Opção cultural

Encontramos 5278 resultados
“Fábula indigesta”

Por mais lúdica e simples que seja, a história de “Okja” nos mostra a cruel verdade que está aí para todos verem, mas à qual muitos viram a cabeça [caption id="attachment_102498" align="alignleft" width="620"] Cena do filme "Okja" (2017)[/caption] O novo filme do diretor sul-coreano Bong Joon-ho, "Okja", começou a gerar alardes antes mesmo de estrear. E as polêmicas que carrega têm a ver, basicamente, com uma expressão, utilizada em dois contextos diferentes: "distribuição em massa". A primeira questão surgiu no Festival de Cannes desse ano, no qual a obra concorria à Palma de Ouro. "Okja" é uma produção da rede de streaming Netflix, uma plataforma virtual que distribui suas produções de forma direta. Até o ano passado, era impossível encontrar uma produção original Netflix num cinema perto de você. Os críticos em geral e, posteriormente, a própria organização do evento passaram a questionar se um filme que não tem distribuição regular estaria apto a concorrer. Afinal, como premiar uma obra que não foi exibida em nenhum cinema?   Dessa vez, passou batido. Quando a logo da Netflix apareceu, pela primeira vez na história, na tela de exibição do Grande Teatro Lumière do Palácio de Festivais, a plateia vaiou. Mas o filme de Bong Joon-ho foi exibido mesmo assim, e aplaudido ao final. Concorreu, mas não levou nada. De todo modo, levantar essa questão quanto à forma de distribuição de uma obra audiovisual serviu para questionar a própria essência dos filmes e a sua função social. Afinal, se uma obra não é amplamente distribuída e de acesso fácil a qualquer pessoa do mundo, qual a sua serventia? Para quê produzir, se não se vai exibir? A quem é conveniente elitizar o acesso à produção cinematográfica? Enfim, acertados ou não, questionamentos pipocaram para todos os lados. Esse tipo de polêmica não estava nos planos do diretor Joon-ho. Mas, sem dúvida nenhuma, foi um excelente marketing para outro tipo de questionamento - esse sim, pensado cuidadosamente por ele na trama do filme. A segunda polêmica envolvendo "distribuição em massa". "Okja" é o nome de um superporco. "Superporco" é um animal geneticamente modificado, com a forma aproximada de um hipopótamo. Sua carne é comestível, mas com sabor ainda desconhecido (um dos personagens brinca, a certo ponto: "vamos torcer para que seja gostoso".) E é a principal esperança de grana fácil para a "Mirando Corporation", uma espécie de Friboi mundial. O filme começa com uma propaganda didática da Mirando, na qual a CEO Nancy Mirando (interpretada pela sempre competente Tilda Swinton) explica para seus investidores, jornalistas e a nós, espectadores, a premissa básica do produto - e do filme. O mundo passa por uma crise na produção de alimentos. O futuro é incerto. Com base nisso, a espécie humana precisa se virar para continuar sobrevivendo. A esperança surge quando a Mirando, uma empresa ambientalmente comprometida (ra-ram) encontra por acaso (ra-raaaam) uma espécie nova na natureza: os superporcos. Nancy então assume seu lado Silvio Santos e esclarece que a Mirando conseguiu reproduzir em cativeiro a nova espécie, resultando em 26 novos filhotes. Tais espécimes foram distribuídas a fazendeiros ambientalmente comprometidos do mundo inteiro. A partir daí, como uma espécie de Presidente Alma Coin, de Jogos Vorazes, Nancy declara aberta a competição na busca do melhor superporco do mundo. O resultado seria conhecido depois de 10 anos. "Okja" é o nome que recebeu o superporco distribuído à Coreia do Sul, ao pai de Mija (interpretada pela ótima Ahn Seo-Hyun). Dez anos depois, quando a Mirando retorna para buscar o animal, Mija e Okja não querem mais desgrudar uma