Bastidores
Em Brasília, cidade da esperança, segundo André Malraux, se diz que Dilma Rousseff é ex-presidente e Michel Temer é presidente. É a tal história de rei morto, rei posto. Os políticos, que sentem o “cheiro adocicado” da decadência, buscam logo onde pode ser encontrada a elegância, ou relativa elegância.
Por que o deputado federal Alexandre Baldy trocou o PSDB pelo PTN? Há várias respostas possíveis. Primeiro, estaria insatisfeito com o governador de Goiás, Marconi Perillo, que, no lugar de abrir, estaria lhe fechando espaços. Segundo, a cúpula do PSDB não lhe deixou disputar a Prefeitura de Anápolis. Terceiro, queria um partido para chamar de seu? Quarto, buscava novos ares, mais libertários e menos controláveis pelas cúpulas? Verdade? Tudo falso. Não marque nenhuma das alternativas como correta. O próprio Alexandre Baldy confidenciou a um deputado federal que o tucano-chefe abriu-lhe espaços generosos — como convidá-lo, quando era um “famoso desconhecido”, para ser secretário de Indústria e Comércio e, depois, incentivou-o a disputar mandato de deputado federal. Em Brasília, apresentou-o à cúpula do partido, que nunca tinha ouvido falar no seu nome. Quanto à disputa em Anápolis, o deputado federal frisa que só não disputou a prefeitura pelo PSDB porque não quis, sobretudo porque estava e está empolgado com o mandato de deputado federal. Então, perguntaria Alfred Hitchcock, o que aconteceu de fato? Alexandre Baldy contou para mais de um interlocutor que seu problema com o PSDB não era em Goiás, e sim em Brasília — com o senador Aécio Neves, presidente do partido. Na CPI do BNDES, quando o parlamentar goiano queria pôr fogo no circo, revelando as falcatruas do banco, Aécio Neves estava sempre pedindo moderação. Quer dizer, não se comportou como líder de partido, e sim como defensor de interesses que não se sabe exatamente quais.
Parlamentares que têm conversado com o ex-presidente Lula da Silva têm percebido que seu grau de irritação é muito maior com os “desarranjos” — cautos e incautos às vezes usam o termo “malfeitos” — do governo da presidente Dilma Rousseff, sobretudo com a própria petista, do que com as oposições. Na opinião de Lula da Silva, na versão de seus interlocutores, as oposições estão aí para criticar, para aproveitar as brechas e falhas de quem está no poder. Porém, quando a Dilma Rousseff, teria cometido erros primário, como não segurar a própria base política e perdê-la em questão segundos, horas, dias ou meses.
O deputado estadual Luis Cesar Bueno, do PT, sublinha que, em Brasília, tudo é possível — inclusive o impeachment não passar. Quando se trata do Congresso Nacional, a multiplicidade de interesses dos parlamentares, tudo é possível e, por vezes, impossível.
De um deputado estadual: em Goianésia estuda-se a possibilidade de o PSDB lançar José Mateus para prefeito e o PMDB lançar Mara Naves para vice. É o primeiro prenúncio da aliança nacional que se esboça entre os dois partidos. Mateus & Mara é quase nome de dupla sertaneja. Tucanos e peemedebistas mantêm uma relação civilizada em Goianésia. Mas há quem aposte que o PMDB vai bancar Renato de Castro ou Gilberto Naves para prefeito do município. O segundo garante, de maneira peremptória, que prefere continuar advogando.
A deputada estadual Eliane Pinheiro, do PMN, frisa que os eleitores “estão apreciando o discurso consistente e equilibrado de Giuseppe Vecci”. Eliane Pinheiro diz que o estilo franco e direto, sempre posicionado, nunca deixando nada sem responder, tem agradado dos eleitores ricos aos de classe média e pobres. “É impressionante como Giuseppe agrada todas as classes sociais, sem nenhuma distinção. Ele varia o discurso, tornando-o mais palatável, mas, a rigor, expõe suas ideias com firmeza, sem populismo.”
O vereador Tayrone di Martino fez as malas para mudar-se da Câmara Municipal de Goiânia para o governo de Goiás. Falta apenas definir o cargo. Tucanos de alta plumagem dizem que Tayrone di Martino é articulado e faz política pelo menos em duas cidades: Goiânia e Trindade. É um político de “dois mundos”. Mais: mantém forte ligação com a Igreja Católica, notadamente com o padre Robson, um dos religiosos mais influentes de Goiás.
Candidato a prefeito, Carlão Alberto Oliveira está visitando todas as casas de Goianira. Ele quer saber o que as pessoas pensam de fato, sem a mediação pura e simples de pesquisas. No contato pessoal, o ex-prefeito Carlão percebe que os eleitores têm ideias precisas sobre o que querem para a cidade.
