Seu Vorcaro é pior que o meu: como o escândalo do Banco Master virou chumbo trocado entre PL e PT
20 junho 2026 às 21h00

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Senador eleito pela Bahia, apesar de ter o Rio de Janeiro como local de nascimento, Jaques Wagner tem uma trajetória na vida pública não muito diferente da do presidente da República, Lula da Silva. Na verdade, as semelhanças são muitas.
Tal qual Lula, Jaques foi perseguido pela Ditadura Militar, militou pelas causas sociais e atuou no movimento sindicalista. Aliás, foi o sindicalismo que uniu Lula e Jaques: o fluminense conheceu o pernambucano à época de seu trabalho à frente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Petroquímica, na Bahia.
O senador também foi essencial na fundação do Partido dos Trabalhadores. Se lançou na política, foi deputado federal, ministro e, finalmente, senador, sendo escolhido líder do governo no Senado. A ligação de Jaques Wagner com Lula da Silva é tamanha que, agora, ironicamente, o parlamentar, assim como experimentado pelo presidente do Brasil há alguns anos, se vê no centro de um escândalo por suspeita de corrupção.
A Polícia Federal (PF) investiga a suspeita de o líder do governo Lula ter recebido um apartamento avaliado em R$ 2,4 milhões em Salvador como pagamento de propina por parte do empresário Augusto Lima, que foi sócio do Banco Master. Aquele Master de Daniel Vorcaro.
O senador, inclusive, foi um dos alvos da mais recente fase da Operação Compliance Zero, que levou Vorcaro à prisão sob acusação de fraude financeira bilionária à frente do Banco Master.
E, segundo o jornal Estado de S. Paulo, mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e Fernando Mascarenhas Filho, diretor comercial da instituição financeira, em julho de 2024, citam Jaques Wagner como possível intermediário para o envio de um recado ao presidente da República. O que engrossa ainda mais o caldo já borbulhante do escândalo.
Em entrevistas à imprensa, Jaques Wagner nega categoricamente. O parlamentar diz jamais ter recebido dinheiro “de ninguém, muito menos do [Banco] Master ou do Augusto Lima” e que está “absolutamente tranquilo”.
Leia também: Os 5 pontos cruciais que Flávio não conseguiu responder sobre o dinheiro de Vorcaro
No entanto, a simples repercussão da suspeita pairando sobre Jaques já se transforma na munição perfeita para o bolsonarismo e para o próprio Flávio Bolsonaro, que é, hoje, o principal adversário de Lula para as eleições presidenciais.
Desde que o site The Intercept Brasil revelou registros e conversas que apontam para uma negociação em que Vorcaro teria se comprometido a repassar US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, para financiar “Dark Horse”, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro, Flávio tem sangrado em praça pública e agonizado para tentar se explicar.
Falamos aqui de um banqueiro investigado por um rombo monstruoso aparecendo associado ao financiamento de um filme da família Bolsonaro. Banqueiro esse, aliás, que Flávio jurava não conhecer e não ter o mínimo contato até a revelação dos áudios.
As pesquisas de intenção de voto realizadas após a revelação dos áudios cravaram o esperado: o escândalo pesou sobre a opinião pública e o filho de Jair Bolsonaro caiu consideravelmente nas previsões de voto. Mas agora, com o escândalo dando uma guinada na direção de um dos braços direitos de Lula, Flávio Bolsonaro deve deitar e rolar.
A expectativa é que Flávio use a questão envolvendo Jaques Wagner à exaustão na campanha eleitoral, obviamente tentando puxar Lula para o olho do furacão. A estratégia bolsonarista será fazer colar no senador petista a pecha de “corrupto” e sustentar que sua suposta ligação com o Master é muito mais grave do que a de Flávio e envolve o presidente da República.
Por óbvio, a máquina do entorno de Lula já trabalha a todo vapor para calcular os impactos e tentar reverter a situação. A insistência nos áudios e no claríssimo vínculo entre Flávio e Vorcaro deve continuar sendo o carro-chefe da coisa toda.
O ponto principal é que escândalos desse tipo raramente se resolvem só no campo dos fatos, mas sim no terreno da percepção. Mesmo que Jaques Wagner consiga desmontar as acusações, a imagem de um dos homens mais próximos de Lula aparecendo nas manchetes sendo associado ao Master já consolida um estrago político no mínimo difícil de ignorar.
Já para Flávio Bolsonaro, trata-se de uma oportunidade de ouro. Depois de muito tempo na defensiva por causa dos áudios envolvendo Vorcaro, o filho de Bolsonaro agora tem um argumento para dividir o desgaste e reposicionar o debate. Contudo, para a ele situação é ainda mais irreversível: não adiante negar e nem correr. Os áudios, documentos e declarações já estão impregnados no imaginário popular. Para Jaques Wagner pelo menos ainda cabe a dúvida.
De todo modo, à essa altura pouco importa quem está mais perto da fumaça. Até porque, o que interessa agora é garantir que o incêndio alcance o adversário também.



