Direita e esquerda divergem em quase tudo, menos no machismo político
10 julho 2026 às 14h33

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Nas últimas semanas, três episódios ocorridos em campos políticos distintos chamaram atenção. O influenciador Paulo Figueiredo afirmou, durante uma transmissão ao vivo, que mulheres “votam mal”, especialmente as solteiras. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro relatou ter sido excluída de decisões estratégicas dentro do Partido Liberal (PL) e afirmou que sua participação política foi constantemente minimizada. Em Goiás, a deputada federal Adriana Accorsi precisou declarar publicamente, mais uma vez, que não é pré-candidata ao governo do Estado e que sua decisão de disputar a reeleição à Câmara dos Deputados deveria ser respeitada.
São fatos diferentes, protagonizados por pessoas com posições ideológicas opostas e inseridos em contextos distintos. Mas todos evidenciam um problema que vai muito além das disputas eleitorais: a dificuldade que a política brasileira ainda tem em reconhecer a autonomia das mulheres.
Existe um equívoco recorrente quando se fala em violência política. Muitas pessoas associam esse fenômeno apenas às ameaças de morte, agressões físicas ou ataques virtuais. Esses são, sem dúvida, os casos mais graves e precisam ser combatidos com rigor. No entanto, a violência política começa muito antes. Ela também se manifesta quando mulheres têm sua capacidade constantemente questionada, quando são excluídas dos espaços de decisão, quando recebem menos recursos para disputar eleições ou quando terceiros tentam definir quais cargos elas devem ou não disputar.
A Lei nº 14.192, de 2021, surgiu justamente para enfrentar esse problema ao tipificar a violência política contra a mulher e estabelecer mecanismos para garantir sua participação na vida pública. O próprio conceito adotado pela legislação é amplo: trata-se de qualquer ação, omissão ou conduta que tenha como objetivo impedir, dificultar ou restringir os direitos políticos das mulheres em razão do seu gênero.
Nem sempre isso acontece de forma explícita. Muitas vezes, a violência se apresenta de maneira sutil, quase imperceptível. Ela aparece quando uma mulher precisa provar inúmeras vezes que está preparada para exercer uma função que, se fosse ocupada por um homem, dificilmente despertaria tantas dúvidas. Surge quando lideranças partidárias tratam candidaturas femininas como instrumentos para cumprir cotas, mas não oferecem estrutura para que sejam competitivas. Também se manifesta quando mulheres são constantemente aconselhadas a abrir mão de seus projetos políticos em favor de estratégias definidas por outras pessoas.
É justamente por isso que reduzir esse debate a uma disputa entre esquerda e direita significa ignorar a dimensão real do problema.
Quando Michelle Bolsonaro afirma que foi desestimulada a participar das decisões do partido, a questão não deveria ser sua posição ideológica, mas o fato de uma liderança política relatar que sua capacidade foi desconsiderada. Da mesma forma, quando Adriana Accorsi afirma que sua decisão de disputar a reeleição não está sendo respeitada e atribui essa movimentação à resistência de dirigentes homens ao protagonismo feminino, o debate também ultrapassa as fronteiras partidárias. Em outro cenário, quando um influenciador afirma que mulheres votam pior do que homens e sugere que esposas tendem apenas a seguir a orientação política dos maridos, reforça uma visão que reduz milhões de eleitoras à condição de pessoas incapazes de exercer livremente um direito garantido pela Constituição.
Os casos possuem diferenças importantes e não podem ser tratados como equivalentes do ponto de vista jurídico ou político. Mas compartilham um elemento comum: todos colocam em dúvida a autonomia feminina.
Talvez esse seja o aspecto mais preocupante da política brasileira. Ainda existe uma resistência em aceitar que mulheres são plenamente capazes de decidir seus próprios caminhos. Quando lançam uma candidatura, frequentemente precisam explicar por que querem disputar determinado cargo. Quando recusam uma candidatura, precisam justificar repetidas vezes que aquela é, de fato, sua decisão. Quando alcançam posições de liderança, não raro enfrentam tentativas de desqualificar sua competência antes mesmo que suas propostas sejam debatidas.
Essa lógica ajuda a explicar por que a representação feminina na política brasileira ainda está distante da realidade do eleitorado. As mulheres são maioria entre os eleitores do país, mas continuam ocupando uma parcela significativamente menor dos cargos eletivos e dos espaços de comando nos partidos. O obstáculo não está apenas nas urnas. Ele começa muito antes, dentro das estruturas partidárias, na distribuição dos recursos eleitorais, na construção das candidaturas e na cultura política que ainda associa liderança e poder a figuras masculinas.
É evidente que a política é, por natureza, um ambiente de conflito. Divergências, críticas e disputas fazem parte da democracia. O que não pode ser naturalizado é a tentativa de restringir a participação política das mulheres por meio de constrangimentos, deslegitimação ou pressões que dificilmente seriam dirigidas aos homens nas mesmas circunstâncias.
A violência política de gênero não escolhe partido. Ela pode estar presente em legendas conservadoras, liberais, de centro ou de esquerda. Pode surgir em discursos públicos, nas redes sociais, nas articulações internas ou nas decisões tomadas longe dos holofotes. Justamente por isso, enfrentá-la exige coerência. Não basta denunciar quando a vítima pertence ao mesmo campo ideológico e silenciar quando o episódio ocorre do outro lado.
A democracia brasileira só será plenamente representativa quando mulheres puderem participar da vida política sem que sua autonomia seja permanentemente colocada em julgamento. O verdadeiro teste democrático não está apenas em garantir o direito de votar ou de ser votada. Está em assegurar que nenhuma mulher precise pedir autorização para exercer a política, nem justificar escolhas que deveriam ser exclusivamente suas.



