Existem crises que, se bem manejadas, podem se transformar em verdadeiras vitórias para seus envolvidos. Isso exige habilidade para converter um infortúnio em oportunidade, algo que a política conhece como poucas áreas. Dependendo da forma como um mandatário responde a um ataque ou a um revés, o alvo pode rapidamente se transformar em vítima de uma injustiça percebida, invertendo a lógica da caça ao caçador, enquanto o agressor passa a ser execrado pela opinião pública. E isso pode estar ocorrendo, mais uma vez, com o presidente da República, Lula da Silva, pré-candidato à reeleição.

Nesta semana, após concluir a investigação conduzida com base na Seção 301, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) confirmou a imposição de uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A medida foi justificada pela suposta existência de “políticas e práticas brasileiras irrazoáveis” que onerariam ou restringiriam o comércio norte-americano.

Não bastasse isso, o órgão divulgou também outra análise que inclui o Brasil entre os alvos de uma investigação sobre o suposto uso de trabalho forçado. O processo envolve 59 países e a União Europeia e prevê uma tarifa adicional de 12,5%.

No caso brasileiro, um dos principais focos da investigação recaiu sobre práticas relacionadas aos serviços de pagamento eletrônico. Mas foi justamente aí que surgiu um elemento que, para bom entendedor, é capaz de alterar completamente a dimensão política do embate: o ataque americano ao Pix.

O Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central, tornou-se, em poucos anos, parte essencial da rotina dos brasileiros. Da compra de um cafezinho às transações de grandes empresas, a facilidade oferecida pelo sistema fez com que outras modalidades de pagamento e até mesmo o dinheiro em espécie se tornassem cada vez menos frequentes. A bem da verdade, os brasileiros não vivem mais sem essa praticidade e se orgulham muito disso.

Atacar o Pix, portanto, é quase uma declaração de guerra, um insulto a algo que se tornou um dos atuais símbolos do orgulho nacional.

O relatório da USTR, com mais de cem páginas, sustenta que o Brasil estaria prejudicando empresas americanas de meios de pagamento ao favorecer seu “campeão nacional”, no caso, o Pix. O documento também acusa o Banco Central de atuar simultaneamente como regulador e operador do sistema, criando um suposto conflito de interesses.

Segundo os americanos, a autoridade monetária teria adotado medidas que desfavorecem concorrentes estrangeiros ao exigir a participação de determinadas instituições financeiras no Pix e ao determinar destaque prioritário ao sistema nos aplicativos bancários.

Presidente da República, Lula da Silva, durante Anúncio à imprensa sobre a inauguração do Instituto Federal Goiano – Campus Catalão | Foto: Ricardo Stuckert / PR

A questão é que, ao colocar o Pix na mira de sua ofensiva comercial e, por que não, diplomática contra o Brasil, o laranjão Donald Trump pode ter cometido um erro estratégico grave: transformou uma discussão regulatória complexa em uma narrativa simples, ideológica e facilmente assimilável pelo cidadão comum.

Isso porque, enquanto Lula tem surfado na onda e obtido sucesso ao associar sua imagem à defesa do Pix e da soberania nacional, Flávio Bolsonaro, por sua vez, tem caído na desgraça de ser associado às recentes sanções impostas por Trump contra o Brasil.

Em Catalão, município goiano conhecido por ser reduto bolsonarista, Lula foi ovacionado ao exibir uma cartolina com os dizeres: “O Pix é do Brasil!”. Flávio, que é pré-candidato à presidência da República e tido como o principal rival de Lula, tentou fazer o mesmo e publicou uma foto com o cartaz: “O Pix é do Brasil e do Bolsonaro”, em uma resposta provocativa ao presidente.

De fato, o sistema de pagamento instantâneo foi implementado durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ainda assim, Flávio parece estar conseguindo, com notável eficiência, apagar essa associação da memória afetiva do brasileiro.

A proposta de impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros surgiu poucos dias depois de um encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump. Apesar de o senador, filho “01” de Bolsonaro, afirmar ter pedido que o republicano poupasse o Brasil de sanções comerciais, o Palácio do Planalto enxerga a medida sob a ótica de que a pressão americana tem motivação política e teria sido estimulada pelos esforços da família Bolsonaro para internacionalizar sua disputa com o governo Lula.

“Nós somos muito grandes, temos muita história. E nós não podemos aceitar o tratamento que os Estados Unidos deu ao Brasil nesta semana”, cravou o presidente brasileiro em reunião ministerial.

A própria foto divulgada por Trump, na qual ele e Flávio aparecem sorridentes em um encontro na Casa Branca, justamente durante a aplicação das novas sanções contra o Brasil, saiu como um tiro pela culatra para o senador bolsonarista. Se esperava transmitir prestígio e influência, pode ter acabado reforçando a imagem de alguém alinhado aos interesses de uma potência estrangeira em detrimento dos interesses nacionais.

Para o brasileiro médio, toda essa confusão pode soar de uma forma bastante simples, ainda que simplista: Lula está defendendo o Pix e os interesses nacionais contra os desmandos de Trump, enquanto Flávio Bolsonaro aparece associado a uma estratégia de pressão externa contra o próprio Brasil.

Donald Trump e Flávio Bolsonaro acabam insistindo, direta e indiretamente, em uma ofensiva que atinge diretamente símbolos de orgulho nacional e interesses econômicos brasileiros e, com isso, dão a Lula um presente eleitoral. Em vez de desgastar o presidente, a “dupla dinâmica” ajuda a fortalecê-lo na posição mais confortável para qualquer governante, a de defensor da soberania nacional diante de uma ameaça externa.

Era o que Lula queria, um vilão para chamar de seu. E conseguiu. Well done, Flávio.