da outra. E a garota vai ter que lutar para não se separar da sua melhor amiga. A estória é contada em forma de fábula. O que pode, num primeiro instante, desagradar aos que buscam um filme mais sério, de questionamento social profundo. Mas não se apresse: Okja não é um filme para crianças. Tudo bem que o roteiro, no geral, lembre um típico filme da Sessão da Tarde, com saídas meio óbvias de roteiro e um ritmo bastante previsível. A jornada do herói, descrita por Joseph Campbell em "O herói de mil faces", está ali o tempo todo, cumprindo requisitos básicos que Syd Field impõe em seu manual de roteiro. Temos a protagonista destemida, a vilã caricata (só faltou ter um bordão), os camaleões, os pícaros, mentores. Jake Gyllenhaal surge num exagerado papel secundário, Steve Yeun parece reprisar seu papel de Glenn em "The Walking Dead", Paul Dano aparece sóbrio, consistente, interpretando o que pediram para ele interpretar. Giancarlo Esposito tira os óculos, mas ainda não teve oportunidade de mostrar mais do que o já conhecido Gus Fring, de "Breaking Bad". Está tudo lá, mais ou menos repetido. A ponto de antevermos o que vai acontecer no final. O formato de fábula, entretanto, adiciona um elemento interessante. Remonta aos filmes de Hayao Miyazaki e outros mestres da animação japonesa. Não por acaso, "Okja" lembra bastante Totoro, o mascote dos Estúdios Ghibli e símbolo da obra de Miyazaki (Tilda Swinton e Bong são fãs confessos). A trupe que acompanha Mija em sua jornada também lembra bastante equipes como a de Cowboy Bebop, Gantz, Yu Yu Hakusho, ou até mesmo a atuação desastrada da "Rocket Team" de Pokémon. Esse clima de anime permeia toda a obra, em momentos de tensão e de reflexão. E reveste o questionamento mais profundo da obra: o sistema de produção e distribuição de alimentos no mundo. Não à toa, Otto Von Bismarck teria dito que ninguém dormiria à noite se soubesse como são feitas as leis e as salsichas. O diretor Bong declarou que escolheu um porco como animal protagonista da trama porque achou que seria o mais comumente associado a comida. Pessoas comuns vêem bichinhos apenas de duas formas: estimação ou alimentação. E o porco seria o campeão em alimentação, com todo o seu bacon, pernil, presunto, salsichas, linguiças e tudo mais. Toda a saga de Mija por tentar salvar sua doce Okja da eliminação redunda na negação completa do cruel sistema de produção. E da impotência em enfrentá-lo. O sistema é triste, é indigno, frio, cruel. E necessário, ao mesmo tempo. A luta contra ele deve ser racional, equilibrada. A crítica bem-humorada à militância radical e desequilibrada, inclusive, é mostrada em vários trechos. Mas a realidade é pesada. Por mais lúdica e simples que seja a história, nos mostra a cruel verdade que está aí para todos verem, mas à qual muitos viram a cabeça. Os campos de produção agropecuários talvez sejam o mais próximo de campos de concentração que jamais conheceremos - as referências também são claras na tela. O próprio Bong Joon-ho virou pescetariano (alimenta-se só de vegetais e peixes) após a conclusão da obra. Não há final feliz. Não há como passar incólume por todos esses tipos de questionamento. E ainda que a saída oferecida pelo roteiro pareça ser a melhor para todo mundo, os próprios personagens não parecem aceitá-la muito bem. O que sobra é um melancólico sorriso de Mona Lisa. Uma pequena dica: não perca a cena pós-créditos. O recado que fica é que a militância não está morta, a luta não pode acabar. Pensemos, todos nós, no tipo de alimento que queremos em nossas mesas, e na forma como ele chega lá. Equilíbrio e racionalidade são a chave de tudo. Assista ao trailer oficial de "Okja": https://www.youtube.com/watch?v=rMQ-sruQ8aA    

