Benedito Ruy Barbosa: o autor que levou o campo brasileiro ao protagonismo das novelas
07 julho 2026 às 20h39

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Você pode dizer que não gosta ou que não acompanha novelas, mas certamente tem alguém na sua família que ainda é consumidor nato da produção aberta mais popular e acessível da televisão. Sua avó, certamente, parava o preparo da janta para acompanhar o romance das 18h. Ou então toda a família jantava reunida para assistir à comédia das 19h. Ou torcia pela mocinha — e até mesmo pela vilã — da novela das 20h/21h. Uma verdade inquestionável é que a novela também contribui muito para a nossa memória afetiva.
Poxa, qual foi o país que parou para descobrir quem matou Odete Roitman na primeira versão de Vale Tudo (1988)? Sim, o Brasil, que se rendeu à criação genial de Gilberto Braga, responsável por um texto afiadíssimo e por uma trama repleta de críticas sociais e morais ao momento vivido pelo país. Aos 38 anos, a novela continua mais atual do que nunca. Gilberto Braga nos deixou em 2021, aos 75 anos.
Manoel Carlos adorava retratar os embates familiares, tendo como pano de fundo um bairro elitizado do Rio de Janeiro. De preferência, o Leblon. Eternizou as “Helenas” e trouxe inúmeros temas à tona. Até onde você iria por amor? Em Por Amor (1998), a segunda Helena vivida por Regina Duarte trocou o próprio filho pelo neto que nascera morto para não ver a filha sofrer. Em Mulheres Apaixonadas (2003), o autor abordou temas como o porte de arma de fogo — debate que culminou na aprovação do Estatuto do Desarmamento —, a violência contra a mulher, com uma das cenas mais marcantes da teledramaturgia brasileira, em que Raquel, vivida por Helena Ranaldi, é agredida pelo marido com uma raquete de tênis, e a violência contra a pessoa idosa, retratada por Dóris (Regiane Alves), que maltratava constantemente os avós. A ficção também colaborou para dar celeridade à votação do Estatuto da Pessoa Idosa. Foi por suas mãos que vimos Camila (Carolina Dieckmann) raspar a cabeça durante o tratamento contra a leucemia ao som de Love by Grace, de Lara Fabian, em Laços de Família (2000). A cena fazia parte de uma campanha de conscientização sobre a doação de medula óssea, mas acabou se tornando um dos maiores marcos da televisão brasileira. Manoel morreu em janeiro deste ano, aos 92 anos.
Nesta segunda-feira, foi a vez do Brasil se despedir de Benedito Ruy Barbosa, que faleceu aos 95 anos. Suas novelas sempre tiveram forte apelo rural. Sua escrita valorizava os conflitos humanos e até mesmo o misticismo que envolve o campo brasileiro. Por suas mãos, vimos uma mulher virar onça em Pantanal (1990). A novela foi desprezada pela Globo — que já havia consolidado sua hegemonia na teledramaturgia — e acabou sendo produzida pela extinta Manchete. Resultado: bateu a Globo em diversos capítulos. Anos depois, como uma espécie de reparação histórica, a Globo produziu o remake, assinado pelo neto do autor, Bruno Luperi, que também conquistou excelente audiência para os dias atuais.
Mas Benedito sempre foi além. Fez a santinha se apaixonar pelo filho do Diabo em Paraíso, que também ganhou duas versões, em 1982 e 2009. Contou a história da jovem Sinhá Moça, que não suportava o tratamento cruel dos barões para com seus escravizados e lutava bravamente para que eles conquistassem a sua liberdade. A novela também foi um sucesso em suas duas versões, exibidas em 1986 e 2006. Uma curiosidade da obra era Ana do Véu, personagem interpretada por Patrícia Pillar (na primeira versão) e Isis Valverde (na segunda). O rosto da personagem foi mantido em segredo durante boa parte da trama e, em uma época em que a internet ainda não tinha o peso de hoje, o mistério de quem estava por trás daquele véu foi um dos grandes motores do sucesso da novela.
Outra obra icônica foi O Rei do Gado, novela que revolucionou o gênero rural. Benedito trouxe o universo do amor proibido entre duas famílias rivais: os Mezenga e os Berdinazzi. Anos depois, o fruto dessa paixão, Bruno Mezenga, torna-se um poderoso pecuarista que se apaixona por uma boia-fria e entra em disputa por terras com o tio, Geremias Berdinazzi. Exibida entre 1996 e 1997, a novela chegou a registrar média de 55 pontos de audiência.
Meu Pedacinho de Chão (1971 e 2014), Renascer (1993 e 2024), Terra Nostra (1999), Esperança (2002) e Velho Chico (2016) — sua última novela, que teve o Rio São Francisco como grande protagonista e que também ficou marcada pela morte do ator Domingos Montagner, que se afogou durante um mergulho no rio. São tantas obras icônicas que provocaram discussões importantes na sociedade e estimularam reflexões sobre os períodos históricos que retratavam.
A novela faz parte da história do Brasil. Um Faltou Dizer é pouco para elencar toda a transformação que esse gênero já provocou na sociedade brasileira. Benedito Ruy Barbosa fez parte dessa história. Debatendo a escravidão, valorizando o homem do campo e dando protagonismo a uma parcela da população que por muito tempo foi esquecida, ajudou a transformar a forma como o Brasil enxergava seu interior. Se hoje o agronegócio também ocupa espaço no imaginário nacional como símbolo de prosperidade e desenvolvimento, Benedito tem, sem dúvida, uma parcela importante dessa contribuição.
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