Por Euler de França Belém
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Foto: Vanor Correia/ GERJ[/caption]
Eu dizia a amigos, de brincadeira: a Barbara Heliodora — sem acento no primeiro “a” do prenome — não morre, é eterna. Aos que perguntavam se estava falando sério, eu acrescentava: “Claro, note que, com mais de 80 anos, continua escrevendo e traduzindo. Não vai morrer. Não pode morrer. É o ponto de contato de Shakespeare — e sem a fajutice da psicografia — com o Brasil”. Pois é: eu estava brincando — todos morrem, inclusive Roberto Marinho, Barbara Heliodora, Bertrand Russell e, quem sabe, José Sarney. Barbara Heliodora morreu na sexta-feira, 10, aos 91 anos, no Rio de Janeiro.
Mas alguns se tornam mesmo eternos, inscrevendo seus nomes na história — ao menos na história cultural — da humanidade. Quem era o prefeito de Paris no tempo de Gustave Flaubert? Nem os franceses sabem. Mas quem não sabe que Flaubert é autor de dois romances magistrais, “Madame Bovary” e “A Educação Sentimental” (talvez seu melhor livro, porém menos emblemático, dados o tema do adultério e a crise judicial, do que o outro)? Barbara Heliodora escrevia artigos-ensaios em “O Globo” — alguns até pequenos e circunstanciais —, mas quase todos devem sobreviver, como os textos de Décio de Almeida Prado e Sábato Magaldi.
A crítica teatral de Barbara Heliodora surpreendia porque não era populista, não queria agradar, mas entender e explicar o trabalho de criação, adaptação, direção, e atuação dos atores. “A crítica condescendente é um engano”, assinalava. Quando Gerald Thomas apareceu como o suprassumo da renovação teatral, com suas pirotecnias cenográficas, alguns críticos de teatro, embasbacados, teceram-lhe loas. Cheguei a pensar, lendo as “críticas” (aspas urgentes) que era uma espécie de Samuel Beckett reencarnado. Alerto: claro que não cheguei a pensar. Porém, quando li as críticas corajosas de Barbara Heliodora, concluí: tá aí uma mulher que não tem medo de denunciar empulhações da cultura inculta (e não estou insinuando que Gerald Thomas é uma empulhação, porque ele tem seu valor).
Barbara Heliodora era uma educadora e, por isso, sabia que era preciso alertar o espectador sobre a qualidade, ou falta de, das obras teatrais encenadas. Suas críticas eram luminosas, enxutas, sem tergiversações. Nada de politicamente correto, mas também nada de exagero para chamar a atenção. Sua crítica era sólida — devido seu amplo conhecimento de teatro e da cultura em geral — e direta. Provocava reações destemperadas. Acredito que, se fosse homem, teria apanhado pelo menos umas cinco vezes.
A Barbara Heliodora que mais me agrada é a tradutora de Shakespeare. Suas traduções são de excelente nível. Porque, além de domínio perfeito das línguas Portuguesa e Inglesa, conhecia toda a obra do dramaturgo e poeta britânico e era leitora de seus principais intérpretes. O autor de “Hamlet”, “Rei Lear” e “Otelo” era seu alimento diário — daí as traduções escorreitas. Suas versões, sem apagar a história das obras — que está vinculada à língua de seu tempo e ao teatro (daí o tom, digamos, quase declamatório) —, o tempo em que estão vinculadas, torna Shakespeare nosso contemporâneo. Desdatando-o, por assim dizer, mas sem destruir a força do tempo em que as peças foram criadas. Shakespeare fica mais vivo no português “criado” por Barbara Heliodora para torná-lo nosso contemporâneo.
Não bastasse ter traduzido Shakespeare, escreveu minuciosamente — explicando-o com o máximo de clareza — sobre o bardo. Suas obras perdem quase nada — se perdem alguma coisa — para livros fundamentais de Harold Bloom e Frank Kermode (autor de uma obra seminal sobre o autor de “Macbeth”). “Falando de Shakespeare”, “Reflexões Shakesperianas” e “Shakespeare: O Que as Peças Contam —Tudo o Que Você Precisa Saber Para Descobrir e Amar a Obra do Maior Dramaturgo de Todos os Tempos” são livros cruciais, deliciosas e, mesmo, eruditos. Se traduzidos para o inglês, Harold Bloom, que diz que Shakespeare inventou o homem moderno, por certo adoraria-os.
