Proletários de todo o mundo, uni-vos!… para o fracasso do comunismo
13 junho 2026 às 21h00

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Tenho vários amigos – e alguns desafetos – que acreditam, ainda hoje, no comunismo com sistema válido de organização social. Respeito a opinião e todos, mas fico à espera – sentado, é evidente – de argumentos racionais que validem essa crença.
Já argumentei com esses amigos sobre a essência antinatural do comunismo, já citei à exaustão as dezenas de experiências frustradas que ocorreram pelo mundo afora, mas a crença, na mente de muitos, ainda permanece.
Embora não seja fácil aceitar essa teimosia, há que se compreender algumas coisas, que fazem com que permaneça a crendice, ainda que só como esperança, na mente de pessoas até inteligentes. O comunismo tornou-se, com o passar do tempo, um sucedâneo para a religião.
Embora na prática só tenha se sustentado, onde foi provado, por períodos limitados e pela força policialesca mais crua, traz em suas bases teóricas promessas tão atrativas, que muitos tendem a se manter presos a elas, como acontece nas religiões, com as promessas extraterrenas e pós-existência.
Com a vantagem de que as delícias paradisíacas prometidas pelo marxismo seriam provadas aqui na Terra mesmo, e ainda em vida. E ao vaticinar um mundo regido pelo deus Estado, que tudo nos proverá, do berço ao ataúde, em toda nossa existência, faz um único apelo natural, em toda sua teoria: o apelo à lei do menor esforço.
Religiosidade doutrinária marxista
Há uma tal religiosidade doutrinária na argumentação marxista, que é difícil dialogar em termos apenas racionais com um esquerdista inflexível.
Tenho um amigo a quem tento mostrar o fracasso cubano como exemplo de inadequação política e social, mas qual o quê. Para ele, todo o retrocesso experimentado pela ilha deve-se a um bloqueio norte-americano que fechou todos os portos e nem uma agulha deixa aportar em Havana.
Acredita nisso e não aceita que a ilha, outrora próspera, desde a ascensão do comunismo vem retroagindo em sua economia e em suas liberdades e viveu sempre de esmolas, antes da União Soviética, e desde que essa também faliu, da Venezuela, da França, do México e até do Brasil, que derramou ali bilhões de dólares, no Porto de Mariel e no Mais Médicos. E que continua, cada vez mais, uma ilha de mendigos.
Não aceitam que essas esmolas não existiriam, se existisse o tal “bloqueio”, na verdade um simples embargo, mais simbólico que outra coisa.

A verdade é que o marxismo se baseia em teorias antinaturais, já sobejamente desmentidas há quase dois séculos, desde o aparecimento da raivosa minibíblia dessa religião, o “Manifesto Comunista”, de Karl Marx e Friedrich Engels, em 1848.
Para os marxistas, o opúsculo é um documento épico, anunciador de uma nova era – que ainda chegará –, pleno de sabedoria, razão e ensinamentos históricos.
Pena que poucos dos marxistas que conheço o tenha lido na íntegra. Eu o considero, inicialmente, uma coleção de afirmativas no mínimo discutíveis e de profecias não realizadas.
Para Marx e Engels, toda a história humana se resume numa luta de classes, desprezados todos os demais aspectos da marcha do homem sobre a terra, principalmente do ponto de vista cultural (“a história de todas as sociedades até o momento presente é a história das lutas de classe” – afirmam de início).
Ao dividir a humanidade entre opressores e oprimidos, burguesia e proletariado, o Manifesto Comunista ainda aponta o Estado como cumplice dos opressores (“o poder executivo do Estado moderno é apenas uma comissão que gere os negócios comuns de toda a classe burguesa”), e reduz as profissões a algo vazio de toda vocação e nobreza (“a burguesia transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o cientista em trabalhadores a seu soldo”).
Laços familiares e até o amor materno se anularam, no entender dos autores do Manifesto (“a burguesia arrancou à relação familiar seu tocante véu sentimental e reduziu-a a uma mera relação de dinheiro”). E ainda o Manifesto abriga suas bisbilhotices, algo incomum para um documento que se pretende histórico (“os burgueses, não contentes em ter as mulheres e filhas dos proletários a seu bel-prazer, … experimentam um prazer imenso em seduzir as esposas uns dos outros”).
O fracasso da revolução comunista
Os vaticínios do Manifesto também não se concretizam. A revolução inevitável, com cobiça cada vez maior dos patrões provocando a pobreza cada vez maior dos operários até a explosão, nunca ocorreu.
A única experiência revolucionária marxista mais longa em tempo e território deu-se na Rússia, com a Revolução de 1917, e nada teve a ver com patrões e operários, mas com a revolta popular contra o czarismo prepotente e incompetente em lidar com os desastres que a Primeira Guerra Mundial levou à Rússia.
Não foi uma revolta em um país adiantado e industrializado como a Alemanha de Marx e Engels, como previam (“os comunistas focam na Alemanha a sua atenção principal … porque a revolução burguesa alemã só pode significar o preludio imediato de uma revolução proletária”), mas em um país atrasado e agrário como a Rússia de então.
Outra falha nas previsões do Manifesto: os operários sempre guardaram o patriotismo, que nada tem a ver com relações entre patrões e empregados, mas com os sentimentos ancestrais, étnicos, geográficos, religiosos, linguísticos e culturais.
O brado internacionalista do Manifesto (“os operários não têm pátria! Não se lhes pode tirar o que não possuem”) foi tão falacioso que a Iugoslávia, um dos exemplos mais longevos de internacionalismo comunista, tão logo soçobrou a ditadura soviética, esfacelou-se e voltaram a existir as pátrias Sérvia, Croácia, Eslovênia, Montenegro, Macedônia do Norte, Bósnia e Herzegovina e Kosovo, por vontade indiscutível dos povos de cada uma.
O mesmo ocorreu com todo o Leste Europeu, onde cada país, artificialmente internacionalizado pela URSS no pós-guerra, imediatamente cuidou de voltar à antiga nacionalidade tão logo percebeu-se forte o bastante para desafiar a moribunda União Soviética, na década de 1990.
Outro significado não teve a queda do Muro de Berlim, em 1989, com a reunificação das duas Alemanhas. Apesar de todo o fervor religioso expresso no Manifesto, em sua retumbante essência (“Proletários de todos os países, uni-vos”), ele resta hoje, do ponto de vista histórico, mais como uma curiosidade do que como uma realidade.



