Herbert Moraes
Herbert Moraes

A incompetente polícia francesa

Só os erros dos terroristas que atacaram o jornal satírico parisiense possibilitaram que eles fossem cercados e mortos

Unidades de elite francesas  caçam terroristas, que foram  mortos na sexta-feira | Foto: AFP

Unidades de elite francesas caçam terroristas, que foram mortos na sexta-feira | Foto: AFP

Três dias depois do atentado a uma escola judaica em Toulose, dois a­nos e meio atrás, que ma­tou quatro pessoas, o então ministro do interior da França, Claude Gueant, afirmou aos líderes judeus do país, que seus investigadores acreditavam que o assassino era membro de um grupo neonazista.

Poucas horas depois, Mohamed Merah, deu uma entrevista a uma TV local, afirmando ser ele o autor do atentado. O francês com origem argelina, justificou a ação, como uma vingança pela política israelense no Oriente Médio, em especial aos palestinos. Merah foi preso porque deixou rastros e cometeu erros que permitiram à polícia e aos serviços de inteligência da França capturá-lo. Mas não foi fácil.

Milhares de homens, muito bem armados, saíram em seu encalço. Só que demoraram dias até que fosse preso. Na época, a polícia francesa foi duramente criticada, porque teve enorme dificuldade em localizar, prender e previnir ataques como o de Toulose.

Sharif e Said Kouachi, os dois suspeitos do ataque ao semanário “Charlie Hebdo” que matou 12 pessoas (dez jornalistas e dois policiais) na quarta-feira, foram identificados, somente, porque um deles cometeu um erro primário e deixou a carteira de identidade dentro do carro que alugaram para cometer o crime e fugir.

Menos mal que os dois homens foram cercados e mortos numa gigantesca ação que envolveu milhares de policiais e soldados, nas buscas pelo norte de Paris, considerada a maior operação de segurança e caçada humana na história da França. Mais uma vez, os 88 mil homens que estavam atrás dos dois terroristas, tiveram a “sorte” e devem agradecer a testemunhas que viram os dois islamitas radicais entrando num posto de gasolina para abastecer o carro, lotado de armamentos pesados como lançadores de granadas e uma bazuca. As tropas francesas, com a informação correta, cedida por civis, se embrenharam pelas florestas nos arredores de Paris em busca dos fugitivos.

A inteligência francesa ainda não conseguiu esclarecer se os irmãos Kouachi são “lobos solitários” ou membros de alguma orga­nização terrorista. Testemu­nhas, na cena do crime, disseram que um deles, durante o ataque, clamou ser membro de um braço da Al Qaeda no Yemen. Até conseguiram (pelo menos) levantar que muitos dos jihadistas que um dos irmãos enviou para lutar no Iraque ainda estavam em atividade, mas mudaram de lado, e agora atendiam ao grupo Estado Islâmico.

É difícil imaginar e aceitar que um ataque tão devastador como o que aconteceu em Paris, em um alvo protegido por segurança armada, não foi planejado nem teve retaguarda. No en­tanto, até agora, não há provas que certifiquem essa tese. Nem mesmo de que os dois irmãos receberam treinamento militar fora da França.

O fato de que Sharif já fosse uma figura presente no radar dos serviços de segurança desde 2008, quando foi preso por atividades suspeitas, demonstra uma grave falha em prevenir que ele fosse tão longe. Pior, a ênfase aqui é a dificuldade dos países europeus em rastrear milhares de suspeitos potenciais que já voltaram da Síria e do Iraque, ou que têm a intenção de seguir para o califado do Estado Islâmico onde fazem estágio em terrorismo.

As autoridades francesas não estão autorizadas a apurar ou manter informações sobre a religião e etnia de seus cidadãos, muito menos de centenas de milhões de pessoas de outros países da União Europeia que cruzam as fronteiras da França livremente, sem nenhum tipo de registro, o que faz a missão de rastreamento de radicais ser praticamente impossível.

A verdade é que desde a fatídica quarta-feira a polícia estava patrulhando as ruas de cidades e vilarejos em todo o país, e vai continuar a fazê-lo, mesmo depois da morte dos dois terroristas, consciente de que não tem ideia de onde e quando o terrorismo vai agir novamente. Logo depois do atentado, o ministro do Interior da França, Bernard Cazeneuve afirmou: “Temos um fortíssimo serviço de inteligência e meios para rastrear e prender os suspeitos”, mas ele e os mihares de homens que participaram da caçada, esperavam que os Kouachi cometessem outros erros para facilitar o serviço. E eles cometeram.

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Adalberto De Queiroz

Caro Herbert, Enfim, um texto que descobre o lado podre da leniência Française. Quando comecei a ler e ver os vídeos da lamentável ocorrência a que você se refere em sua correspondência, veio-me à cabeça o filme de Dean Martin em “A Pantera Cor-de-Rosa”, uma sátira hollyoodiana à famosa incompetência da polícia parisiense. Como você mesmo diz em seus texto, foram precisos uma combinação de fatores – menos o planejamento, menos a prevenção, menos a “inteligência”. Só a leniência e a lentidão foram seus agentes até então. a) Eram “88 mil homens que estavam atrás dos dois terroristas….”; b) Foi… Leia mais