A “Folha de S. Paulo” copiou a crise de “O Estado de S. Paulo” e demitiu dezenas de jornalistas na quinta-feira, 9. O Portal Imprensa menciona 50 profissionais. Oficialmente, são 25 repórteres.
Alguns dos demitidos: Diógenes Campanha (Agência Folha), Rodrigo Machado (TV Folha), Bia Bittencourt (TV Folha), Paulo Peixoto (correspondente em Belo Horizonte), Luísa Alcântara (editora de “Turismo”), Giovana Balogh (Cotidiano), Severino Motta (Brasília), Sérgio Lima (Brasília), Pedro Soares (Rio de Janeiro) e Fernanda Godoy (Rio de Janeiro.
O “PI” relata que sete funcionários do Banco de Dados foram afastados.
A “Folha” decidiu fazer uma mudança radical. “Todos os suplementos serão descontinuados” e o material será incorporado “a outros cadernos, com exceção de Turismo”, anota o “PI”.
O cartão de visita de um jornalista é o texto que publica no jornal em que trabalha. Por isso, a cúpula do Grupo Jaime Câmara vai valorizar os jornalistas que escrevem. Acabou a era do editor que senta-se na cadeira, conversa com fontes mas não escreve uma linha. O “Pop” vai valorizar a produtividade de seus profissionais. Editor não é burocrata. Na semana passada, devido às demissões de Wanderley de Faria, João Carlos de Faria, Karla Jaime e Rosângela Chaves, a editora-chefe, Cileide Alves, fez algumas mudanças operacionais. Daniela Gaia substitui Rosângela Chaves na edição do “Magazine”. Gilberto G. Pereira é o novo editor de Opinião, assumindo o lugar de Karla Jaime. Silvana Bittencourt vai cuidar da abertura e Bruno Rocha Lima do fechamento da edição.
Na quarta-feira, 8, os diários “Pop”, “Diário da Manhã” e “Hoje” deram manchetes divergentes. “Inflação em Goiânia é a maior desde 2003” é o título da manchete de “O Hoje”. A inflação é de 2,59%. Em março de 2003 chegou a 2,99%. De fato, era a grande notícia do dia. Quem faz compras em supermercados e feiras percebe que a vida diária ficou mais cara. “Projetos endurecem benefícios a servidores” é a manchete do “Pop”. O assunto interessa mais ao funcionalismo público. Mas significa que o Estado está se tornando mesmo menor, ou, como disse o governador Marconi Perillo, “necessário”. O “Diário da Manhã” publicou “Goiás terá rota para o Oceano Pacífico”. A Ferrovia Transoceânica (ou Transcontinental), que será construída pelos governos brasileiro, chinês e peruano, com 5,4 mil quilômetros, é um sonho antigo. Sairá mesmo do papel? Não se sabe. Por isso precisa ser “anunciada” com cautela pelos jornais. Três manchetes diferentes, mas todas pertinentes.
Os grandes jornais brasileiros estão demitindo dezenas de repórteres, repórteres- fotográficos e especialistas em design. Porém, ao contrário do que divulgam alguns editores e repórteres de blogs, “Estadão” e “Folha” (ainda) não estão se preparando para abandonar o formato impresso. O que se vai fazer, para reduzir custos, é diminuir o número de páginas e de funcionários — mantendo um produto mais enxuto (e cada vez mais analítico). O custo de se publicar na internet é mais baixo. O custo do produto impresso é muito alto e envolve estruturas e logísticas muito maiores e complexas.
A experiência do “Jornal do Brasil”, que migrou 100% para a internet e perdeu fôlego — não tem mais importância para o mercado, embora sua crise fosse anterior, quando passou para as mãos de quem não era do ramo jornalístico —, assim como o fracasso da “Newsweek” (nos Estados Unidos), assombra todos os dirigentes de jornais e revistas. Como o mercado é altamente competitivo, vai ser difícil aparecer aquele que vai atirar a primeira pedra. A maioria absoluta das verbas publicitárias ainda é direcionada para os veículos impressos.
