Tradução de “The Rains Of Castamere”, de Game Of Thrones

Muito longe de uma tentativa de se igualar à composição original, que esta versão seja entendida como uma simples homenagem à série

Brasão da Casa de Lannister, uma das famílias da série Game Of Thrones

 

Pedro Mohallem
Especial para o Jornal Opção

THE RAINS OF CASTAMERE

 And who are you, the proud lord said,
that I must bow so low?
Only a cat of a different coat,
that’s all the truth I know.

 In a coat of gold or a coat of red,
a lion still has claws,
And mine are long and sharp, my lord,
as long and sharp as yours. 

And so he spoke, and so he spoke,
that lord of Castamere,
But now the rains weep o’er his hall,
with no one there to hear.

 Yes now the rains weep o’er his hall,
and not a soul to hear.

Desde que vi o Serj Tankian cantando “The Rains of Castamere” no The Forum, peguei um interesse enorme à letra da canção. Eu sempre gostei da melodia, mas foi lendo a letra que percebi que George R. R. Martin a compôs na forma tradicional das baladas inglesas: quartetos de tetrâmetros e trímetros alternados, predominantemente iâmbicos (sílaba breve seguida de sílaba longa), mas eventualmente trocaicos (longa + breve) e anapésticos (duas breves + longa), e com rima nos versos pares.

Para o leitor menos íntimo da metrificação inglesa, digamos que os versos ímpares possuem oito sílabas poéticas, e os versos pares seis, e que essas sílabas se dividem em pares de breves (ou átonas) e longas (ou tônicas), soando em sequência mais ou menos nessa forma: tumTUM tumTUM tumTUM tumTUM, tumTUM tumTUM tumTUM (marcando bem a pausa depois do quarto tumTUM) A cada um desses “tumTUM” daremos o nome de pé. Logo, o que temos aí são versos de quatro pés (tetrâmetros) seguidos de versos de três pés (trímetros). Os pés métricos constituídos de uma sílaba breve seguida de uma sílaba longa são chamados de iambos. Tratam-se, portanto, de tetrâmetros e trímetros iâmbicos. A isso, acrescentem-se cá e lá algumas variações de ritmo, mas nada que altere bruscamente esse ritmo rascunhado acima. Vejamos como isso se faz explícito lendo as duas primeiras estrofes e grafando em negrito as sílabas fortes:

And who | are you, | the proud | lord said,
that I | must bow | so low?
Only | a cat | of a di | fferent coat,
that’s all | the truth | I know.

In a coat | of gold | or a coat | of red,
a li | on still | has claws,
And mine | are long | and sharp, | my lord,
as long | and sharp | as yours.

Resolvi tentar traduzir a canção, mantendo a forma original na medida do possível. Por capricho, acabei rimando os versos 1 e 5, 3 e 7 (por acaso, os versos 1 e 5 também rimam no original).

Um desafio foi traduzir o trocadilho em “now the rains weep o’er his hall”, em que “rains” soa idêntico a “Reynes”. E não é por acaso: os que conhecem a história sabem que Reyne é a casa apossada do castelo de Castamere, massacrada pelos Lannister quando os primeiros tentaram sobrepujá-los. E desse episódio nasceu a canção, que se tornou um verdadeiro hino de uma das casas mais odiadas dos sete reinos. Para alcançar o duplo sentido, reproduzi o jogo de palavras em “porém” (“por Reyne”), muito menos sugestivo que o original, mas ainda assim detentor de algum vestígio paronomástico. E, muito longe de uma tentativa de se igualar à composição original, que esta versão seja entendida como uma simples homenagem à série.

§§

CHUVAS DE CASTAMERE

“E quem és tu, tão grande assim,
que rés me prostrarei?
Somente um gato de outra cor,
é o quanto vejo e sei.

Auricolor ou carmesim,
leão ainda é leão:
e minhas garras, meu senhor,
tais como as tuas são.”

Assim falou, assim falou
Senhor de Castamere;
o céu, porém, pranteia só
sem ter quem possa ouvir.

Pranteia o céu em seus salões
sem um que o possa ouvir.

Pedro Mohallem é tradutor. Entre seus trabalhos de tradução está “Dicção Poética”, de Owen Barfield (Editora Caminhos, Goiânia. No prelo).

***

Serj Tankian cantando “The Rains of Castamere”:

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.