Desde que foi escolhido como o nome do bolsonarismo para disputar a presidência da República, no final do ano passado, há um pequeno, mas importante, detalhe que parece ter acendido o sinal amarelo para Flávio Bolsonaro.

O senador do PL não enfrenta sua maior dificuldade entre os evangélicos, onde sempre foi e segue competitivo e até lidera com folga em alguns levantamentos. O ponto de atenção do filho “01” de Bolsonaro está justamente entre os católicos, segmento que ainda demonstra uma forte inclinação por Lula da Silva, pré-candidato à reeleição.

O retrato mais recente do Datafolha, deste mês, aponta que cenário de segundo turno, Lula aparece com 53% das intenções de voto entre os católicos, contra 40% de Flávio Bolsonaro. Já entre os evangélicos, o cenário praticamente se inverte: o senador figura com 58% das intenções de voto, enquanto o petista registra 32%.

Os números, na verdade, não são surpresa pra ninguém. Isso porque, desde que foi criada, a direita bolsonarista investe pesado na aproximação com lideranças evangélicas. Aliás, ela nasceu nesse meio (Silas Malafaia que o diga).

A Marcha para Jesus, por exemplo, tornou-se um espaço frequente de demonstração de força política direitista, reunindo governadores, ministros, parlamentares e presidenciáveis. Neste ano, por exemplo, o evento em São Paulo contou com a presença de Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, André Mendonça (sim, o do STF) e Ricardo Nunes.

Enquanto isso, o diálogo com o universo católico segue devagar, quase parando. O contato com padres, movimentos religiosos e outras lideranças tradicionais do catolicismo, como bem se sabe, nunca ocupou o mesmo lugar estratégico do neopentecostalismo dentro do bolsonarismo. Novamente, os números das pesquisas corroboram essa realidade.

E não por acaso, ganhou força a possibilidade de Flávio disputar o Planalto com uma vice de perfil católico na chapa. O nome da deputada federal Simone Marquetto, ligada ao Frei Gilson, por exemplo, passou a circular como alternativa justamente por representar uma tentativa de ampliar (ou construir, melhor dizendo) pontes com os católicos.

E agora, Flávio Bolsonaro parece ter usado um dos mais antigos e tradicionais eventos católicos de Goiás para fazer um aceno aos adeptos da Igreja de Roma. Integrantes da equipe do senador fizeram questão de afirmar que sua participação na Romaria do Divino Pai Eterno, ocorrida na última sexta-feira, 26, foi exclusivamente de caráter espiritual, sem conotação política. Mas convenhamos: pelo timing político e a necessidade de aproximação com os católicos, é uma narrativa difícil de sustentar.

Leia-se: nenhum presidenciável monta uma agenda em um dos maiores eventos religiosos do país sem considerar seus efeitos eleitorais. A Romaria de Trindade reúne milhões de fiéis, recebe ampla cobertura da imprensa e conta com enorme simbolismo para o catolicismo brasileiro.

É preciso lembrar que a visita acontece também justamente quando Flávio tenta reorganizar sua pré-campanha após semanas turbulentas marcadas pelo desgaste provocado pela crise com a madrasta Michelle Bolsonaro e pelos reflexos do escândalo do Banco Master e os áudios de Daniel Vorcaro.

E a questão maior não é nem a participação do senador no evento católico, o que é bem-vindo (pelo menos para alguns). Por óbvio, em uma democracia, líderes públicos têm direito à fé e à manifestação religiosa como qualquer cidadão.

Porém, quando um pré-candidato nacional escolhe justamente um dos maiores eventos católicos do país para fazer uma aparição cuidadosamente planejada, em meio a uma estratégia de reposicionamento eleitoral, é quase inevitável a politização religiosa.

Aliás, foi exatamente esse processo que transformou a Marcha para Jesus em um espaço de demonstração de força da direita brasileira.

A Romaria do Divino Pai Eterno sempre preservou um perfil distinto, centrado na devoção popular e na tradição católica. Mas a presença de presidenciáveis em busca de aproximação com um eleitorado específico pode inaugurar um movimento semelhante.

Oremos.