Desde que nasceu, o bolsonarismo faz da moral (e defesa dela) sua principal estratégia de marketing. Discursos inflamados pela família, ataques à população LGBT+, condenações públicas de comportamentos considerados “imorais” e a tentativa de dividir o mundo entre os chamados “cidadãos de bem” e inimigos dos bons costumes.

Agora, o caso envolvendo o empresário Leandro Batista Nóbrega, conhecido por comercializar a “picanha do Bolsonaro”, escancara de novo como essa velha retórica frequentemente cai por terra quando encontra a vida real.

É importante enfatizar que não existe qualquer problema em contratar um programa sexual entre adultos ou em se relacionar com uma mulher trans. A sexualidade, diga-se de passagem, pertence ao campo da intimidade e não deveria ser objeto de patrulhamento moral.

O problema vem com força quando alguém ajuda a alimentar um ambiente de preconceito, reforça discursos que desumanizam pessoas trans e, na escuridão de becos e sob as luzes neon de motéis, busca exatamente aquilo que condena em público.

De acordo com a denúncia registrada e à qual o Jornal Opção teve acesso, Leandro deve ser investigado após uma mulher trans afirmar que ele se recusou a pagar pelo programa, fez ameaças e tentou comprar seu silêncio. O mérito dessas acusações cabe às autoridades esclarecer, isso é claro e notório. Já o aspecto político está exposto.

O vídeo divulgado e as mensagens que vieram à tona evidenciam uma contradição já conhecida de todos, na qual o personagem que exibia uma imagem alinhada ao moralismo conservador aparece em uma situação, no mínimo, incompatível com a narrativa que ele ajudou a construir.

Não é um caso isolado, até porque o bolsonarismo nunca fez da moral um compromisso, mas uma arma. A vida privada de artistas, professores, adversários políticos e minorias sempre serviu de combustível pra campanhas de linchamento virtual. Enquanto isso, os próprios guardiões dos “bons costumes” acumulam episódios que revelam uma distância abissal entre o sermão e a prática.

O poder de julgar quem vive diferente (conforme dita a sociedade), de transformar a orientação sexual e a identidade de gênero em um alvo permanente de ataques e, ao mesmo tempo, acreditar que as próprias escolhas vão se manter protegidas pelo silêncio. A hipocrisia, é preciso destacar, não está na cama de ninguém, está na tentativa de impor aos outros uma moral que nem seus próprios porta-vozes conseguem seguir.

Uma sociedade livre não precisa de fiscais da intimidade alheia, precisa de pessoas coerentes. E quem faz da moralidade um palanque assume o risco de ser cobrado por ela. De forma cruel.