O desaparecimento da espera e dos intervalos: de Helmut Rosa a Byung-Chul Han
27 junho 2026 às 21h00

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Donni Araújo
Especial para o Jornal Opção
Em 1981, o músico norte-americano Tom Petty gravou com os Heartbreakers uma canção chamada The Waiting (https://tinyurl.com/2s4xzce2) — em tradução literal, A Espera. No refrão, ele repetia uma frase simples, quase definitiva: the waiting is the hardest part. Esperar é a parte mais difícil.
É curioso observar como essa frase, naquele início dos anos 1980, ainda podia soar como uma constatação banal. Esperar era difícil, sem dúvida. Mas era também inevitável. Ninguém precisava gostar da espera para reconhecer que ela fazia parte da vida. Havia uma espécie de acordo silencioso entre as pessoas e o tempo. Certas coisas simplesmente demoravam e todos concordavam com isso.
Esperava-se na sala de visitas, no consultório médico, por uma entrevista, por uma resposta, por uma ligação telefônica, pelo ônibus, pelo metrô, pelo avião. Esperava-se a hora da refeição, a chegada do jornal, o resultado de um exame, a confirmação de uma viagem, a carta que vinha de longe. A espera não era um acidente. Era uma das formas pelas quais a vida se organizava.
As fotografias precisavam ser reveladas. O jornal do dia seguinte ajudava a compreender a notícia do dia anterior. Uma resposta podia levar horas, dias, semanas. O silêncio entre uma pergunta e uma resposta não era necessariamente abandono, descaso, vácuo ou fracasso. Muitas vezes era apenas o tempo fazendo seu trabalho.

Quatro décadas depois, a frase de Tom Petty continua verdadeira. Esperar talvez continue sendo a parte mais difícil. A diferença é que, agora, a espera deixou de ser apenas difícil. Tornou-se quase inaceitável.
A tecnologia eliminou uma parte considerável das demoras cotidianas. E isso, evidentemente, trouxe conquistas reais. Seria absurdo negar a utilidade de uma mensagem instantânea, de uma transferência bancária em segundos, de uma consulta médica agendada pelo celular, de uma música disponível no mesmo instante em que é procurada. O problema não está na praticidade. Está na mutação psicológica que ela produziu.
Ao eliminar a espera das coisas simples, começamos a acreditar que toda espera deveria desaparecer. E é aí que nasce uma das grandes angústias contemporâneas: a vida prática passou a funcionar na velocidade dos aplicativos. Mas as experiências humanas mais importantes continuam obedecendo a outro ritmo.
Não se amadurece em tempo real. Não se constrói uma carreira por download. Não se aprende uma arte por notificação. Não se forma uma personalidade por atualização automática. Não se atravessa uma perda, um amor, uma vocação, uma frustração ou uma conquista com a mesma velocidade com que se envia uma mensagem.
Nunca vivemos em um mundo tão rápido. Mas, paralelamente aos inquestionáveis benefícios dessa velocidade, veio a sensação constante de que estamos atrasados e que não fizemos tudo que deveríamos ter feito.
Mais rápidos, mais atrasados
Essa sensação não é apenas uma impressão individual. Ela vem sendo observada e estudada há décadas por sociólogos, filósofos e psicólogos.
Um dos que mais se dedicaram a compreender esse fenômeno foi o sociólogo alemão Hartmut Rosa. Em sua teoria da aceleração social, ele observa um paradoxo curioso da modernidade. Embora as tecnologias tenham reduzido drasticamente o tempo necessário para executar inúmeras tarefas, a percepção subjetiva das pessoas não é a de que ganharam tempo. Ao contrário. A maioria sente exatamente o oposto.

