A história de D. Fernando II (1816-1885), que ficou conhecido como Rei Artista, marido de D. Maria II, rainha de Portugal (1819-1853), é única.

Antes de descrevê-lo, duas palavras sobre D. Maria II: a rainha era brasileira do Rio de Janeiro, filha mais velha do imperador D. Pedro I (D. Pedro IV em Portugal). Casou-se proforma com o tio Miguel, aos 7 anos, para manter o trono, sendo regente a tia Isabel Maria.

Depois de muitas peripécias, D. Maria II instalou-se definitivamente no trono português em setembro de 1834, graças ao pai, que renunciou à coroa brasileira e se foi do Brasil para Portugal em 1831, para garantir os direitos sucessórios da filha, ameaçados em meio à disputa; na verdade uma guerra, entre os constitucionalistas e os absolutistas.

Dissolvido o casamento com o tio, D. Maria II casou-se em dezembro de 1834 com o príncipe alemão Auguste de Beauharnais, que morreu de difteria um ano depois.

Seu casamento seguinte, num arranjo então usual entre as casas reais europeias, seria em 1836, com outro príncipe de origem germânica, Ferdinand August von Sachsen-Coburg, nascido na Áustria, e que seria o futuro D. Fernando II.

A rainha D. Maria II ficaria conhecida como A Educadora por espalhar, em seu reinado, escolas primárias pelo território português e por ter criado vários Liceus (escolas de ensino médio) — além da Faculdade Politécnica de Lisboa e as Escolas Médicas de Lisboa e do Porto.

D. Fernando II aportou em Lisboa, para o casamento com D. Maria II, que não conhecia, em 1836. Ele tinha 19 anos e ela 16. Apaixonou-se por Portugal e pela esposa, com quem teve 11 filhos, até que ela morresse aos 34 anos de idade, após 17 anos de vida em comum.

Foi, como dito, um apaixonado por Portugal, tanto que só visitou sua pátria de nascimento em 1863, 27 anos depois de ter chegado a Lisboa. Deixou um legado extraordinário no campo intelectual, algo incomum na Europa de então:

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D. Fernando II era pintor e cantor (barítono). Instalou em Portugal a Academia de Belas Artes e enviou jovens portugueses para estudo de pintura e de música na França, custeando do seu bolso as despesas.

Pintores portugueses que ficariam famosos começaram então a se projetar. D. Fernando adquiria obras mais destacadas dos artistas portugueses, que hoje compõem a base do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

2

D. Fernando II impediu que se destruíssem os armamentos antigos, das épocas dos descobrimentos e das guerras travadas pelos portugueses, e criou com elas o Museu Militar. Impediu que joias também antigas fossem fundidas, como se usava fazer para aproveitamento do ouro e cunhagem de moedas, e as preservou nos museus,  onde hoje podem ser apreciadas.

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Mosteiro dos Jeronimos em Lisboa Foto Reprodução
Mosteiro dos Jeronimos, em Lisboa | Foto: Reprodução

Já no primeiro ano de sua estada em Portugal, reagiu ao ver que o Mosteiro dos Jerônimos, na freguesia de Belém, começava a ser demolido, mandou parar imediatamente a demolição e começar cuidadosa restauração. Hoje é um dos principais monumentos históricos portugueses.

Adotou idêntica atitude quanto ao Mosteiro da Batalha, que começou a ser construído ainda no século XIV, para comemorar a decisiva batalha de Aljubarrota, também um monumento icônico da historiografia portuguesa.

Não fosse sua visão estes dois monumentos não existiriam no dia de hoje.

D. Fernando II fez restaurar a igreja da Sé de Lisboa e os conventos históricos de Mafra e de Tomar. A Torre de Belém estava sendo desfigurada pela construção de um prédio no seu topo, que ele fez demolir.

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Em 1862 foi deposto o monarca grego Oto I, e as cortes da Grécia ofereceram a coroa a D. Fernando II, que já ficara famoso como Rei Artista e Rei Regente de Portugal, após a morte de D. Maria II em 1853.

Mas ele a recusou sem titubeios, alegando ser português de coração, e não desejar, por maiores que fossem as honrarias, se separar de Portugal.

Em 1869, foi-lhe oferecida a coroa espanhola, numa tentativa de união ibérica, mas novamente ele recusou. Pacifista, viu na proposta uma segunda intenção: um fortalecimento ibérico como planejamento de futuras conquistas ou até um internacionalismo à moda de Adam Weishaupt (da Ordem dos Illuminati) que pregava uma nova ordem mundial.

5

D. Fernando II soube se aproximar da colônia germânica em Portugal, e absorver os benefícios do desenvolvimento alemão.

Seu amigo Emil Biel levou da Alemanha para Portugal a fotografia, a luz elétrica, o gramofone, os raios-X e o primeiro veículo a motor.

6

D. Fernando II fez construir em Sintra o Palácio Nacional da Pena, um castelo de arquitetura puramente portuguesa, com jardins e composição ambiental aprimorados.

7

Levou do Brasil para Portugal, para cuidar dos projetos e das obras, o Barão von Schwege (1777-1855), um dos mineralogistas mais famosos do mundo, e que tinha vindo para o Brasil na comitiva de D. João VI, em 1810.

8

D. Fernando II foi pioneiro na abolição da pena de morte por crimes políticos na Europa, eliminando-a em Portugal, em 1852. 

Em suma, embora não fosse português de nascimento, D Fernando II identificou-se à perfeição com Portugal e sua gente. Conviveu em harmonia com sua rainha portuguesa, deu 11 filhos a Portugal, dois dos quais foram reis (D. Pedro V, de 1853 a 1861, e D. Luiz I, de 1861 a 1889), protegeu a cultura e a história portuguesas como poucos fizeram. Mereceu e merece o respeito de Portugal e do mundo civilizado.