Há outra questão: os que defendem o primado das publicações virtuais deixam de perceber um fato óbvio, mas nem tanto, diria Darcy Ribeiro: parte dos blogs e redes sociais (a “Folha de S. Paulo” já publicou uma reportagem a respeito) busca suas informações mais relevantes nos veículos impressos. Raramente produzem informação de qualidade, confiável, apurada com cuidado.
Outro problema dos blogs é que, ao contrário dos grandes grupos, empregam, quando empregam, poucos trabalhadores. Talvez seja possível reinventar as cooperativas jornalísticas, seguindo o modelo francês.
Um fato é inescapável: o grupo de comunicação que ainda não percebeu a força da internet, e como potencializa sua inserção no mundo globalizado, tende a sucumbir. Não dá para resistir e contornar a internet. O fundamental é usá-la bem para divulgar aquilo em que se acredita.
[A pintura acima é de José Ferraz de Almeida Júnior]
As mudanças continuam na redação do “Pop”. O repórter Gilberto G. Pereira, apontado como "revelação" pelos editores (embora não seja mais tão jovem), substitui Karla Jayme na Editoria de Opinião.
Num jornal que quase não tem opinião — que acredita que ter opinião é publicar artigos apenas de especialistas e de jornalistas de outros jornais, como Elio Gaspari, Eliane Cantanhêde e Miriam Leitão —, o cargo de editor de opinião deve ser dos mais tranquilos. É quase uma aposentadoria. Mas claro que não para um profissional dinâmico e preparado como Gilberto Pereira.
[Fotografia do Facebook do repórter]
Era tão corajosa e dura que, se fosse homem, já teria apanhado de diretores e atores de teatro
O promotor de justiça Carlos Vinícius Alves Ribeiro, do Ministério Público de Goiás, é um intelectual gabaritado. Sua tese de doutorado “Restrições Estatais e Direitos Individuais em Benefício dos Próprios Titulares”, além de aprovada com nota máxima por uma banca examinadora da Universidade de São Paulo (USP) — a maior importantes do país —, “foi indicada”, informa o site do MP, “para disputar o prêmio de melhor tese daquela instituição de ensino”.
A professora Maria Sylvia Zanella Di Pietro foi a orientadora de Carlos Vinícius Alves Ribeiro — um doutor de fato e de direito. Dois promotores disseram ao Jornal Opção que o jovem Carlos Vinícius é “brilhante”.
[A foto de Carlos Vinícius Alves Ribeiro é do site do Ministério Público]
O promotor de justiça Fernando Braga Viggiano, autor da denúncia contra Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, o Cadu, pelos crimes de latrocínio, estava mesmo certo — desde o início. Os laudos de insanidade e psicológico feitos pelo Tribunal de Justiça de Goiás — de responsabilidade dos psiquiatras Leandro de Carvalho e Ítalo Rocha da Silva e dos psicólogos Melissa Pereira David Sousa, Kênia Camilo e Orion Tadeu de Amorim — concluíram que Cadu Nunes é perfeitamente imputável, porque tem plena consciência de seus atos. O réu sabe o que está fazendo.
Além de admitir que matou duas pessoas em Goiânia — latrocínio —, Cadu Nunes sublinhou que sentia prazer ao cometer os crimes. Ele contou que era usuário de cocaína, mas, ao cometer crimes, não usava drogas. “No âmbito do direito, importava que se comprovasse que no dia e na hora dos crimes ele tinha capacidade de entendimento”, disse o promotor Fernando Viggiano. Tinha.
Para Fernando Viggiano, segundo texto postado no site do Ministério Público de Goiás, Cadu Nunes tem “uma mente perversa, manipuladora e de grande periculosidade”. “Trata-se de uma pessoa extremamente manipuladora que, dependendo da situação em que se encontra, faz o discurso que se quer ouvir”, assinala o promotor.