Novo DVD de Zé Henrique e Gabriel mostra tudo o que a dupla já teve e ainda tem a oferecer

A dupla já teve composições gravadas por estrelas como Zezé Di Camargo e Luciano, Bruno e Marrone, Daniel, Rionegro e Solimões, e Rick e Renner

José Saramago e suas personagens

Principal verbete do dicionário que trata das criações do autor português é sobre Jesus Cristo

Livro de historiador inglês retrata cinquenta plantas que mudaram o rumo da história mundial

Escolha de Bill Laws foi relevante, pois contempla plantas de significativa importância para a humanidade. Claro que uma lista brasileira incluiria, certamente, o pau-brasil, a mandioca e a bananeira. Mas a lista de Laws é universal e precisa

Uma Defesa do “Nonsense”

É significativo que no maior dos poemas religiosos, o Livro de Jó, o argumento que convence o descrente não é uma imagem da benevolência ordenada da criação; é, pelo contrário, uma imagem da sua enorme e indecifrável sem-razão

Chorinho retorna no próximo dia 18 ao Grande Hotel

Cada dia terá 3 atrações. Confira programação do retorno

Canto da Primavera 2017 tem data definida. Confira!

Evento será realizado novamente em duas fases e terá 30 apresentações de artistas e grupos goianos 

