de Brizola à Presidência.
De fato, Lula da Silva conseguiu aquilo que a ditadura não conseguiu: impedir que Brizola se tornasse presidente do país.
O jornalista Elio Gaspari costuma dizer que Ernesto Geisel é o general que “matou” a ditadura.
Pois bem: talvez seja possível sugerir que Lula da Silva “matou” Brizola, ao menos em termos de Presidência da República. O mesmo aconteceu com Ciro Gomes; politicamente, em termos de política nacional, o petista-chefe “matou” o paulista-cearense.
Curiosamente, Lula da Silva se parece mais com Getúlio Vargas e Jango Goulart — dadas a astúcia política e a inteligência intuitiva matizada pelo planejamento — do que com Brizola.
A biografia de Karla Monteiro
Brizola ganhou biografias (algumas beiram à hagiografia), mas nenhuma alentada. Agora, a partir de 4 de agosto de 2026, o livro “Brizola — O Lobisomem Contra o Império” (Companhia das Letras, 456 páginas), da jornalista e pesquisadora Karla Monteiro, chegará às livrarias do país.

O primeiro volume (vai até 1979), que já pode ser encomendado no site da editora e das livrarias, custa 99,90 reais. Como Karla Monteiro é autora de uma excelente biografia de Samuel Wainer, espera-se que a biografia represente uma “redescoberta” de Brizola. Afinal, goste-se ou não, é um grande político.
Chegou-se a comentar que, tendo recebido dinheiro de Cuba para organizar a guerrilha no Brasil, Brizola teria se apropriado de parte do dinheiro. Não há nenhuma evidência disso. Tudo indica que, no e fora do poder, era um político decente. Talvez se deva falar em decência possível.
Sinopse da Companha das Letras
“No primeiro volume desta biografia de fôlego, Karla Monteiro destrincha a trajetória de Leonel Brizola até o retorno do exílio em 1979 e oferece um novo olhar sobre a vida de um personagem fundamental para a construção política nacional.
“Figura que evoca paixão e fúria até hoje, Leonel Brizola foi um dos principais líderes do trabalhismo no Brasil. De uma infância pobre em Carazinho, ascende às hostes do PTB, seduzido pelo magnetismo de Getúlio Vargas e apadrinhado pelo sindicalista José Vecchio. Nas lutas internas do partido, alia-se a João Goulart, e os dois estabelecem forte dobradinha, sobretudo após Brizola se casar com a irmã [Neusa] de Jango.

“Em ritmo de thriller, Karla Monteiro narra a formação intelectual e política do biografado, sua aproximação com o trabalhismo de Getúlio Vargas e seu papel de destaque na defesa das Reformas de Base. Acompanhamos também a complexa relação — ao mesmo tempo fraterna e turbulenta — com João Goulart, até o golpe militar de 1964, que levaria Brizola ao exílio e à ruptura com Jango.
“A partir de fontes inéditas, a autora reúne as peças que ajudam a reconstituir momentos centrais da ascensão de Brizola ao poder e examina os projetos que nortearam sua atuação política, como a histórica Campanha da Legalidade.”
1
Opinião de Fernando Morais, biógrafo
“Não sei se sou brizolista, mas certamente sou um razoável ‘brizólogo’. E posso assegurar que não havia lido retrato tão fiel, rigoroso e emocionante como este acerca do ‘engenheiro Leonel’. A rede da legalidade e o pós-1964 valem, em si, um livro.”
2
Opinião de Leandro Demori, jornalista
“Da primeira à última página, percebe-se o trabalho paciente de uma repórter que foi atrás dos documentos, das memórias e das pessoas para contar uma história que parecia conhecida, mas que ainda guardava muitas surpresas. Este livro é uma dessas raras obras que ampliam nossa compreensão do país.”
3
Opinião de Celso Rocha de Silva, sociólogo
“Leonel Brizola foi um dos grandes personagens da história de nossa democracia, sobretudo no momento de sua pior crise. Karla Monteiro nos apresenta um personagem riquíssimo com suas convicções e contradições, no centro de lutas políticas violentíssimas, em um cenário internacional hostil ao compromisso. É incrível que este livro não tenha sido escrito antes.”