Se for solto, afirma Fernando Viggiano, Cadu Nunes poderá cometer novos crimes. “Há comprovações de que ele tem interesse de voltar para a seara da criminalidade”, frisa o promotor.
O laudo será analisado pela defesa de Cadu Nunes e, depois, será examinado pelo juízo da 5ª Vara Criminal de Goiânia. O advogado apresentará a defesa e a magistrada do caso “poderá designar a instrução do julgamento para a retomada do processo criminal”.
Cadu Nunes está numa cela individual, sem convívio com outros presos. Ao contrário do estaria dizendo, não tem sido ameaçado.
Carta de um manipulador
Uma carta escrita por Cadu Nunes, apreendida no Núcleo de Custódio, mostra a capacidade de manipulação do criminoso. “Eu vou dar munição para o promotor. Que esse papo de loko (sic) é tudo 171 e que eu sou é bandido. Essa é a minha posição. Você é minha família. Batem na tecla que eu sou é loko (sic), drogado e não tô (sic) falando nada com nada, inimputável!!! Eu preciso que você enrole até o máximo do máximo de tempo. Me mantenha na mídia. Vende entrevista p/ TV e revista. Irmão nasci p/ ser estrela e não medalha. Vive pra (sic) testemunhar. Família até o fim!!!”
[Foto da Polícia Militar, retirada do site do Portal Imprensa]
As demissões de quatro editores provocaram mudanças na edição do “Pop”. Bruno Rocha Lima troca o cargo de editor de abertura pelo editor de fechamento. Silvana Bittencourt passa a ser a editora de abertura. Depois de Cileide Alves, a editora-chefe, são os jornalistas mais prestigiados na atual configuração da redação e, de fato, são do primeiro time.
A jovem repórter Daniela Gaia [foto acima, de seu Facebook]é a nova editora do “Magazine”, caderno de entretenimento do jornal.
Gabriel Lisita passa a colaborar no fechamento da primeira página.
Nova orientação editorial
A cúpula do Grupo Jaime Câmara vai cobrar que os editores escrevam mais nas páginas do “Pop”. A teoria deles é a de todos os grandes jornais: só existe uma profissão em jornalismo — a de repórter. Editor não é profissão — é cargo. Um jornalista que, durante um ano, escreve apenas dez textos, e em geral aleatórios, dificilmente será mantido em qualquer redação.
O programa “Frutos da Terra”, apresentado pelo publicitário Hamilton Carneiro, sairá da grade de programação da TV Anhanguera.
Tido como o programa mais antigo da televisão goiana, o “Frutos da Terra” teria baixa audiência e, sobretudo, baixo faturamento. O Grupo Jaime Câmara pretende faturar mais com o espaço do “Frutos da Terra”. Isto, claro, se não perdê-lo para TV Globo.
“Frutos da Terra” é um dos maiores divulgadores da música brasileira, notadamente da produzida em Goiás.
[Na foto acima, Hamilton Carneiro aparece ao lado do cantor e músico Marcelo Barra]
Jornalistas brasileiros, aderindo ao populismo da política, começam a exigir que as pessoas não tenham preconceitos (todos têm, sobretudo os que dizem não ter). O jornalismo está se tornando polícia. No programa jornalístico “Em Pauta” — no qual a notícia é tratada como entretenimento, com leveza, informalidade e inteligência —, da Globo News, na quinta-feira, 9, Elisabete Pacheco, Guga Chacra (o mais indignado), Sérgio Aguiar e Gerson Camarotti criticaram, de maneira ácida, Ed Motta (como Roberto Pontual faz falta). Na verdade, fizeram discursos contundentes. O curioso é que nunca se viu atacarem um corrupto com tanta virulência. O músico e cantor disse que brasileiros que vão aos seus shows no exterior são “simplórios”, nada sabem sobre sua carreira e preferem uma música mais popularesca. O que há de falso neste aparente gesto de desprezo? Nada. Parte, talvez a maior parte, dos brasileiros que mora no exterior é mesma simplória. Eles vão para o exterior “fazer” a vida, trabalhando em empregos pesados (faxinas, entregas de comida, construção civil). Não estão lá para “melhorar” o gosto. Nem tem tempo para isso. Nem dinheiro.
