O leitor possivelmente não terá ainda ouvido falar da Prova Nacional Docente (PND), conhecida popularmente como “Enem dos Professores”.

Trata-se de um programa de avaliação dos professores de educação básica, criado no ano passado. O programa é federal, podendo aderir Estados e municípios, que irão se beneficiar dos resultados para avaliar ou contratar seus professores. O programa é bom. Não são bons seus primeiros resultados.

Um editorial do jornal “O Estado de S. Paulo” do dia 7 deste mês tem um título por si desanimador: A “Formação docente está na UTI”. O conteúdo do artigo é pior.

O retrato pintado pela prova, que teve a adesão de 22 Estados e 1.508 municípios é assustador. Dos 760 mil professores participantes, 266 mil (ou seja, um terço), não alcançaram, na avaliação geral, o nível mínimo exigido para a docência.

Se considerarmos apenas o ensino de matemática, esse percentual sobe para a metade, o que é catastrófico, mostrando que nossos processos de formação, motivação e remuneração de docentes está longe de atingir os patamares mínimos aceitáveis.

Não admira que nossos jovens, com uma docência sofrível, nas avaliações internacionais de aprendizado, como o Programme for International Students Assessment (Pisa), da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), fiquem nos últimos lugares, entre os quase 90 países examinados, mostrando baixíssima capacidade de apreensão quando leem e quase total incapacidade de efetuar cálculos simples, além de desconhecerem qualquer sentido prático no aprendizado de ciências.

Estamos formando, há décadas, analfabetos funcionais. Para que se tenha uma ideia de nossa deficiência na aprendizagem, estudando o mesmo período, um jovem português aprende quase 40% a mais do que um jovem brasileiro.

Entre os problemas que a sociedade brasileira enfrenta no momento, alguns da maior gravidade como da segurança e da saúde, o da educação se sobressai, pois sem educação de qualidade dificilmente teremos quadros, quer no setor público quer no empresarial, qualificados para enfrentar e equacionar esses desafios.

Vale ressaltar que nossa educação já foi de qualidade, décadas atrás, mas que vem se deteriorando, sem que as autoridades responsáveis demonstrem preocupação com essa perda constante de qualidade.

Licenciaturas são frágeis e ideologia

Contemplando esse quadro lamentável, o redator do artigo do “Estadão” alinhava: “Uma tragédia, a ponto do diretor executivo da ONG Todos pela Educação, Olavo Nogueira Filho, assim resumir o quadro: a  formação inicial dos professores brasileiros está na UTI. Antes fosse hipérbole retórica. Um país onde tantos professores responsáveis por alfabetizar, ensinar Matemática e formar leitores não dominam o conteúdo essencial de sua própria atividade compromete o futuro de gerações. O problema não começa no professor que foi mal na prova, e sim nas licenciaturas frágeis, nos cursos de baixa qualidade,  na expansão desordenada da educação à distância (EAD) e na tolerância oficial com instituições que diplomam sem formar”.

Eu imputaria ainda, a nossas autoridades, além da não valorização do magistério, uma outra falha: ter admitido uma mistura de ideologia e ensino, deturpadora e corruptora.

Em outras ocasiões, nesta coluna, falamos de não ser esse o destino de nossa educação, que já foi excelente, em outras épocas.

Falamos de outros países, que tempos atrás viviam em um nível educacional abaixo do nosso e que se elevaram a patamares invejáveis, estando hoje no topo da avaliação do Pisa.

Citamos os exemplos de Singapura e da Coréia do Sul, entre outros. E criticamos a omissão de nossa elite política, a que atua no campo educacional principalmente.

Tenho alguns amigos simpatizantes do governo federal, com quem troco ideias, e que – com alguma razão – retrucam: “Você vive criticando. O governo não tem recursos para resolver agora esse problema. Temos que esperar que o ambiente econômico melhore”.

Não concordo quando se alega falta de recursos. Recursos existem para causas menos nobres como para as emendas parlamentares e para o Fundo Partidário.

Ou para cobrir rombos bilionários nas empresas estatais. Recursos sobraram para ajuda também bilionária a Cuba, Venezuela e Paraguai, desde que governados por “companheiros” de esquerda.

Acrescento que o problema não se resume a dinheiro. Ele também pede estudo, competência e planejamento, mercadorias raras no governo atual.

Um exemplo do que poderia desde já ser feito, com gastos mínimos, se houvesse discernimento – e boa vontade – para tanto: o governo poderia selecionar, entre os milhares de funcionários do setor educacional, duas dezenas dos mais preparados, mais dedicados, mais estudiosos e mais corretos. Essas pessoas existem. Seriam divididas em dois grupos de trabalho.

Enquanto isso, o  Itamaraty, por nossos diplomatas acreditados em Singapura e na Coréia do Sul, trataria de dois termos de cooperação com esses governos, com quem não temos disputas de qualquer natureza e são governos esclarecidos e cooperativos.

Um grupo permaneceria em Singapura e outro em Seul por alguns meses, estudando o sistema educacional local e preparando sugestões aplicáveis no Brasil com base nas experiências observadas. As despesas com essas estadias seriam infinitamente menores do que aquelas dadas em uma só viagem presidencial na companhia da primeira-dama e de uma enorme comitiva, como as que têm ocorrido – e com muito mais resultados.

De volta ao Brasil esses dois grupos apresentariam seus relatórios e conclusões. Que seriam transformados em resoluções e portarias do Ministério da Educação, em parte. E parte, transformada em projetos de lei, imediatamente remetidos ao Congresso, e que o governo se empenharia em ver aprovados (algo fácil quando há vontade). Os resultados, se bem aplicados os ensinamentos trazidos,  seriam inevitáveis. Mas há, com o ambiente político atual, possibilidade de algo assim ocorrer? Deixo a resposta para o leitor.