A sucessão de fatos que observamos, relativos ao malfadado Banco Master e seu chefão Daniel Vorcaro, comprova de maneira cabal que as instituições do país estão de vez corrompidas. Executivo, Legislativo e Judiciário gritam presente nas páginas de jornais e nos relatórios da Polícia Federal. Felizmente, esta tem se mostrado acima de injunções políticas e agido com altivez no episódio, por demais lamentável. Afinal, trata-se de uma fraude de dezenas de bilhões de reais.

No Executivo, a desolação começa com a ação do Banco Central. O Bacen, que no governo Fernando Henrique Cardoso pecou por excesso, dizimando os bancos de varejo pequenos e médios e os bancos estaduais por simples suspeita de que pudessem ter aplicado mal seus depósitos, liquidando bancos que nunca deram um tostão de prejuízo ao erário, agora parece ter feito vista grossa aos desmandos — para não dizer coisa pior — do Master.

É impossível, para uma fiscalização preparada, como a do Bacen, não ter percebido as irregularidades que se avolumavam, a ponto de envolver o Banco de Brasília (BRB) em operações suspeitas bilionárias.

Por que Vorcaro não foi parado a tempo, por quem tinha o dever de fazê-lo?

O ex-diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sergio Neves de Souza e o ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária Belline Santana receberam propinas de Vorcaro, como sugere o jornal “Estadão”, de 10 de abril deste ano, em artigo do jornalista Álvaro Gribel? Ficam as perguntas.

Há outra, tão embaraçosa quanto: o que se discutiu a portas fechadas no gabinete presidencial, quando Lula e o presidente do Banco Central receberam, fora da agenda, o misto de banqueiro e mafioso Daniel Vorcaro?

Além de Gabriel Galípolo, já indicado presidente do Banco Central, também estava presente, naquele dezembro de 2024, outra figura influente no Executivo, e com passado nas páginas policiais — o ex-ministro da Fazenda Guida Mantega.

É verdade que Mantega recebeu milhões do Banco Master? Para que?

Outra pergunta instigante, vem de uma alegre mensagem enviada por Vorcaro à namorada Marta Graeff e interceptada pela Polícia Federal.

Vorcaro afirmou que o encontro com o presidente Lula da Silva foi “ótimo”.

Os fatos mostraram que o que era “bom” para Vorcaro significava corrupção e prejuízo para a sociedade brasileira. Então, por que foi tão “bom” para Vorcaro esse encontro de cúpula?

 Ainda falando do Executivo, o envolvimento do BRB (que pertence ao Executivo de Brasília, logo é também federal) é escandaloso, quando se conhece que as operações fraudulentas de Vorcaro contaminaram, em quantias bilionárias, os ativos do banco.

Como não teriam sido percebidas pela fiscalização do Bacen? E a propina em imóveis recebida pelo então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, hoje preso e ansioso por uma delação premiada que lhe alivie as penas a que estará sujeito, se, desta vez, a Justiça funcionar? São por si só um escândalo — e um escândalo que poderia ter sido evitado.

Vorcaro e o Legislativo: conexões estreitas

Se examinarmos as relações do pseudo banqueiro com o Legislativo, as coisas não ficam mais bonitas.

Quantos deputados e senadores não constarão de sua folha de propinas? Difícil dizer, num universo de 594 congressistas, boa parte dos quais não prima pelos escrúpulos.

Mas vejamos o que se fala da cúpula: o presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre, segundo o jornal “O Estado de S. Paulo” e a revista “Veja”, teria recebido de Vorcaro 30 milhões de dólares em depósito no exterior. A acusação constaria de uma das delações premiadas feitas pelo dito banqueiro e não aceitas pela Polícia Federal. O senador nega. Mas se recebeu, o que daria em troca?

Já o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, não nega os mimos recebidos de Vorcaro, como carona em jatinhos, diárias pagas em hotel de superluxo em Lisboa, em junho de 2024, e sabe-se lá mais o quê.

Para piorar, operação da Polícia Federal descobre que o agora ex-líder do governo no Senado Jaques Wagner é também frequentador das “gentilezas” de Vorcaro.

Reportagem do “Estadão”, do dia 22 de junho, detalha conversas suspeitas entre os dois, e mostra que Jaques Wagner também apreciava uma carona de jatinho para um evento no exterior. E dá a entender que o senador baiano teria recebido, tal como o presidente do BRB, imóveis como propina para defender os interesses do Master no Congresso. Como não podia deixar de ser, o senador  nega as acusações. Tudo estarrecedor.

Daniel Vorcaro e o Judiciário

Não se sabe se Vorcaro corrompeu alguém nas instâncias inferiores da Justiça. Já na mais alta cúpula, três fatos chamaram a atenção da imprensa mais isenta e corajosa.

O primeiro foi um contrato de R$ 129 milhões firmado entre as empresas de Vorcaro e o escritório de advocacia da esposa de Alexandre de Morais, o ministro mais poderoso da Corte Suprema. O jornal “O Estado de S. Paulo” fez várias reportagens a respeito, mencionando ainda o uso de aeronaves do Master pelo casal.

O segundo foi o envolvimento de outro ministro do Supremo, Dias Toffoli, com Vorcaro, em empreendimentos imobiliários. Aqui também, reportagens do “Estadão” mostram o uso de aeronaves de Vorcaro pelo ministro.

E em terceiro lugar, chamou a atenção da imprensa (mais uma vez o “Estadão” se fez presente) o empenho do ministro Gilmar Mendes em aliviar a carga sobre Vorcaro, defendendo mesmo uma prisão domiciliar para o pseudo banqueiro.

No programa “Roda Viva”, Gilmar Mendes foi duro com seu colega André Mendonça, encarregado do caso e que se mostra legal e rigoroso no conduzir o processo. Segundo o “Estadão”, há empenho de Gilmar Mendes até em anulação do processo.

Nossas instituições estão corrompidas. Nada se salva? Sim, algumas poucas instituições não se deixaram levar pelas facilidades indevidas, pela desonestidade, ignorância e pelo aproveitamento com o dinheiro público.

As Forças Armadas, por exemplo. Não se viu um general envolvido com Vorcaro, ou recebendo dele presentes indevidos. Não há almirante que tenha voado nos jatinhos de Vorcaro e aproveitado suas mordomias. Nenhum brigadeiro aparece nas conversas comprometedoras do dono do Master com seus sicários ou com quem quer que seja.

A imprensa não comenta essa verdade. Afinal, as FF AA, como quer José Dirceu, devem ser diminuídas, afastadas, espezinhadas se possível. E as redações estão coalhadas de seguidores do brasileiro-cubano.    

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