(Ed Motta fará shows, entre maio e junho, na França, Alemanha, Holanda, Irlanda, Inglaterra, Itália, Áustria e Finlândia. Ele vai divulgar o álbum “AOR”.)
É provável que a maioria dos brasileiros que moram no exterior, sobretudo nos Estados Unidos, não seja mesmo adepta de uma música mais sofisticada. Por isso prefere a música sertaneja de um Zezé Di Camargo ou o romantismo de um Roberto Carlos. Aquilo que é simplório não mais pode ser chamado assim? Dizer a verdade é ofensivo?
Observe que Ed Motta não criticou todos os brasileiros. “Verdade seja dita, que meu público brasileiro de verdade na Europa é um pessoal mais culto, informado, essas pessoas nunca gritaram nada. O negócio é que vai uma turma mais simplória que nunca me acompanhou no Brasil. Público de sertanejo, axé, pagode, que vem beber cerveja barata com camiseta apertada tipo jogador de futebol, com aquele relógio branco, e começa a gritar nome de time”, lamentou Ed Motta. Suas palavras contêm alguma mentira? Nenhuma. É, mais do que uma crítica, uma constatação. Por que é vital discutir “gosto”? Com o único motivo de aperfeiçoá-lo, até mudá-lo. Mas fãs de Zezé Di Camargo e Luciano e de Leonardo dificilmente vão se tornar admiradores de Beethoven, Mozart, Chico Buarque, Billie Holiday e Elis Regina. Aquilo que é fácil de apreender — porque, no fundo, não precisa ser apreendido, e sim apenas ouvido, de maneira imediata e dispersiva — é mais prazeroso, para quem não tem paciência e o mínimo de cultura, do que uma arte que precisa ser ouvida, com atenção, e até estudada.
Pode até parecer arrogância, é provável que seja, o músico dizer que não vai cantar nem falar em português nos seus espetáculos. Ele sublinha que não vai cantar “Manuel”, seu primeiro sucesso. “O mundo inteiro fala inglês, não é possível que o imigrante brasileiro não saiba um básico de inglês. A divulgação da gravadora, dos promotores é maciça no mundo europeu, e não na comunidade brasileira”, frisou. Há, aí, algum preconceito ou discriminação? Na verdade, quem mora em qualquer país tem de aprender a língua local, senão fica deslocado, isolado, sem sintonia com as pessoas, com as ruas.
Não satisfeito com as primeiras estocadas, Ed Motta “orientou”: “Não gaste seu dinheiro e nem a paciência alheia atrapalhando um trabalho que é realizado com seriedade cirúrgica. Esse não é um show para matar a saudade do Brasil. É um show internacional. Que desagradável ter que toda vez dar explicações, e ter que escrever esse texto infame”.
Um internauta disse: “Realmente, ser popular no Brasil é para poucos”. A resposta de Ed Motta, numa rede social: “Pra poucos idiotas”. Alguém que não queira fazer média com o público, apresentando-se como politicamente correto, pode realmente discordar das estocadas de Ed Motta? Ligue os canais abertos de televisão e algumas rádios. As músicas são de baixíssimo nível, com linguagem chula, e com verdadeiro massacre da Língua Portuguesa. Os brasileiros não merecem isto, mas é o que ouvem e pedem para ouvir. Paulo Francis gostava de comentar que Lênin tentou oferecer obras de arte sofisticada para os camponeses e trabalhadores soviéticos, mas eles queriam Repin.
Como o Brasil está se tornando a segunda pátria do politicamente correto — a primeira são os Estados Unidos —, é saudável que alguém guarde o bom senso no violão e fale aquilo que precisa e deve ser dito. Ed Motta choca porque não mente.
Laura Capriglione [foto acima; de seu Facebook] — repórter de política e geral — e Pedro Alexandre Sanches — crítico de música e repórter cultural — são jornalistas do primeiro time. Juntos e com o apoio do repórter Eduardo Nunomora e do repórter-fotográfico estão apostando no sucesso editorial do #JornalistasLivres, apresentado como rede de coletivos.