Comenta-se que o chefão do PDT, Carlos Lupi, dialoga muito bem com a presidente Dilma Rousseff e com o quase-presidente Michel Temer. Carlos Lupi ameaça expulsar qualquer deputado do partido que votar pelo impeachment. Porém, como teme perder deputados, há quem aposte que pode ter conversado com Michel Temer e, na hora agá, não expulse ninguém. No máximo, daria uma advertência. Perder deputados federais — “por quase nada”, no dizer de um deputado — não é um bom negócio para nenhum partido. Por isso, se a deputada Flávia Morais votar pelo impeachment — na semana passada, saiu de uma reunião chorando —, atendendo aos reclames de seus eleitores, a tendência é que seja advertida e mantida no PDT.
O PSDB vai bancar Vilson Santos para prefeito de Jussara. Ele tem o apoio do deputado estadual Virmondes Cruvinel e da tucana Maria Amélia, mulher do conselheiro do TCM Joaquim de Castro. Ex-vice-prefeito e ex-vereador, Vilson Santos é apontado como um político articulado e popular. Pressionada pelo deputado estadual Cláudio Meirelles, a prefeita Tatiana Ranna, do PTC, deve disputar a reeleição. Desgastada e mal avaliada pela população, Tatiana estaria desistindo de concorrer, mas, como é muito ligada ao parlamentar, teria recolocado seu nome no páreo. Mas há quem acredite que, adiante, banque outro nome.
Os cargos do governo federal em Goiás serão ocupados por peemedebistas, tucanos, republicanos, pepistas e petebistas — se a presidente Dilma Rousseff sofrer impeachment e Michel Temer assumir a Presidência. O PMDB quer ficar com os cargos estratégicos. O problema é que o partido só tem dois deputados federais e nenhum senador. A tendência é o PSDB e sua base política saírem fortalecidos.
Danilo Rios, do PR, e Luizão Antônio Rodrigues, do PSB, devem disputar a Prefeitura de Aragoiânia. A duplicação da principal via de acesso a Aragoiânia e a refundação do município como cidade-universitária são bandeiras de Danilo Rios. O candidato quer, agora, ampliar seu quadro de alianças políticas. Por ter sido prefeito, Luizão Antônio é mais conhecido e é apontado como favorito. Mas tem processo na esfera federal — é acusado de improbidade administrativa (na sua gestão desapareceu um gerador de energia elétrica) — e, ficar caracterizado que é ficha suja, não poderá disputar a reeleição em 2 de outubro deste ano.
Flávia Morais consultou vários advogados na semana passada. A lei é interpretada de várias maneiras. Mas a deputada federal concluiu que, se for expulsa do PDT — no caso de votar pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, contrariando a orientação da cúpula do partido —, não poderá disputar a Prefeitura de Trindade na eleição de 2 de outubro. Não dá mais tempo de ser transferir de partido para o próximo pleito. Aliados chegaram a sugerir que deve correr o risco. Até porque, se Dilma Rousseff sofrer o impeachment — a votação de domingo é uma preliminar da decisão do Senado —, Carlos Lupi, o poderoso chefão do PDT, não terá mais condições morais de expulsar deputado. O mais crível é que, se Michel Temer assumir a Presidência da República, Carlos Lupi passe a frequentar o Palácio Planalto e a lutar por um ministério — como se nada tivesse acontecido.
O deputado federal Alexandre Baldy tem sido elogiado por Michel Temer e Eduardo Cunha como uma articulador de primeira linha. Numa roda de aliados, Temer teria dito, em virtude da juventude do presidente do PTN em Goiás: “É o mascote do impeachment”.
Incansável na articulação, sugerindo que nasceu para fazer política e não cuidar de negócios, Alexandre Baldy trabalhou em tempo integral para convencer o Pros, dirigido pelo goiano Eurípedes Júnior, a apoiar o impeachment.
Alexandre Baldy mostrou dados e sugeriu que o nome do futuro é Michel Temer e que o nome do passado é Dilma Rousseff. Convencido, Eurípedes Júnior desembarcou do governo federal e declarou apoio ao impeachment da petista.
Goianos que visitaram Palácio do Jaburu, na semana passada, chegaram a perguntar, em tom jocoso: “É a festa de Trindade, a romaria começa aqui?” Ante um Michel Temer atônico, os políticos, sobretudo Sandro Mabel, esclareceram do que se tratava. Aí o vice-presidente da República riu com vontade. A cerimônia do beija-mão, no Palácio do Jaburu, impressiona. Consta que até um petista apareceu por lá, meio desconfiado. Já no Palácio do Planalto e no Palácio Alvorada, o clima é de velório. A presidente Dilma Rousseff anda cabisbaixa. Ela, que não é corrupta, em termos financeiros, lamenta ter de deixar o governo com a imagem negativa, mas avalia que a história lhe fará justiça.

