Uma Defesa do “Nonsense”

É significativo que no maior dos poemas religiosos, o Livro de Jó, o argumento que convence o descrente não é uma imagem da benevolência ordenada da criação; é, pelo contrário, uma imagem da sua enorme e indecifrável sem-razão

O inglês G. K. Chesterton foi um dos principais escritores da primeira metade do século XX | Foto: Reprodução

G. K. Chesterton*
Tradução de “A Defence of Nonsense”, do livro “The Defendant”, publicado em 1901

Há duas maneiras iguais e eternas de olharmos para este nosso mundo crepuscular: podemos vê-lo como o crepúsculo do entardecer ou como o crepúsculo da manhã; podemos pensar em qualquer coisa, mesmo numa bolota caída, como um descendente ou um ancestral. Há momentos em que somos quase esmagados, não tanto pelo mal da humanidade mas pelo seu bem, em que sentimos que não somos senão os herdeiros de um humilhante esplendor. Mas outros momentos há em que tudo parece primitivo, em que as velhas estrelas são apenas fagulhas de uma fogueira de criança, em que a Terra inteira parece tão jovem e experimental que mesmo os cabelos brancos de um ancião, na bela frase da Bíblia, são como amendoeiras que florescem, como o branco espinheiro crescido em maio. Que é bom para um homem perceber que é ‘o herdeiro de todas as eras’ é algo co­mu­mente admitido; menos popular, mas igualmente importante, é que às ve­zes é bom para ele perceber que é não apenas um ancestral, mas um an­cestral de antigüidade primeva; é bom que ele se pergunte se acaso não é um he­rói, e que experimente dúvidas nobilitantes sobre a possibilidade de ser um mito solar.

As coisas que evocam mais plenamente esse sentimento da infância duradoura do mundo são aquelas realmente novas, abruptas e inventivas em todas as épocas; e, se nos perguntassem qual a melhor evidência dessa juventude aventurosa no século dezenove, diríamos, com todo o respeito pelas suas portentosas ciências e filosofias, que ela se encontra nas rimas so Sr. Edward Lear e na literatura do nonsense. Pelo menos ‘The Dong with the Luminous Nose’ é original, assim como foram originais o primeiro barco e o primeiro arado.

É verdade que, num certo sentido, alguns dos maiores escritores que o mundo conheceu — Aristófanes, Rabelais e Sterne — escreveram nonsense; mas, a me­nos que estejamos enganados, foi num sentido muito diferente. O nonsense desses homens era satírico — isto é, simbólico; era uma espécie de cabriolar exuberante em redor de uma verdade descoberta. Há toda a diferença do mundo en­tre o instinto da sátira — que, vendo no bigode do Kaiser algo típico dele, se pôe a ampliá-lo mais e mais — e o instinto do nonsense — que, sem nenhuma razão, imagina como ficaria esse bigode no atual Arcebispo da Cantuária, se este o deixasse crescer num acesso de distração. Inclinamo-nos a pensar que nenhuma outra época poderia ter percebido que Quangle-Wangle não significa absolutamente nada, e que a terra dos Jumblies não fica em lugar ne­nhum. Imaginamos que, se o relato do julgamento do valete em ‘Alice no País das Maravilhas’ tivesse sido publicado no século dezessete, teria sido associado a ‘O Julgamento dos Fiéis’, de Bun­yan, como paródia das perseguições do Es­tado da época. Imaginamos que, caso ‘The Dong with the Luminous No­se’ tivesse aparecido no mesmo pe­ríodo, todos o teriam considerado uma sátira enfadonha a Oliver Cromwell.

É com pleno conhecimento de causa que citamos prin­cipalmente as ‘Nonsense Rhymes’ do Sr. Edward Lear. A nosso juízo ele é, tanto cronologicamente como em essência, o pai do nonsense; consideramo-lo superior a Lewis Carroll. Num certo sentido, Lewis Carroll tem de­certo uma grande vantagem. Sabemos o que ele era na vida quotidiana: um cavalheiro sério e universalmente respeitado, mas com algo de pedante e de filisteu. De modo que a sua estranha vida dupla no mundo real e no país dos sonhos acentua a idéia que subjaz ao nonsense — a idéia de evasão, de fuga para um mundo onde as coisas não estão horrivelmente fixadas numa eterna adequação, onde maçãs crescem em pereiras e qualquer homem estranho que encontremos pode possuir três pernas. Lewis Carroll, vivendo uma vida em que teria fulminado moralmente quem quer que pisasse na parte errada do gramado, e outra vida em que diria alegremente que o sol é verde e a lua azul, foi, por sua própria natureza dividida, por ter um pé em ambos os mundos, o perfeito representante da atitude do nonsense moderno. O seu País das Maravilhas é povoado por matemáticos insanos. Sentimos que tudo aquilo é uma evasão para um mundo de mascarada; sentimos que, se pudéssemos penetrar os seus disfarces, talvez descobríssemos que Humpty Dum­pty e a Lebre de Março são professores e doutores da Di­vinity gozando de férias mentais. Esse sentido de evasão é certamente menos acentuado em Edward Lear, devido à sua cidadania integral no mundo da sem-razão. Não conhecemos a sua biografia prosaica como conhecemos a de Lewis Carroll. Aceitamo-lo como uma figura puramente fabulosa, com base na sua própria descrição de si:

‘Seu corpo é perfeitamente esférico, ele usa um chapéu-colher*’

Enquanto o País das Maravilhas de Lewis Carroll é pu­ramente intelectual, Lear introduz um elementro completamente distinto — o elemento poético e mesmo emocional. Carroll opera com a pura razão, mas isto não é tão estranho assim, pois afinal a humanidade, no essencial, tem sempre considerado a razão uma espécie de piada. Lear introduz as suas palavras sem sentido e as suas criaturas amorfas não com as pompas da razão, mas com o prelúdio romântico de ricas tonalidades e ritmos obsessivos.