Vivemos mais conectados, mais informados, mais produtivos e mais rápidos do que qualquer geração anterior. Ainda assim, a sensação predominante é a de que estamos correndo atrás de algo que nunca alcançamos completamente.
A promessa implícita da aceleração era simples: fazer mais em menos tempo para que sobrasse mais tempo. Mas o resultado parece ter sido diferente. O tempo economizado por uma inovação costuma ser imediatamente ocupado por novas tarefas, novas demandas, novas possibilidades e novas expectativas.
Talvez seja por isso que tantas pessoas tenham a impressão permanente de estar atrasadas. Não necessariamente atrasadas para um compromisso, uma reunião ou um prazo. Atrasadas para a própria vida.
É uma sensação difícil de definir, mas fácil de reconhecer.
Ela aparece quando alguém acredita que deveria ter lido mais livros, viajado mais, acumulado mais patrimônio, aprendido mais idiomas, conhecido mais lugares, alcançado mais sucesso profissional ou realizado mais projetos do que efetivamente realizou.
A aceleração trouxe ganhos inegáveis. Mas também ampliou a quantidade de experiências possíveis. E, paradoxalmente, quanto maior o número de possibilidades disponíveis, maior é a sensação de insuficiência diante daquilo que não foi feito.
O desaparecimento dos intervalos
Enquanto Hartmut Rosa procurou compreender a aceleração do mundo contemporâneo, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han chamou atenção para outra transformação igualmente importante: o desaparecimento dos intervalos.
Durante grande parte da história humana, a vida era feita de pausas. Havia o tempo da espera, o tempo do deslocamento, o tempo entre uma notícia e outra, entre uma pergunta e uma resposta, entre uma conquista e a próxima tentativa. Esses intervalos não eram necessariamente agradáveis. Muitas vezes eram entediantes. Mas cumpriam uma função silenciosa. Eram os momentos em que a experiência era assimilada, em que a memória organizava os acontecimentos e em que as conquistas podiam ser saboreadas antes que novas exigências surgissem.
Hoje, esses espaços se tornaram cada vez mais raros.
A informação não espera. As mensagens não aguardam. As redes sociais não param. O trabalho não dá um tempo. O entretenimento não congela.
Uma tarefa concluída é imediatamente substituída por outra. Uma meta alcançada dá lugar à próxima. Uma realização rapidamente se transforma em obrigação.
Talvez seja justamente por isso que tantas pessoas convivam com a estranha sensação de nunca terem feito o suficiente.

Basta observar a trajetória de muitos jovens adultos contemporâneos.
Antes dos trinta anos, alguns já concluíram uma graduação, iniciaram uma segunda formação, acumulam cursos de pós-graduação, desenvolvem atividades profissionais, participam de eventos acadêmicos, ministram palestras e constroem projetos paralelos nas mais diversas áreas. Em qualquer outro período histórico, uma trajetória como essa provavelmente seria vista como extraordinária.
Ainda assim, não é raro que essas mesmas pessoas experimentem um íntimo sentimento de inadequação. Uma pressa sem objeto, como se estivessem permanentemente correndo atrás de um ponto de chegada que se desloca na mesma velocidade em que avançam.
O paradoxo é evidente.
Nunca houve tantas oportunidades de aprendizado, qualificação e realização pessoal. Nunca houve tanto acesso ao conhecimento. Nunca houve tantos caminhos possíveis.
Mas talvez também nunca tenha sido tão difícil reconhecer as próprias conquistas.
Byung-Chul Han sugere uma explicação interessante para esse fenômeno. Ao eliminar os intervalos, eliminamos também parte do espaço necessário para a contemplação. Sem pausa, não há assimilação. Sem assimilação, não há sensação de chegada.

A conquista existe. O diploma existe. A experiência existe. O trabalho realizado existe. O que desaparece é o tempo necessário para perceber o valor dessas coisas.
Antes que uma vitória possa ser compreendida, a próxima cobrança já está à espera.
E assim a aceleração produz um efeito curioso: pessoas objetivamente realizadas passam a experimentar subjetivamente a sensação de insuficiência.
O valor daquilo que demora
Há outra consequência possível do desaparecimento da espera.
Ela não está relacionada apenas à ansiedade ou à sensação de insuficiência. Diz respeito também à forma como atribuímos valor às coisas.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman observou que uma das características centrais da modernidade contemporânea é a fragilidade crescente dos vínculos. Vivemos em um mundo cada vez mais fluido, mais transitório e mais provisório. Produtos são substituídos rapidamente. Informações envelhecem em questão de horas. Tendências surgem e desaparecem em poucos dias. Relações profissionais e pessoais frequentemente parecem sujeitas à mesma lógica.
Não se trata de afirmar que as pessoas se tornaram superficiais ou incapazes de criar laços duradouros. A questão é mais sutil.
Durante muito tempo, o próprio ato de esperar funcionava como uma forma de investimento emocional.
Quem aguardava meses pela chegada de um livro, de um disco ou de uma viagem já construía, durante a espera, uma relação com aquilo que desejava. O tempo investido passava a fazer parte da experiência.

A expectativa não era um obstáculo entre o desejo e sua realização.
Era parte da realização.
Talvez por isso certas lembranças permaneçam tão vivas décadas depois. Não apenas pelo objeto em si, mas por tudo o que o cercava: a antecipação, a imaginação, a preparação e o significado acumulado ao longo do tempo.
Hoje, muitas dessas barreiras desapareceram. O acesso tornou-se mais fácil, mais rápido e mais democrático. Mas a facilidade trouxe consigo uma mudança silenciosa. Aquilo que pode ser obtido instantaneamente também corre o risco de se tornar descartável no segundo seguinte.
Quando praticamente tudo está disponível o tempo todo, torna-se mais difícil distinguir aquilo que realmente merece nossa atenção daquilo que apenas ocupa momentaneamente nosso interesse.
A espera não criava valor sozinha. Mas ajudava a revelar valor.
Ela funcionava como uma espécie de filtro involuntário. Ao exigir tempo, selecionava desejos. Ao exigir paciência, separava impulsos passageiros de interesses mais profundos.
Talvez seja por isso que tantas pessoas experimentem hoje uma curiosa abundância de opções acompanhada por uma persistente sensação de vazio.
Nunca tivemos tanto acesso. Mas acesso e significado não são exatamente a mesma coisa.
A utilidade da espera
E se a espera nunca tivesse sido apenas um inconveniente?
O psicólogo e economista israelense-americano Daniel Kahneman dedicou décadas a estudar a forma como as pessoas experimentam a felicidade, tomam decisões e constroem memórias. Entre suas observações mais interessantes está a percepção de que a satisfação humana raramente se concentra apenas no momento da conquista.
A expectativa também faz parte da experiência.

