Demissão de Leandro Demori talvez tenha a ver com falta de sustentabilidade financeira do ICL
14 julho 2026 às 12h04

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O indivíduo precisa mais de utopia do que de realismo. Para suportar o tormento ou agruras da vida. Um amanhã radioso, ou quase, é o descarte de um presente difícil, digamos. Acreditar que o dia seguinte será mais prazenteiro é uma fórmula para suportar ou aceitar como que se vive.
Jornalistas, como quaisquer outros cidadãos, apreciam utopias. Por isso, mesmo com ingentes dificuldades, lançam jornais, que, no fundo, são mistos de aventuras de Dom Quixote e Sancho Pança. Mas são, claro, necessários, importantes, até cruciais.
Mino Carta e o Jornal da República
Na década de 1970, a esquerda lançou vários jornais, como “Opinião”, “Movimento” e, entre outros, “Pasquim”. Todos muito bons e críticos contundentes da ditadura. O que evidencia coragem. Porque, na época em que foram lançados, a ditadura ainda estava matando (Vladimir Herzog foi assassinado numa unidade do Exército, em São Paulo, em 1975).
Quem demitiu Leandro Demori, para fazer os cortes financeiros “necessários”, foi o realista — o ex-banqueiro. Costuma-se dizer que um ex-banqueiro, nas decisões financeiras, sempre vai ser banqueiro, ou seja, de um pragmatismo absoluto.
“Opinião” e “Movimento”, sempre sob pressão, tiveram vida curta, menos de uma década. Não só por causa da ditadura, mas também devido ao custo do financiamento. Jornas impressos eram e continuam sendo caros. Até sua logística, se ampla, custa muito. Não dá para mantê-los com contribuições e assinaturas de leitores (a revista “Piauí”, para citar um exemplo, é mantida pela fortuna de João Moreira Salles, herdeiro do Itaú-Unibanco e de uma mineradora, a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração)

Em 1979, Mino Carta, o maior fazedor de revistas (“Veja”, “IstoÉ”, “CartaCapital”) da história do país, lançou o “Jornal da República”. A equipe era de primeira linha, o que resultou num jornal de alta qualidade. Entre os parças do editor estava Claudio Abramo, um dos mais importantes jornalistas do Brasil.
O “Jornal da República”, apesar da qualidade, não durou um ano. Era um sucesso editorial e um fracasso comercial. Nasceu e morreu na ditadura. Teria sobrevivido na democracia? Talvez sim, mais provável que não. Um certo purismo resulta em menos dinheiro no caixa.
ICL vai sobreviver com cursos?
A recente demissão de Leandro Demori do cargo de diretor de Jornalismo do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) — que publica reportagens de excelente qualidade (o viés de esquerda é evidente e não encoberto) — sugere mais do que aparece nas matérias que circulam em jornais, sites, portais.
Talvez tenha faltado um pouco mais de transparência da parte do ex-banqueiro Eduardo Moreira, controlador do ICL. Ainda assim, ele disse coisas possivelmente verdadeiras, embora tenha usado “eufemismo” similar aos dos grandes jornais e emissoras de televisão quando demitem.
Reduzir custos às vezes resulta, quase sempre, de crise financeira. Nem sempre deriva de uma nova política editorial ou de mera reestruturação financeira.
Eduardo Moreira garante que o ICL é mantido com receita derivada dos cursos que promove. Se for verdade, se não houver captação de recursos nos mercados privado e público, o portal dificilmente terá condições de ser mantido por muito mais tempo.

Qualquer empreendimento capitalista, e o ICL é um negócio capitalista — não é uma casa de sonhos e fantasias —, precisa obter lucro. Porque só aí terá condições tanto de mantê-lo quanto de ampliá-lo.
Costuma-se sugerir que a armadilha crucial do capitalismo é a “exigência” de crescimento. Pelo que se depreende do que disse Eduardo Moreira — e sua fala não é precisa nem muito objetiva —, o ICL irá “encolher”. Porém, é melhor “encolher” do que desaparecer.
A demissão de Leandro Demori e outras profissionais (não listados) não tem a ver com falta de qualidade dos profissionais, disse Eduardo Moreira. O objetivo é reduzir custos, é enxugar a empresa (que não vive de brisa).
Diz-se que Leandro Demori — que tem repetido a história — foi demitido porque não quis demitir. O ex-diretor de jornalismo não aceitou a redução de 30% no orçamento do departamento de Jornalismo.
Noutras palavras, Leandro Demori não cumpriu a ordem do “dono”, quer dizer, de Eduardo Moreira. Daí a demissão, que ocorreria em qualquer outro jornal.
Só o capital “liberta” jornais e revistas?
Como ficará a sustentabilidade do ICL — repetindo: uma boa iniciativa editorial — daqui pra frente? Se continuar esperando dinheiro de seus cursos, um financiamento coletivo que de fato gera independência (ressaltando que, no caso, a independência é relativa, porque o ICL abre espaço muito mais para a esquerda), o instituto não vai durar, por certo, muito anos, insista-se.

Cedo ou tarde, até banqueiros descobre que só funciona, em termos de jornais, o Instituto Capital Liberta. Sem dinheiro para pagar as contas, e manter uma equipe de jornalistas de alta qualidade, o ICL não se sustentará. Precisa, com urgência, de capital, e óbvio que Eduardo Moreira não vai torrar tudo aquilo que amealhou, durante anos, com o site.
Jornalismo não é — e nunca foi — investimento a fundo perdido. Não é mecenato. É negócio, como entenderam, muito cedo, as famílias Marinho (Grupo Globo) e Frias (“Folha de S. Paulo” e UOL). Jornalismo de fundo quintal dura pouco…
Ex-sócio do Banco Pactual e do Banco Plural (dono da Genial Investimentos), Eduardo Moreira nada tem de romântico. Mas, sim, é um realista com laicos idealistas. É possível que comande o ICL como idealista, crente na informação “independente” (a velha ficção promovida por jornalistas e donos de jornais).
Mas quem demitiu Leandro Demori, para fazer os cortes financeiros “necessários”, foi o realista — o ex-banqueiro. Costuma-se dizer que um ex-banqueiro, nas decisões financeiras, sempre vai ser banqueiro, ou seja, de um pragmatismo absoluto.
A retórica pode até ser mais doce, mas os atos serão semelhantes aos dos donos da “Folha de S. Paulo” (teve coragem de demitir o grande Janio de Freitas, que tem mais de 90 anos), “O Estado de S. Paulo”, “O Globo” e TV Globo
Oxalá a “reestruturação” que está sendo promovida por Eduardo Moreira não seja o começo do fim do ICL.



