Toda campanha presidencial precisa de um bom discurso, daqueles que tocam o eleitor, que falam com o coração. A pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL), porém, parece ter escolhido outro órgão como destino. Até aqui, o talento do filho de Bolsonaro aparentemente tem sido acertar os rins, e em vez de emocionar, gasta tempo e energia absorvendo pancadas e administrando danos.

Tão logo uma crise sai das manchetes, outra já trata de ocupar a vaga. É quase como uma cômica troca de turno. A mais recente atende pelo nome de Valdemar Costa Neto. O presidente do PL nacional é investigado pela Polícia Federal (PF) suspeito de ter comandado um esquema de indicação de emendas parlamentares que teria movimentado cerca de R$ 119 milhões.

Conforme a PF, deputados eram apresentados oficialmente como autores das indicações pra conferir aparência de legalidade ao que, na prática, teria sido decidido por Valdemar. Em tempo: a investigação está em curso e não há nenhuma condenação. Contudo, como bem se sabe, a política não espera trânsito em julgado pra produzir estragos.

O azar de Flávio, o filho “01” de Jair Bolsonaro,é que esse desgaste (mais um) cai em uma campanha que parece colecionar escândalos e com uma periodicidade intrigante. É quase como um calendário com crises no lugar dos feriados.

Antes de Valdemar, veio Michelle Bolsonaro. A intrigante Michelle Bolsonaro. A ex-primeira-dama decidiu tornar públicas suas mágoas e abriu uma fissura sem precedentes na direita bolsonarista ao acusar o enteado de tê-la humilhado e apunhalado. Isso, na mais alta cúpula do PL, algo que deixou de ser uma mera mexerico familiar que virou notícia.

Até porque, a esposa de Jair fala diretamente, e bem, com um eleitorado que nenhum candidato direitista pode desprezar: mulheres e evangélicos que hoje veem nela uma liderança que há tempos deixou de depender do sobrenome do marido pra existir politicamente.

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Um dos talentos de Michelle é, justamente, o de dizer as coisas mais duras e intragáveis com a sutileza de uma amiga oferecendo um conselho. Ela fala e é ouvida, e está claro e admitido pelos grandões do PL que o nome dela circula cada vez mais como alternativa caso o projeto de Flávio afunde de vez (e há quem diga que ela sabe de muita coisa que está por vir).

E como se não bastasse, há, ainda, um fantasma chamado Daniel Vorcaro. O episódio envolvendo a ligação de Flávio com o empresário do Banco Master pode até ter saído das manchetes de jornais, mas não sumiu da memória política.

Campanhas eleitorais, diga-se de passagem, têm uma curiosíssima habilidade de ressuscitar assuntos incômodos para o adversário, até porque alguns escândalos não envelhecem, só hibernam. Ou o caro leitor tem dúvidas de que na “hora certa” Lula e seu entorno trarão o caso Vorcaro com força máxima contra Flávio?

E no meio desse mar revolto de crises, Jair Bolsonaro,do “alto” de seu cárcere domiciliar, tratou de lançar uma boia ao filho. Neste sábado, 11, Flávio Bolsonaro leu, durante uma live nas redes sociais, uma carta na qual seu pai o apresenta como seu “porta-voz” e o credencia como pré-candidato ao Palácio do Planalto.

“O momento é de arregaçar as mangas e deixar de lado possíveis diferenças, e cada um se empenhar pelo nosso pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e empobrecimento”, diz na carta o ex-chefe do Executivo federal, que hoje cumpre pena por tentativa de golpe.

A carta, aqui, é um recado claro como a luz do dia. Num momento em que a pré-campanha de Flávio berra por socorro, Jair reafirma publicamente quem continua ocupando o posto de herdeiro preferencial do bolsonarismo.

Esse, por óbvio, é um jeito de conter especulações e pressões e lembrar aos aliados que, mesmo com as contínuas turbulências e o crescente protagonismo de Michelle, o plano A ainda é Flávio. Pelo menos por enquanto.