Nenhum país se arrependeu por ter priorizado a educação, diz Priscila Cruz, do Todos Pela Educação
27 junho 2026 às 21h00

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Espero que o leitor não se aborreça por eu martelar tantas vezes no tema da educação, cuja qualidade baixou no país em níveis inaceitáveis.
Se o faço, é por perceber, por décadas de observação, não só pessoal, mas também de profissionais especializados e qualificados, que o problema educacional gera outros inúmeros problemas.
Ou, falando de modo inverso, que a solução dos problemas sociais que mais nos afligem, e são muitos, na saúde, na segurança, na economia, passa, obrigatoriamente, pela solução do problema de nosso baixo nível educacional, sobejamente conhecido, mas persistentemente ignorado pelos responsáveis.
Essa ignorância, diga-se, é explicável, embora não aceitável, pelo baixo nível intelectual das mais altas autoridades do Executivo, justamente as que melhor deveriam perceber nossa deficiência no aprendizado.
Mas como esperar essa largueza de quem não tem o mínimo conhecimento de história, de economia, de geografia, e até mesmo da mais básica das ferramentas, a linguagem?
O Voltaire de Itacajá
Numa excelente crônica, “O Voltaire de Itacajá”, o escritor e pesquisador Salatiel Correia fala de sua alegria, ao encontrar na distante cidadezinha tocantinense de Itacajá um jovem com elevado nível educacional, capaz de dialogar com conhecimento, sem afetação ou exibicionismo.
Aleksander — é o nome do jovem — “é alguém que compreendeu que os livros continuam sendo atalhos para compreender a complexidade do mundo”. Conhecedor da educação do Brasil e do Tocantins, Salatiel sabe que aquele avanço não se deve à escola frequentada pelo jovem, mas ao seu esforço próprio.
“Aleksander é produto de uma virtude cada vez mais rara, a autodisciplina intelectual.” O artigo traz uma frase lapidar: “O conhecimento continua sendo a mais poderosa ferramenta de transformação social”. Pena que nossas autoridades nunca vão ler isso.
Tenhamos esperança em uma mudança. Alguns sinais de alerta começam a aparecer, mesmo em alguns setores muito complacentes com o governo e suas omissões. Duas matérias pelo menos, na grande imprensa e coincidentemente também no dia 14 deste mês, tratam do assunto.
O fanatismo que nos falta
Um editorial do “Estadão” tem o título: “O fanatismo que nos falta”. Seu subtítulo: “Sem um presidente obcecado por educação e saúde, o Brasil continuará desviando do único caminho que leva ao progresso”.
O editorial nasce do ciclo de debates Brasil Adiante, promovido pelo jornal e cujo curador foi Fabio Barbosa, conhecido executivo da Natura e ativo em outras grandes empresas.

Uma parte do texto reza: “A inflexão virtuosa só ocorrerá quando o País for governado por alguém ‘fanático’ e ‘obcecado’ por educação, como disse Denis Mizne, da Fundação Lemann.
Até que este homem ou esta mulher chegue à Presidência da República, o Brasil seguirá sem priorizar a área que levará ao salto para o progresso. Nenhum país jamais se arrependeu por ter priorizado a educação, como bem lembrou Priscila Cruz, do Todos Pela Educação.
De fato, casos de sucesso que vão da Coreia do Sul à Finlândia só foram possíveis porque, no coração do poder nesses países, havia uma convicção inabalável de que educar os cidadãos era a grande prioridade nacional como política de Estado”.
E, como já pregamos aqui à exaustão, o artigo de opinião conclui: “Há muito este jornal sustenta que garantir o acesso à educação básica, gratuita e de qualidade de todas as crianças brasileiras não só é um direito fundamental, como é um dever moral de todos os governantes e o mais rentável investimento que a nação pode fazer em si mesma. Uma criança bem-educada, no futuro, irá trabalhar bem, contribuir para a Previdência, eventualmente criar empresas, inovar, cuidar dos mais velhos, votar com consciência e exigir políticos à sua altura. Noutras palavras: educação é política pública de longo prazo. Talvez seja por isso que nunca esteja no rol de prioridades de políticos que só enxergam o próximo ciclo eleitoral”.
O outro artigo a que nos referimos é uma reportagem sobre a qualidade do ensino superior brasileiro, e sua deterioração no tempo. O título é: “A universidade que o Brasil não construiu”, e o subtítulo: “Como mostram os rankings internacionais, a universidade brasileira perderá se não se abrir para o mundo e para o setor produtivo e não adotar governança profissional e meritocracia”.
O subtítulo faz a denúncia que deveria ser gritada em todos os jornais quando se fala do baixo nível de nossas atuais universidades públicas, cujas reitorias foram em grande parte entregues a partidos políticos, por uma escolha tida como “democrática”, mas que é na verdade populista, e cujo corpo docente, antes formado exclusivamente pela excelência intelectual e voltado inteiramente para o conhecimento do que lecionava, hoje está contaminado pela ideologia e se acha no direito de espalhá-la a partir da cátedra.
O artigo é um tanto cuidadoso no apontar o dedo aos “pecadores”, mas não deixa de mostrar os pecados.
Vamos a alguns trechos: “Quase 90% das universidades brasileiras caíram no ranking do Center for World University Rankings (CWUR). A principal razão foi a piora dos indicadores de pesquisa… no conjunto o ranking capta uma degradação sistêmica” … “O País expandiu significativamente o acesso ao ensino superior. Multiplicaram-se vagas, matrículas, campi e diplomas … Em todo o mundo, a ampliação do acesso veio acompanhada de diferenciação institucional. Universidades de pesquisa coexistem com faculdades voltadas ao ensino, institutos tecnológicos, cursos mais curtos e trajetórias profissionais variadas. Cada instituição responde a missões específicas. A eficiência e o prestígio acadêmicos não dependem de todas fazerem a mesma coisa. O Brasil seguiu outro caminho. A universidade tradicional tornou-se a referência para o sistema inteiro.”
Sabe-se que o que era ensino puro universitário no Brasil tornou-se um misto de ensino e “pautas sociais”, que a pregação ideológica tomou boa parte do tempo do conhecimento voltado ao profissionalismo, e que ações específicas como o do ensino profissionalizante e o da integração universidade — empresa praticamente desapareceram.
Faculdades se multiplicaram, pois o critério do governo foi o da quantidade, não o da qualidade.
Como acontece com o ensino básico, precisamos, com o ensino universitário, ter a humildade de aprender. Aprender com quem atingiu patamares mais elevados no desempenho de suas universidades, e nem falo de EUA e Reino Unido. Poderíamos aprender com a Austrália, por exemplo, que tem cinco universidades classificadas entre as 100 melhores do mundo, lista em que sequer aparecemos. Não percamos a esperança, que é o que nos resta.