‘Remotas e raras, remotas e raras, são as terras onde vivem os Jumblies’

Isto é uma poesia de tipo completamente diferente, quando comparada a ‘Jabberwocky’. Carroll, com um sentido de ordem matemático, faz de todo o seu poema um mosaico de novas e misteriosas palavras. Mas Edward Lear, com uma audácia mais plácida e sutil, está sempre introduzindo fragmentos do seu próprio dialeto élfico no meio de afirmações simples e racionais, até que, atordoados, somos quase levados a admitir que sabemos o que significam. Há, em linhas como estas:

‘Pois sua tia Jobiska dizia “todos sabem que um Pobble** é melhor sem os dedos dos pés,”‘

Um simpático toque de senso comum que está fora do alcance de Carroll. O poeta está tão à vontade com o assunto que somos quase levados a acreditar que vemos o que ele está dizendo, que conhecemos as dificuldades peculiares de um Pobble, que também nós somos velhos viajantes na ‘Planície Grombooliana’.

A nossa afirmação de que o nonsense é uma nova li­te­ratura (quase poderíamos dizer um novo senso) seria totalmente indefensável se o nonsense não fosse mais que uma mera fantasia estética. Nada de sublimemente artístico surgiu jamais da mera arte, assim como nada de essencialmente racional surgiu da pura razão. Sempre tem de haver um rico solo moral para qualquer grande germinação estética. O princípio da arte pela arte é um excelente princípio, se significa que existe uma distinção vital entre a terra e a árvore que tem nela as suas raízes; mas é um péssimo princípio, se significa que a árvore poderia crescer do mesmo modo com as raízes no ar. Toda grande literatura tem sido sempre alegórica — alegórica a respeito de alguma visão integral do universo. A ‘Ilíada’ só é grande porque toda vida é uma batalha; a ‘Odisséia’, porque toda vida é uma viagem; o Livro de Jó, porque toda vida é um enigma. Há uma atitude que nos leva a pensar que toda a existência está condensada na palavra ‘fantasmas’; segundo outra atidude, talvez melhor, ela está toda condensada na expressão ‘Sonhos de uma Noite de Verão’. Mesmo o mais vulgar melodrama ou romance policial pode ser bom, se exprime algo do nosso deleite nas mais sinistras possibilidades — o saudável desejo de trevas e terror, que nos pode vir em qualquer noite ao caminharmos por uma viela escura. Portanto, se o nonsense deve ser a literatura do futuro, ele tem de oferecer a sua própria versão do cosmos; o mundo deve ser não apenas trágico, romântico e religioso, mas também um nonsense. E julgamos que o nonsense irá, de um modo bastante inesperado, vir em auxílio da visão espiritual das coisas. A religião tem por séculos tentado fazer os homens exultarem com as ‘maravilhas’ da criação, mas tem esquecido que esta não pode ser tão maravilhosa se permanece no plano das coisas sensíveis. Enquanto consideramos uma árvore uma coisa óbvia, criada natural e razoavelmente para alimentar uma girafa, não podemos maravilhar-nos apropriadamente com ela. É quando a consideramos uma onda prodigiosa do solo vivente, estendendo-se para os céus sem nenhuma razão em particular, que lhe tiramos o chapéu, para espanto do guarda florestal. Todas as coisas têm de fato um outro lado, como a lua, a padroeira do nonsense. Vistos desse outro lado, um pássaro é uma flor desprendida da haste, um homem é um quadrúpede sobre as patas traseiras, uma casa é um gigantesco chapéu para proteger o homem do sol, uma cadeira é um aparato de quatro pernas de madeira para um inválido que tem apenas duas.

Este é o lado das coisas que mais verdadeiramente tende ao maravilhamento espiritual. É significativo que no maior dos poemas religiosos, o Livro de Jó, o argumento que convence o descrente não é (como foi alegado pela religiosidade meramente racional do século dezoito) uma imagem da benevolência ordenada da criação; é, pelo contrário, uma imagem da sua enorme e indecifrável sem-razão. ‘Mandaste chuva para o deserto em que não há homem?’ Este sentimento simples de maravilha ante as formas das coisas, e ante a sua exuberante independência em relação aos nossos padrões intelectuais e às nossas triviais definições, é a base da espiritualidade, assim como a base do nonsense. Nonsense e fé (por mais estranha que possa parecer a conjunção) são as duas supremas afirmações simbólicas da verdade de que é tão impossível extrair a alma das coisas com um silogismo quanto pescar o Leviatã com um anzol. O sujeito bem intencionado que, pelo mero estudo do lado lógico das coisas, concluiu que ‘fé é nonsense’, não imagina como está certo; mais tarde pode vir a ocorrer-lhe que nonsense é fé.

* Tradução de Demian Gonçalves Silva

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