Professor Airton Veloso, uma vida de Melodia

Duas pérolas negras que se foram nesta semana. Os amo, meus Ébanos! [caption id="attachment_101647" align="alignleft" width="620"] Airton Veloso e Marcelo Brice[/caption] Marcelo Brice Especial para o Jornal Opção Dois peregrinos sábios dos enganos se foram. Dois negros, lindos e maravilhosos nos deixam mais só na nossa pobreza. Eu resisti em escrever um texto em homenagem e despedida ao Professor Airton Veloso, e hoje quando acordo, outra pérola negra se foi. O lamento é inevitável. O luto não é só pela morte, é pelos descaminhos, pelos auspícios fugidios do nosso tempo. A morte é o inevitável, que ela chegue, que nos leve dignamente é o mínimo que se espera. O problema maior é o desamparo que se anuncia às voltas da gente. Há uma alegria em ter compartilhado o mundo com eles. Professor Airton Veloso faz parte do mapa mental da minha memória ativa e é parte da vida de muitos. Todos nós temos professores em volta, principalmente em função da escola, mas a minha situação é mais grave: meu pai é professor, minha mãe, meu irmão, minha avó, minha tia, Takesi (vizinho falecido, grande professor de matemática, amigo, pai de outros grandes amigos, figura exemplar, mas pelo pavor à matemática eu só o chamava pelo nome, não de professor), o professor Airton e tantos outros professores por perto. Aprendi a me dar com a lida da educação em casa, mas, como santo de casa não faz milagre, valorizamos muito o “nosso” quando olhamos pela janela. Minha janela dava na casa do Professor Airton. Essa janela foi ampla e canalizou uma infinidade de afetos e respeito. Eu nunca o chamei pelo nome, simplesmente. Ele era o “professor”. Foi professor de História do meu pai, Reinado Assis Pantaleão, o Panta, ainda em 1967, no Colégio Pedro Gomes. Pensa nisso! E moramos do lado um do outro, nossas famílias, já por 25 anos. Professor Airton não pôde completar o curso de Direito na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em função da perseguição política no primeiro momento do regime militar, o que foi agravado pelo preconceito racial; mineiro de Monte Carmelo, aprendeu ali a mediação com a espiritualidade; era um espírita, como no geral eles o são, sem a febre da conversão, nunca fez propaganda disso. Foi viver em Goiânia e foi ser professor de História, onde meu pai teve a sorte de topá-lo no caminho. Sabia de seu papel, negro, espírita e de esquerda. Ensinou muitos sobre a trajetória irregular, peculiar e opressora da história. Na ditadura militar qualquer vacilo era risco de vida. Ele sabia disso, participou da resistência e, embrenhado com os alunos, soube não cair. E contava histórias e histórias sobre meu pai, as reuniões no Bairro Popular (hoje Fama), em que eles por pouco não foram pegos. Esse cara foi professor de História da UFG, no antigo Colégio de Aplicação. Meu irmão foi aluno ali. Eu não o sabia em sala de aula, mas o tinha como “Professor”. Se interessava enormemente pela minha caminhada acadêmica. Me perguntava, contava histórias da época de seu mestrado, eu me sentia meio ridículo sendo doutor perto dele e de alguns outros. Somos famílias amigas. Nosso vizinho. Falávamos sobre as mudanças do Itatiaia. Me disse certa vez, num desses velórios da vida: “Marcelo, eu, Maria José, seu pai... só saímos do Itatiaia para cá”. Me deu um estalo, nesse mesmo velório, quando meu pai falava algo público em homenagem ao morto: “Seu pai diz que é ateu, pode até ser, mas no fundo ele é religioso, olha o sagrado pra ele...”. Depois que minha mãe faleceu, ele sempre dizia sobre e para minha irmã: “Ê Cejana... é difícil ser um cristal em meio a esses homens toscos, né?”