Há quase dois anos, em meados de 2024, em sua coluna no “Estadão”, o professor de Filosofia na UFRGS, Denis Lerrer Rosenfield foi imensamente feliz quando resumiu em poucas palavras toda a tragédia da permanência do marxismo como sistema social.

Escrevi então uma crônica, comentando o arrazoado do professor gaúcho. Vale a pena repetir esses argumentos, sempre atuais. A permanência do marxismo na mente de muitas pessoas, apesar dos constantes fracassos, e mais que isso, da ausência de um sucesso sequer, nas tentativas que foram perpetradas por mais de um século, e em todos os continentes, é algo complexo.

Essas tentativas deixaram, por onde passaram, um rastro de destruição, sangue e infortúnios. Somente um fanatismo religioso como o mencionado pelo professor Rosenfield, e um oportunismo até doentio de cúpulas políticas obcecadas pelo poder podem explicar o fato dessa doutrina não estar definitivamente sepultada nos dias de hoje.

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Denis Lerrer Rosenfield, filósofo: crítico da esquerda | Foto: Reprodução

Para nós, algo pior acontece: apenas na América Latina essa doutrina nefasta ainda tem seus adeptos (e, claro, na China, que, porém, aproveita as ideias do capitalismo para crescer), em sua forma mais atrasada e devastadora: o socialismo soviético, outrora denominado comunismo, que desapareceu na Europa sob os entulhos do Muro de Berlim, em 1989. Devem-se a ele as maiores e piores atrocidades cometidas nos últimos cem anos.

“Ideia sem seu processo histórico é abstração”

Em seu artigo, o professor gaúcho afirma, com rara precisão, sobre essa ideia comprovadamente utópica: “Ideia sem seu processo histórico é uma mera abstração, carente de significado. Sobra somente esta forma específica de fanatismo teológico/político”.

Seja nas ciências do meio físico, onde a comprovação se dá em laboratório, seja nas ciências do meio social, onde as teses se validam pela história, teoria e prática têm que estar em completo acordo, para que um fenômeno natural qualquer seja aceito como concepção racional.

Um químico, que pretendeu ter descoberto um novo combustível, não ficará por certo satisfeito apenas com o estudo teórico que fez, apontando a possibilidade de aproveitamento prático desse combustível. Conseguirá na indústria interessada alguns motores, de várias potências diferentes, e fará testes exaustivos, observando como queima esse combustível, e a potência produzida.

Antonio Gramsci, filósofo italiano | Foto: Reprodução

Se ao fim desses testes observar que o rendimento do novo combustível é muito inferior ao que previa sua teoria, ou que ele tem um poder corrosivo sobre as peças dos motores, o que encurta sua vida útil, esse cientista abandonará de vez essa experiência, e buscará outra, que possa resultar em algo viável.

Um físico que acredita ter descoberto em teoria uma nova partícula subatômica, fará sua experiência em um acelerador de partículas, e se depois de repeti-la algumas dezenas de vezes não detectar essa nova partícula, que por alguma de suas propriedades parecia ser algo ainda não descoberto, mas sim aquelas já conhecidas, reconhecerá que essa sua ideia deve ser abandonada, e partir para outro tipo de investigação.

Um médico e biólogo que em teoria descobriu um novo medicamento para a cura do câncer terá que fazer uma experiência muito mais cuidadosa. Terá que conseguir algumas dezenas de voluntários, entre os pacientes com essa moléstia, em vários estágios, e com muita cautela, administrar-lhes seu remédio experimental. Se esses pacientes não apresentarem nenhuma melhora passarem a sofrer de graves sequelas cardíacas, só caberá a esse cientista concluir que a droga, em que depositou tantas esperanças, não é curativa, mas tóxica, e abandoná-la de vez.

Só um fanático daria sequência a experimentos falhos que pioram as condições de existência de seus semelhantes. Nos três casos (fictícios) citados, o cientista que persistisse nas experiências fracassadas cairia no descrédito, e seria abandonado por seus colegas.

