Os 5 pontos cruciais que Flávio não conseguiu responder sobre o dinheiro de Vorcaro
14 maio 2026 às 22h00

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A entrevista do senador e pré-candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) à GloboNews, nesta quinta-feira, 14, pode ser lida como um banho de sangue. Em menos de 40 minutos, os jornalistas Octavio Guedes, Júlia Duailibi e Malu Gaspar encurralaram o filho “01” de Bolsonaro com questionamentos acerca de sua relação com o banqueiro criminoso Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que ele respondeu de forma distorcida ou simplesmente não conseguiu responder.
Em tempo: segundo revelado pelo site The Intercept Brasil, uma série de registros indicam a existência de uma negociação em que Daniel Vorcaro se comprometeu a repassar um total de 24 milhões de dólares (na ocasião, cerca de 134 milhões de reais) para financiar a produção de Dark Horse, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro. Os registros mostram ainda que 61 milhões de reais já teriam sido pagos.
O que falta responder? Ou melhor, o que Flávio não conseguiu responder?
1. Dinheiro de Vorcaro pode ter ficado com Eduardo Bolsonaro?
Malu Gaspar trouxe à tona as mensagens reveladas pelo The Intercept Brasil que mostram que recursos repassados por Vorcaro foram parar em um fundo nos EUA administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, que hoje mora no país. A jornalista questionou se o dinheiro, que teria como destino a produção do filme Dark Horse – que contará a história do ex-presidente Jair Bolsonaro – foi transferido para Eduardo. Flávio negou.
Malu apertou o senador e perguntou se, então, havia a possibilidade de parte do dinheiro ter ficado com a Heaven’s Gate, fundo gerido pelo advogado de Eduardo. “Não posso te afirmar isso, não participei do filme, da gestão do filme”, respondeu, ou melhor, deixou de responder Flávio.
Entre a afirmação categórica de que o irmão não recebeu o dinheiro, e a incerteza sobre o fundo gerido pelo advogado Paulo Calixto ter ficado com parte do montante (deixando de repassá-lo para o filme), paira um abismo de dubiedade.
2. Por que o dinheiro para o filme não foi direto para a produtora do filme?
Malu insistiu, de um lado, na questão do destino do dinheiro. De outro, Flávio insistiu que os recursos foram para o fundo nos EUA para a produção do filme. “Go Up e Mário Frias [produtor-executivo do filme] não fazem parte desse fundo?”, perguntou ela. “Que eu saiba, não”, respondeu ele.
Por que o dinheiro fez um caminho tão grande, em vez de ir direto para a empresa responsável pela produção? Foi o questionamento de Malu. “Por que o dinheiro precisou passar por ele [Paulo Calixto] para depois ir para a Go Up [produtora do filme]?”.
Flávio não conseguiu responder. “A minha participação nisso foi buscar investidores”, disse.
Válido destacar: tanto Mário Frias quanto a Go Up declararam “não haver um centavo” de Vorcaro no filme.
3. Por que negou que o filme tinha dinheiro de Vorcaro?
Octavio Guedes lembrou a Flávio Bolsonaro que, pouco antes de as conversas com Vorcaro virem à tona, ele foi questionado por um repórter do The Intercept Brasil do porquê de o filme sobre Bolsonaro ter recebido dinheiro de Vorcaro. Um vídeo divulgado pelo próprio Intercept mostra Flávio retrucando: “Mentira!”, enquanto chama o repórter de “militante”.
Mas na resposta a Guedes, Flávio disse: “Eu não falei que era mentira. Falei que tinha recurso privado”. Mas, sim. O senador disse que era mentira.
4. Qual o real retorno para Vorcaro com um investimento tão alto em um filme que tem a possibilidade de não faturar tanto?
Júlia Duailibi lembrou a Flávio que as investigações apontaram que todas as transações escusas de Vorcaro com políticos e outras figuras tinham sempre, na mesa, um tipo de favor que aquela pessoa poderia fazer ao banqueiro. No bom latim: não existe almoço grátis. Questionado pela jornalista o que Vorcaro ganharia com um investimento astronômico no filme, o senador disse que ele esperava retorno financeiro da bilheteria.
Vejamos: as duas maiores bilheterias do cinema nacional de todos os tempos foram, respectivamente, Minha Mãe é uma Peça 3, com o falecido (e talentoso) ator Paulo Gustavo, e Nada a Perder, que conta a história de Edir Macedo. O primeiro arrecadou R$ 138 milhões. O segundo, R$ 120 milhões. Esses filmes bateram recordes. Para um bom retorno financeiro com o investimento acordado de R$ 134 milhões, Dark Horse teria que bater mais um recorde. O que parece improvável – e Vorcaro, como um bom banqueiro, deve ter ciência disso. Como foi dito na entrevista, “é muito improvável que Vorcaro tenha interesse no cinema nacional”.
5. Por que mentiu sobre conhecer e manter contato com Vorcaro?
Os jornalistas da GloboNews lembraram a Flávio Bolsonaro que ele afirmou, por diversas vezes, que não conhecia e não havia tido, nem sua família, qualquer tipo de contato com Daniel Vorcaro. As negativas foram feitas paralelamente ao andamento do acordo secreto e milionário entre o senador e o banqueiro. Quando diálogos, que revelaram uma relação de amizade (“Meu irmão”, “estarei sempre contigo”), foram expostos, Flávio admitiu que existia o contato.
“Então o senhor mentiu?”, questionou Malu Gaspar. “Não menti, existia um contrato de confidencialidade”. “Mas a quem o senhor deve fidelidade, a Vorcaro ou ao eleitorado?”, insistiu a jornalista, que ainda perguntou: “O senhor assinou o contrato? Não pode divulgá-lo?”. Mas segundo Flávio, isso devia ser pedido a Paulo Calixto.
Ora, se a única função de Flávio era captar investidores e, como ele mesmo disse, não participou em nada da produção do filme, qual o seu envolvimento no contrato que trata dos custos da produção? Se ele aderiu ao silêncio da confidencialidade, então tem sua assinatura no contrato. Logo, por que diz não saber nada sobre a gestão do fundo, inclusive quais são seus componentes?