. A gente ria. Mas era uma lição. Toda temporada de manga ele nos abastecia com as frutinhas. Gostava de cachorros, não muito de gatos. Como toda família de classe média em bairro da periferia da cidade, os irmãos brigavam escandalosamente, quando jovens. Nós três de cá e os quatro deles; mas ninguém nunca interferiu ou deixou de ser doce e apoiador um com outro. Isso é outra lição. Tudo regado pelo humor. Relações também tecidas pelo futebol de golzinho no fim de tarde, na rua. Professor Airton escreveu um livro sobre a história das linhagens da excêntrica e pacata Monte Carmelo (a foto é de quando ele me deu esse livro, lá em casa). Me comprometi a dar um exemplar a outro amigo da profundamente mineira Monte Carmelo. Ele me perguntava o que ele tinha achado, eu não sabia. Os dois espíritas que se comunicassem, eu pensava. Aposentado, varria a calçada. Isso era bom de ver e era um momento do dia que o encontro sempre rendia uma prosa. Antes, já findada a relação com a sala de aula, concluiu o curso de Direito e foi trabalhar em Brasília como assessor jurídico. E me dizia: “Seu pai tem que pedir indenização do Estado, eu pedi, porque fui impedido de seguir meu caminho, ele foi mais ativo naquele momento e não pede”. E eu: “É, Professor, ele não se sente bem, porque têm muitos caras, diferentes de vocês, que se aproveitam disso e que, pior, hoje são rapinas do Estado em sua atividade de puxa-saquismo dos poderosos”. Ele discordava do não pedido. E sempre íntegro e coerente, doce, e muito bem-humorado. Conversava semanalmente sobre política com meu pai e eu ouvia, palpitava. Uma vez, num almoço de domingo, impliquei com uma posição do meu pai, e ele, na mesa de casa, me repreendeu corretamente: “Marcelo, seu pai pode pensar como quiser. Não fique tentando consertar alguém mais velho”. Outra lição. Mas era só porque eu nunca os acho velhos. Eu os sinto próximos de mim, e eu, ainda, sou jovem. Numa ocasião da adolescência, aconteceu algo fundamental. O Itatiaia sofria com alguns assaltantes – nessa época só queriam levar alguma coisinha das casas e assustar todo mundo, hoje o perigo é muito maior, porque não são vizinhos do bairro, mas gangues dispostas a matar. Enfim, numa noite de fim de semana, um ladrão de pequena monta tentou pular numa casa vazia, mas errou o alvo e foi visto por outras pessoas que estavam na área. Logo, toda a vizinhança estava atenta, as crianças ouriçadas, os meninos achando que era uma batalha e, antes do desenlace, o encaminhamento foi a lição mais forte em meu peito. Meu pai gritou forte para o vizinho: “Mestre Airton, você tá vendo o rapaz aí tentando pular o muro, tá em cima do telhado?”. Professor Airton responde, em alto som: “Tô vendo só uma parte da perna, Panta...”. Meu pai: “Tô armado, mas não vejo, atira que tá na sua mira...”. E então o Professor Airton: “Vou atirar!”. Era o mais puro “caô”. Isso fez com que o ladrão, desesperado, saísse da moita, pulasse rapidamente para outra área, já povoada, e fosse preso sem levar risco para a comunidade das Ruas 18 e 17 da “República do Itatiaia”. Depois disso, eu e seu filho mais novo, o Vinícius, adolescentes, nos “preparávamos” para ser “seguranças” da rua, quando os dois viajavam para ministrar aulas por aí. Nota importante para os desavisados: não havia armas e somos contra a liberação delas – a política de pacificação social passa por outras questões. Essas lições e tantas outras lembranças me acompanharão. Os vínculos, o afeto, a relação prudente, de comunhão e respeito, nas diferenças e na ação me deixam o recado de alguma esperança. Precisamos nos encontrar pessoalmente, politicamente, na vivência, como encontramos o Professor Airton. Daí virá um mundo. Os bebês nascem, a vida se renova, mas estamos constantemente semeados, que seja por pessoas boas, que façam nossa saudade operar algo no presente, para o futuro. Esta semana, duas pérolas negras. Os amo, meus Ébanos! Marcelo Brice é doutor em Sociologia pela UFG e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).