John Gray capa de missa negra 1

Um experimento real: a teoria de Marx

A teoria dos alemães Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), de reorganização social, parte da premissa, quase profecia, de que, no capitalismo, as classes dominantes, detentoras dos meios de produção (burguesia) terminariam por serem dominadas pelas classes exploradas (proletariado) dado a crescente concentração de riqueza nas mãos dos primeiros e o agravamento da pobreza dos segundos.

Essa revolta começaria nos países mais industrializados, onde o ambiente seria mais propício.

A revolta levaria à ditadura do proletariado, ao socialismo, e finalmente à sociedade sem classes, o comunismo, com os meios de produção não mais de propriedade individual, mas de toda a comunidade.

Cada qual contribuiria para a sociedade de acordo com sua capacidade e receberia dela conforme sua necessidade.

A base materialista e internacionalista da teoria viria a torná-la um sucedâneo da religião (tanto que o filósofo John Gray fala de a “missa negra” do comunismo), que ela negava, e substituir o paraíso celeste, religioso, pelo paraíso terrestre, onde cada qual seria provido, pelo novo sistema social, do berço à sepultura, de tudo aquilo de que necessitasse. Nada mais tentador poderia ser proposto. Sequer necessário seria morrer para chegar ao paraíso prometido.

Mas a profecia da revolta do proletariado nunca se realizou, e a primeira implantação do sistema marxista se deu no Império Russo, pouco industrializado, mais por revolta anti-czarista (quem derrubou o czarismo foram democratas, como Kerensky, os comunistas apenas aproveitaram-se do caos e tomaram o poder), do que por anticapitalismo, o que alimentou as esperanças dos marxistas do mundo todo numa nova ordem mundial comunista.

Era questão de tempo, diziam. Mas as coisas, na natureza não se passam segundo a vontade, mas segundo as leis naturais. A expansão do regime marxista não se deu pela revolta do proletariado, mas pela imposição da União Soviética, pela força, sobre o Leste Europeu, que os aliados abandonaram à própria sorte, ao fim da Segunda Guerra Mundial.

O pretenso desenvolvimento da URSS foi uma grande mentira, mas que expandiu a doutrina para outros continentes, antes que a mentira fosse desmascarada. Hoje, o marxismo é um experimento histórico de dezenas de países, sem um só sucesso. Cuba é o exemplo cabal: o país teria socializado a fome? Cubanos que moram no Brasil — em Goiás, inclusive — não querem voltar pra lá de jeito nenhum.

O infortúnio, a falta de liberdade, as perseguições, a tortura e a morte foram sua marca, onde quer que tenha sido experimentado (70 milhões de mortos na China e 30 milhões na União Soviética).

Nos países onde houve divisão interna entre os sistemas comunista e capitalista, foi gritante a superioridade do segundo.

Os exemplos alemão (Alemanha Ocidental, capitalista, e Alemanha Oriental, comunista) e coreano (Coreia do Sul, capitalista, e Coreia do Norte, comunista) mostraram a diferença enorme entre as liberdades e a economia, comparados os dois regimes.

Os que o sofreram e dele se libertaram (caso do mencionado Leste Europeu) tiveram enorme ganho de desenvolvimento econômico, recuperaram a liberdade individual e abominam seu passado de tirania.

Resumindo: o marxismo pode ser comparado a uma experiência de laboratório (e o laboratório, no caso, é a história mundial) em que os cientistas tentaram, oitenta vezes, o mesmo experimento, prevendo um resultado (no caso, a igualdade, o desenvolvimento econômico e a paz social) e obtiveram o inverso (uma cúpula dirigente opulenta, uma sociedade quase miserável, a angústia da opressão e da morte).

Mesmo assim pretendem seus defensores (no caso, os próceres marxistas e seus seguidores ignorantes da história ou obliterados cognitivos) insistir no experimento, esperando que um dia dê certo. Como diz o professor Rosenfield, essa atitude só se explica pelo fanatismo político (dos pretensos dirigentes aproveitadores) e religioso (dos ignorantes da história). Vamos, nós brasileiros, mergulhar nessa insensatez?    

(Por falar em comunismo, o filósofo e ideólogo italiano Antonio Gramsci sintetizou Marx e Lênin e criou novas formas para a esquerda conquistar o poder. Ele é que está em voga no mundo e, notadamente, no Brasil. É o inspirador do petismo no Brasil.)