A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Não é raro que nos deparemos com filmes e livros que retratam fielmente ou reescrevem grandes tragédias e catástrofes da humanidade. Outros, parecem se ater aos sinais contemporâneos pra vaticinar os caminhos da civilização. E pode ter sido assim quando a escritora canadense Margaret Atwood publicou, ainda na década de 80, The Handmaid’s Tale (em português, O Conto da Aia).

Muitos anos depois, a adaptação para a TV transformou a obra em uma das séries mais perturbadoras e marcantes da cultura contemporânea. Não apenas pela escrachada violência, mas por fazer o espectador encarar uma questão desconfortável: e se os direitos das mulheres fossem totalmente retirados, um a um, sob aplausos eufóricos de uma parcela significativa da sociedade?

Em Gilead, país teocrático apresentado na obra (onde antes eram os Estados Unidos), as mulheres deixam de ser cidadãs e, do dia para a noite, perdem identidade, patrimônio, autonomia, tudo, passando a ser instrumentos reprodutivos do Estado.

Sob a égide religiosa, seus corpos passam a pertencer aos homens e se transformam em meros aparelhos reprodutores em uma teocracia absoluta. É uma distopiae desesperadora justamente porque não apresenta monstros fantasiosos, e sim seres humanos convencidos de que a opressão é, na verdade, um direito divino.

Durante muito tempo, a ideia de uma Gilead parecia um exagero, um mero alerta literário levado ao extremo, pura ficção. Mas, a se levar em conta os discursos e movimentos cada vez mais explícitos de figuras de destaque na política e na comunicação contra os direitos das mulheres, essa distopia começa a soar menos como ficção e mais como uma projeção do que pode estar por vir.

Pra perceber isso, nem é preciso ir longe. Basta acompanhar o crescimento de movimentos ultraconservadores em democracias como Brasil e Estados Unidos. A estratégia, diga-se de passagem, nunca começa já propondo a retirada escancarada dos direitos das mulheres. O processo é mais sutil e sofisticado: uma sugestão aqui, uma pequena crítica acolá. Uma falsa associação ali e uma comparação sofista lá.

A estratégia, aparentemente, é primeiro desacreditar e ridicularizar o feminismo e, depois, a igualdade de gênero. Em seguida, romantiza-se a submissão feminina como uma escolha moral superior (isso tudo, muitas vezes, sob a ótica bíblica). E, quando esse discurso encontra quem pare para ouvir, ideias que antes seriam motivo de repúdio passam a circular como opiniões legítimas.

Foi exatamente isso que aconteceu quando a influenciadora bolsonarista Pietra Bertolazzi, que reúne milhões de seguidores nas redes sociais (só no Instagram ela contava com 1,3 milhão de seguidores até a publicação deste texto), declarou, em um vídeo de perguntas e respostas, ser contra o direito ao voto feminino. Isso mesmo que você leu.

Na mesma gravação, Pietra afirma também ser contra o aborto, contra a distribuição gratuita de absorventes e diz acreditar que o feminismo “confundiu liberdade com libertinagem e sucesso financeiro”. Ao final, ela ainda aconselha mulheres a fazerem justamente o oposto do que o feminismo defende.

Influenciadora antifeminista defende que mulheres não possam votar | Foto: Reprodução

O episódio seria apenas estapafúrdio e isolado, algo pra se ridicularizar. O ponto maior é que ele representa um fenômeno crescente. Bertolazzi faz parte da corrente das chamadas “trad wives” (esposas tradicionais), mulheres que apresentam a submissão feminina como um projeto político e conteúdo para as redes sociais. Vendem uma imagem minuciosamente produzida da esposa obediente e perfeita, da maternidade compulsória e da rejeição às conquistas femininas. A independência da mulher é retratada como “algo imposto pelo feminismo”. Veja a lógica (ou a falta dela): segundo esses movimentos, a mulher foi obrigada pelo feminismo a ter direito de escolha.

E a ironia é, de fato, intrigante, até engraçada. Essas “influenciadoras” utilizam justamente as liberdades conquistadas pelo feminismo ao longo das décadas para defender que outras mulheres tenham menos liberdade.

O mesmo é defendido pelo youtuber bolsonarista Paulo Figueiredo, por exemplo, que publicou um vídeo afirmando que “mulheres não sabem votar”, recuperando um dos argumentos mais antigos utilizados contra o sufrágio feminino. Um argumento nada inédito, reciclado de uma misoginia que parecia derrotada pela história, mas que agora parece ter encontrado nas redes sociais um ambiente para voltar a circular.

E o buraco fica ainda mais fundo quando essa verborragia misógina deixa de ser exclusividade de influenciadores e entra na política institucional. A deputada Julia Zanatta que o diga. Frequentemente, a parlamentar do PL faz coro a pautas antifeministas, ignorando que, sem o movimento feminista, ela própria jamais poderia disputar uma eleição, ocupar um mandato parlamentar ou expressar suas opiniões da tribuna da Câmara. O direito de votar e ser votada não caiu do céu, mas foi conquistado a duras penas por mulheres que enfrentaram exatamente o tipo de pensamento que hoje se tenta ressuscitar.

No Brasil, essa história foi ofuscada, esquecida. Documentos históricos guardados no Arquivo do Senado, em Brasília, revelam que os homens retardaram ao máximo a inclusão das mulheres na vida política. Das primeiras discussões parlamentares à histórica canetada de Vargas, passaram-se quase 40 anos. Pra manter as mulheres afastadas das urnas e do poder, senadores e deputados contrários ao voto feminino recorriam desde ataques ao intelecto feminino até ao argumento de que a presença da mulher na política poderia “desestabilizar o eixo familiar da sociedade”.

E repare, caro leitor, como é curioso que o autoritarismo costuma vestir a fantasia da tradição e quase nunca se apresenta como retrocesso. Prefere falar em valores, família, ordem ou moralidade. Ora, na obra de Atwood, Gilead também nasceu prometendo restaurar uma sociedade supostamente corrompida.

Talvez seja esse o aspecto mais assustador de O Conto da Aia, que nunca disse que uma ditadura teocrática surgiria de um dia para o outro, mas mostrou que sociedades livres podem abrir mão da liberdade aos poucos, normalizando discursos que atacam direitos fundamentais enquanto os apresentam como virtudes.

E não são as roupas vermelhas das aias nem as cerimônias horrendas que aproximam a ficção da realidade, mas sim naturalização da ideia de que mulheres existem para obedecer, servir e agradecer pela própria submissão. Margaret Atwood nunca escreveu uma profecia; escreveu um alerta. E o fato de esse alerta parecer cada vez menos absurdo revela muito menos sobre a imaginação da autora do que sobre o mundo que estamos construindo.