Quando uma criança precisa lutar sozinha pela própria vida, todos nós fracassamos
13 julho 2026 às 13h03

COMPARTILHAR
O desespero de uma mãe ecoa sob o silêncio imposto pela mordaça da normalidade. Um bebê com menos de dois quilos vence uma batalha após a outra contra a pesada e implacável morte. Assistindo a isso, os poderosos, com seus dentes podres, mastigam refeições intermináveis, gargalham cuspindo a comida e se gabam daquilo que “conquistaram”. Essa cena é o nosso país, mas seria também nossa responsabilidade?
A máquina estatal, a Justiça e os governos prometem e prometem, pedem votos, garantem a própria opulência e negam, sem vergonha, sem medo, sem receio, dezenas de milhares de reais que podem salvar uma neném. Essa é a história de uma menina com um singelo nome que significa sabedoria; logo ela, que em tão pouco tempo de vida, já aprendeu uma das grandes lições que este mundo tem a ensinar: sobrevivência.
Queria eu que este fosse um caso isolado. Não é. É apenas um retrato da nossa realidade. Basta uma caminhada por Goiânia, ou por qualquer outra capital brasileira, para perceber que há quem pareça nascer condenado. Impossível não me lembrar de outras histórias de crianças abandonadas, tratadas como animais, espancadas, estupradas, torturadas. Uma realidade da qual ninguém gosta de se lembrar, mas que insiste em aparecer. Está aí, à vista de todos; basta um olhar atento sobre a cidade.
Ao passo que as atrocidades se repetem nos becos onde a misericórdia deste país cristão não entra, os chamados representantes do povo vestem suas cores e vomitam ideologias vazias que enganam a todos (ou quase todos). Eles, os poderosos, sabem o que fazem, o que perpetuam e a culpa que carregam.
Inventam um deus sabendo que ele não existe, inventam uma moralidade que não seguem e nós, a massa de manobra, continuamos enganados (às vezes de propósito). Ignoramos a morte dos nossos semelhantes, mas não se engane: um pedaço seu (e meu) também morre junto de cada criança que cai sem vida, por mais que você se recuse a acreditar nisso.
Perguntas inevitáveis me assombram: quanto damos em isenções a bilionários? Quanto pagamos em benefícios a juízes, vereadores, deputados e membros do Executivo? Quanto dinheiro é gasto para inflar o ego de homens ocos? Quantos tratamentos de câncer infantil, quantas campanhas de combate à pedofilia, quantas crianças poderiam ser adotadas, quantas terapias poderíamos oferecer às vítimas de violência, quanta comida poderíamos colocar no prato de quem morre de fome com esses mesmos recursos?
O mundo como está não é culpa minha, nem sua, das pessoas comuns. Mas que ele seja visto como normal, digerido e aceito sem revolta é, sim, nossa responsabilidade. Podemos não mudar nada, mas que não seja por falta de tentativa. Sempre que possível, devemos questionar quem tem o poder de fazer diferente, tornar seus banquetes menos confortáveis e fazer com que todo sofrimento de um inocente seja um novo convite à revolta.
Leia mais: Bebê com doença rara aguarda decisão da Justiça para receber medicamento de R$ 35 mil por semana