Em outras palavras, não sentimos prazer apenas quando algo acontece. Muitas vezes começamos a experimentá-lo muito antes.
Quem aguardava uma viagem passava semanas imaginando os lugares que visitaria. Quem esperava o nascimento de um filho começava a construir esse vínculo muito antes do primeiro encontro. Quem sonhava com uma profissão, uma conquista acadêmica ou um projeto pessoal frequentemente encontrava sentido não apenas no resultado final, mas no caminho percorrido até ele.
A espera, sob essa perspectiva, não era simplesmente um intervalo entre dois acontecimentos.
Ela era parte do acontecimento.
Talvez por isso algumas experiências pareçam ocupar um espaço tão grande em nossa memória. Não porque tenham durado mais tempo, mas porque foram vividas em diversas etapas: o desejo, a preparação, a expectativa, a realização e a lembrança.
Quando tudo se torna imediato, ganhamos eficiência. Mas perdemos algo mais difícil de medir.
Perdemos parte do percurso.
A satisfação passa a ser concentrada quase exclusivamente no resultado.
E os resultados têm uma característica curiosa: o entusiasmo que provocam costuma durar pouco. A aprovação chega, o deslumbramento passa, a meta é alcançada — e imediatamente substituída. O objetivo é conquistado, mas um novo alvo já aparece no horizonte.
A lógica da realização permanente produz uma espécie de insatisfação estrutural. Cada chegada rapidamente se transforma em ponto de partida.
Talvez seja por isso que tantas pessoas sintam que estão sempre correndo e raramente chegando.
Não porque lhes faltem conquistas, mas porque foram levadas a acreditar que a felicidade mora apenas na próxima vitória.
E talvez essa seja uma das ilusões mais persistentes do nosso tempo.
O durante
Tom Petty estava correto. Esperar continua sendo a parte mais difícil.
Sempre foi.
A diferença é que, durante muito tempo, a espera era percebida apenas como um obstáculo entre o desejo e sua realização. Hoje começamos a perceber que talvez ela desempenhasse uma função mais importante do que imaginávamos.
A espera criava intervalos.
Os intervalos permitiam assimilação.
A assimilação produzia significado.
E o significado ajudava a transformar conquistas em algo mais do que simples metas alcançadas.
Não se trata de defender um retorno ao passado. Poucos sentem falta das filas intermináveis, das burocracias desnecessárias ou da lentidão que tantas vezes dificultava a vida. A velocidade trouxe benefícios inegáveis e seria absurdo negá-los.
Mas talvez a verdadeira questão nunca tenha sido a velocidade.
Talvez seja a nossa relação com ela.
Vivemos em uma época que nos incentiva a olhar permanentemente para o próximo objetivo, para a próxima meta, para a próxima conquista. E, enquanto fazemos isso, corremos o risco de perder a capacidade de reconhecer o caminho já percorrido.
Talvez por isso tantas pessoas competentes, talentosas e realizadas convivam com a sensação de que ainda não fizeram o suficiente.
Não porque lhes falte mérito.
Mas porque raramente param o tempo necessário para perceber aquilo que já construíram.
Talvez algumas delas não estejam atrasadas.
Talvez apenas tenham se acostumado a medir a própria vida por uma régua impossível, que se desloca cada vez que uma nova conquista é alcançada.
A espera não desapareceu completamente. Ela continua presente nas coisas que realmente importam: no amadurecimento, no aprendizado, nos relacionamentos, na construção de uma carreira, na realização de um sonho.
Talvez a sabedoria não esteja em eliminar essa espera.
Talvez esteja em compreender que ela também faz parte da experiência.
Porque a vida raramente se resume ao desejo que antecede uma conquista ou à satisfação que vem depois dela.
A maior parte da vida acontece entre esses dois momentos.
Ela acontece enquanto aprendemos, construímos, experimentamos, erramos, recomeçamos, amamos, trabalhamos e sonhamos.
A vida acontece durante.
E talvez uma das tarefas mais difíceis — e mais urgentes — do nosso tempo seja reaprender a reconhecer o valor desse percurso enquanto ainda estamos caminhando por ele.
Donni Aráujo, compositor e jornalista, é colaborador do Jornal Opção.