Indicações preciosas de Marcos Fayad – Parte 2

Mais dois vídeos de Marcos Fayad no canal Indicador Cultural. Tem desde Tião Carreiro, Zequinha de Abreu, Carmem Miranda, Charlie Parker (tudo isso no primeiro vídeo, que trata de "Tico Tico no Fubá", o chorinho mais conhecido do mundo) até  os contos de autores como João Ubaldo Ribeiro, Rubem Fonseca, Sérgio Santana e Luís Fernando Veríssimo (tema do segundo vídeo)! A não perder! Clique e assista! https://www.youtube.com/watch?v=tGOrV8zwuEU https://www.youtube.com/watch?v=KqdbiN34tNE

Tradução de “The Rains Of Castamere”, de Game Of Thrones

Muito longe de uma tentativa de se igualar à composição original, que esta versão seja entendida como uma simples homenagem à série [caption id="attachment_101627" align="alignleft" width="620"] Brasão da Casa de Lannister, uma das famílias da série Game Of Thrones[/caption]   Pedro Mohallem Especial para o Jornal Opção THE RAINS OF CASTAMERE  And who are you, the proud lord said, that I must bow so low? Only a cat of a different coat, that's all the truth I know.  In a coat of gold or a coat of red, a lion still has claws, And mine are long and sharp, my lord, as long and sharp as yours.  And so he spoke, and so he spoke, that lord of Castamere, But now the rains weep o'er his hall, with no one there to hear.  Yes now the rains weep o'er his hall, and not a soul to hear. Desde que vi o Serj Tankian cantando "The Rains of Castamere" no The Forum, peguei um interesse enorme à letra da canção. Eu sempre gostei da melodia, mas foi lendo a letra que percebi que George R. R. Martin a compôs na forma tradicional das baladas inglesas: quartetos de tetrâmetros e trímetros alternados, predominantemente iâmbicos (sílaba breve seguida de sílaba longa), mas eventualmente trocaicos (longa + breve) e anapésticos (duas breves + longa), e com rima nos versos pares. Para o leitor menos íntimo da metrificação inglesa, digamos que os versos ímpares possuem oito sílabas poéticas, e os versos pares seis, e que essas sílabas se dividem em pares de breves (ou átonas) e longas (ou tônicas), soando em sequência mais ou menos nessa forma: tumTUM tumTUM tumTUM tumTUM, tumTUM tumTUM tumTUM (marcando bem a pausa depois do quarto tumTUM) A cada um desses “tumTUM” daremos o nome de pé. Logo, o que temos aí são versos de quatro pés (tetrâmetros) seguidos de versos de três pés (trímetros). Os pés métricos constituídos de uma sílaba breve seguida de uma sílaba longa são chamados de iambos. Tratam-se, portanto, de tetrâmetros e trímetros iâmbicos. A isso, acrescentem-se cá e lá algumas variações de ritmo, mas nada que altere bruscamente esse ritmo rascunhado acima. Vejamos como isso se faz explícito lendo as duas primeiras estrofes e grafando em negrito as sílabas fortes: And who | are you, | the proud | lord said, that I | must bow | so low? Only | a cat | of a di | fferent coat, that's all | the truth | I know. In a coat | of gold | or a coat | of red, a li | on still | has claws, And mine | are long | and sharp, | my lord, as long | and sharp | as yours. Resolvi tentar traduzir a canção, mantendo a forma original na medida do possível. Por capricho, acabei rimando os versos 1 e 5, 3 e 7 (por acaso, os versos 1 e 5 também rimam no original). Um desafio foi traduzir o trocadilho em "now the rains weep o'er his hall", em que "rains" soa idêntico a "Reynes". E não é por acaso: os que conhecem a história sabem que Reyne é a casa apossada do castelo de Castamere, massacrada pelos Lannister quando os primeiros tentaram sobrepujá-los. E desse episódio nasceu a canção, que se tornou um verdadeiro hino de uma das casas mais odiadas dos sete reinos. Para alcançar o duplo sentido, reproduzi o jogo de palavras em "porém" ("por Reyne"), muito menos sugestivo que o original, mas ainda assim detentor de algum vestígio paronomástico. E, muito longe de uma tentativa de se igualar à composição original, que esta versão seja entendida como uma simples homenagem à série. §§ CHUVAS DE CASTAMERE "E quem és tu, tão grande assim, que rés me prostrarei? Somente um gato de outra cor, é o quanto vejo e sei. Auricolor ou carmesim, leão ainda é leão: e minhas garras, meu senhor, tais como as tuas são." Assim falou, assim falou Senhor de Castamere; o céu, porém, pranteia só sem ter quem possa ouvir. Pranteia o céu em seus salões sem um que o possa ouvir. Pedro Mohallem é tradutor. Entre seus trabalhos de tradução está “Dicção Poética”, de Owen Barfield (Editora Caminhos, Goiânia. No prelo). *** Serj Tankian cantando "The Rains of Castamere": https://www.youtube.com/watch?v=r8Kipc2IRTA

“Conclave”, ou a Rebelião do Filho de Deus

HQ de Ademir Luiz é uma espécie marginal de romance de formação, e mais claramente um prenúncio de batalha. Está amarrado de forma a deixar a ação maior para depois das páginas, no fim dos dias

Queremos, de fato, preservar nossos bens culturais?

A consciência de preservação no Brasil nasceu tardiamente e com conceitos prematuros e mal definidos, justificados a partir da observação atrasada da definição e estabelecimento do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan)

A tragédia pedagógica da Base Nacional Curricular Comum

A BNCC é, pois, uma camisa de força que haverá de empobrecer a Nação, porque ostraciza inúmeras perspectivas humanas

“Death Note”: uma introdução ao abismo

Desde os pré-socráticos a tradição trágica tem esse pressentimento, antevisão do mau agouro lançado por Ryuk a Light: “As coisas não costumam acabar bem para os humanos que usam o Death Note [caption id="attachment_101381" align="alignleft" width="620"] "Death Note", série de mangá escrita por Tsugumi Ohba e ilustrada por Takeshi Obata[/caption] “The human whose name is written in this note shall die (o humano cujo nome for escrito neste caderno morrerá)”. Esta é a primeira instrução constante no Death Note, um caderno oriundo do mundo dos Shinigami, deuses da morte. O que você faria se páginas como estas caíssem em seu poder? Escreveria o nome de alguém? Tal foi o dilema apresentado a Light Yagami (ou Yagami Raito), um jovem prodígio japonês que por acaso encontrou o “caderno da morte”. Light decidiu usar a arma sobrenatural para criar um “novo mundo” livre de maldade e injustiça, um mundo onde existiriam apenas pessoas “boas e gentis”. Com esse ideal, logo nos primeiros dias o estudante já havia proferido folhas e folhas de penas capitais contra acusados de crimes repercutidos nos jornais em Kanto. Não que Light  fosse escolhido ou predestinado. Um Shinigami  chamado Ryuk (ou Ryuku), dono original do caderno, o deixara cair na Terra por pura diversão, simplesmente porque estava achando o mundo dos deuses sombrios meio parado, sem sentido. Por mais que matasse escrevendo nomes no Death Note, uma coisa Ryuk não conseguia matar: seu tédio. Yagami, por sua vez, o mais brilhante aluno do Japão, primeiro lugar nos exames admissionais para a prestigiosa Universidade de To-Oh, também estava entediado, sem desafios. Aqui ambos parecem cientes da shakespeariana gratuidade por trás de toda ação, seja humana ou divina, como se parafraseassem as famosas falas de Macbeth: “a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada”. O nada, o vazio. É dele que tudo surge, foi por senti-lo que Ryuk resolveu pregar sua peça e Light arriscar-se em um Juízo Final particular. Quando o jovem perguntou quais seriam as consequências pelo uso do Death Note, se lhe custaria a alma ou algo similar, o Shinigami desentendeu: “O que é alma? Mais alguma invenção de vocês humanos?”. Uma segunda instrução do caderno era: “All humans will, without exception, eventually die. After they die, the place they go is MU –nothingness (Todos os humanos vão, sem exceção, em algum momento morrer. Depois de morrerem, o lugar para onde vão é MU – o nada)”. O deus da morte indicara, assim, que não existia alma a ser perdida ou salva, tampouco Céu ou Inferno, e portanto nenhum julgamento divino sobre as ações terrenas. Por que havia então o mundo Shinigami, de onde escreviam nomes humanos em seus Death Notes? Pela mesma razão justificadora do nosso mundo: nenhuma. Deuses carrascos existiam porque existiam e ao seu alvedrio escreviam as sentenças, aleatoriamente. E de fato, a morte é justa, respeita algum padrão de merecimento? Canalhas e criminosos podem prosperar por 100 anos enquanto nada impede o adoecimento e o falecer de uma criança. O universo de Death Note não tem ordem moral preestabelecida, imanente, como o nosso parece não ter. Sob esse ponto de vista, Ryuk e os outros Shinigamis são deuses semelhantes aos dos gregos, que não encaravam a vida humana como algo a se julgar e redimir, mas não raro como um espetáculo com o qual brincavam e se entretinham. O Deus cristão é o próprio Logos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (...)/Todas as coisas foram feitas por ele (...)/Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens./E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreendem” (João 1, 1-5). A expressão grega logos se referia originariamente à palavra escrita ou falada, ao “verbo”, e filosoficamente foi ganhando a acepção de “razão”, de princípio organizador. Teologicamente, por fim, Logos passou a significar a Ordem do Cosmos. Quando o apóstolo João diz que “no princípio era o Verbo (ou o Logos)”, o Deus dos Evangelhos é revelado tanto como a fonte quanto como o princípio organizador de tudo o que existe e por isso não submetido a nenhuma conjuntura além de si mesmo. Já na Teogonia grega, escrita por Hesíodo, os deuses não criaram o Universo, mas surgiram a partir de suas estruturas. Mesmo ao mais antigo deus, Caos, é atribuído um “nascimento” e tal divindade, como o nome sugere, não é um princípio de criação racional. Por consequência, na mitologia grega tanto os homens quanto os deuses estão submetidos a conjunturas naturais e cosmológicas que não controlam, ou seja, estão presos ao Destino. Esse também parece ser o caso do macabro deus Ryuk, pois embora seja o proprietário natural do Death Note, não pode criar regras de funcionamento para o caderno, nem modificá-las. E como Shinigami, lhe é vedado estender o tempo vital de seres humanos, sob pena de desintegrar-se em areia, desaparecendo para sempre. Essa própria constituição arenosa dos Shinigami aponta que nasceram a partir dos elementos do seu mundo, um escuro deserto. A imemorial consciência desse fatalismo talvez seja o que inspirou Ryuk em sua única advertência a Light: “Você sentirá o medo e a dor que só os humanos portadores do Death Note conhecem”. O ímpeto do jovem prodígio Yagami não se abalou com o vaticínio. Ao contrário, cresceu na determinação de criar um “novo mundo”. Se Ivan Karamázov concluiu que, sem Deus, “tudo é permitido”; Light Yagami foi mais longe ao imaginar que, sendo Deus, tudo é permitido. Afinal, se não existia alma, Céu, Inferno, nem punição sobrenatural alguma, quem poderia impedi-lo de dizer o que é o “bem” e o que é o “mal”, passando seus julgamentos com o poder do Death Note? A advertência de Ryuk escondia, no entanto, profundidade. A falta de ordem moral e racional intencionalmente preestabelecida na disposição das coisas do mundo não significa que nestas inexista uma natureza e um funcionamento assentados, que podem tragar quem desafie seu curso. Light preocupou-se apenas se um Deus o julgaria pelos pecados, mas o Shinigami sabia que mesmo um Cosmos sem esse Deus é maior do que os indivíduos e os destrói quando atentam contra o equilíbrio de seus papéis no Destino, para voltarmos à teogonia e à mitologia gregas. Desde os pré-socráticos a tradição trágica tem esse pressentimento, antevisão do mau agouro lançado por Ryuk a Light: “As coisas não costumam acabar bem para os humanos que usam o Death Note”. (continua)