Manifesto do #JornalistasLivres: “Existimos em contraponto à falsa unidade de pensamento e ação do jornalismo praticado pela mídia tradicional centralizada e centralizadora. Pensamos com nossas próprias cabeças, cada um(a) de nós com sua própria cabeça. Os valores que nos unem são o amor apaixonado pela democracia e a defesa radical dos direitos humanos. Não agimos orientad@s por patrão, chefe, editor, marqueteiro ou censor. Somos noss@s própri@s patrões/patroas, somos noss@s própri@s empregad@s. Almejamos viver em liberdade e vivemos na busca incessante por liberdade”.
Criar órgãos tidos como independentes é sempre saudável. Mas em geral o que se descobre é que, no final, alguém precisa chefiar e pôr a mão na massa como organizador. Nada, em jornalismo, seja empresarial ou não, é muito livre. As amarras sempre existem. Os que acreditam em condições de trabalho ideais — e não as possíveis — costumam soçobrar. Porém, ante a qualidade dos jornalistas Laura Capriglione e Pedro Alexandre Sanches [foto acima; de seu Facebook], desejo vida longa à rede.
Amauri Garcia consegue ser, a um só tempo, jornalista, radialista e artista (músico, cantor) do primeiro time. É competente, criativo e decente. Ele está de volta à Rádio Bandeirantes 820, às sextas-feiras, das 9h10 às 10h, para comandar, ao vivo, o “Sexta Cultural”.
O programa terá entrevistas e informações. A estreia, na sexta-feira, 10, terá o cantor Pádua como convidado especial. Imperdível.
Daniel Zaclis
Era inevitável. Por mais contundentes que fossem as críticas relativas à natureza moral da delação premiada, parecia ser apenas questão de tempo até que esse meio de prova se tornasse o grande protagonista das investigações criminais de maior complexidade. Afinal, nada mais valioso – e, certamente, menos trabalhoso – do que a colaboração de quem “esteve lá” e se mostra disposto a dizer tudo que sabe em troca de uma redução ou perdão de sua pena final.
É preciso, no entanto, ter cautela. Em meio ao atual frenesi de sucessivos escândalos, com notícias diárias de novos investigados dispostos a entregar antigos comparsas, algumas reflexões se mostram necessárias.
Como primeiro ponto, cumpre destacar as hipóteses, cada vez mais frequentes, de acordos de delação que utilizam a liberdade do indivíduo como genuína moeda de troca. De modo simplificado: se o delator decidir contribuir, a prisão cautelar (aquelas impostas sem pena definitiva) é revogada; se não auxiliar nas investigações, permanecerá encarcerado.
Trata-se de prática manifestamente ilegal e as razões são inúmeras. Talvez a mais óbvia resida no fato de que a prisão cautelar, a não ser que queiramos retornar a épocas nada saudosas, jamais pode servir de instrumento para obtenção de confissões ou informações. Como medida excepcionalíssima, ou bem estão presentes os requisitos para manter a custódia antes de encerrado o processo, ou então que se coloque o indivíduo em liberdade. Uma pessoa não está mais ou menos apta a responder um processo em liberdade apenas porque decidiu delatar.
A própria voluntariedade (exigida por lei) do delator pode ser questionada nesses casos. Como bem descreve Dostoiévski, em "Memórias do Subsolo", na cabeça de um homem preso há somente um pensamento: “Quantos milhares de dias iguais a este tenho pela frente, imutáveis”. Na esperança de diminuir alguns desses imutáveis dias, o indivíduo se torna absolutamente vulnerável, sendo que o acordo de colaboração, nessas circunstâncias, é fruto muito mais de uma atuação coativa do Estado do que um desejo próprio do delator.
De forma semelhante, discutíveis também são os acordos cujos termos exigem do delator a renúncia a determinadas garantias fundamentais. Nesse cenário, o instrumento de colaboração somente teria validade na medida em que o delator abrisse mão de questionar eventuais arbitrariedades cometidas ao longo da persecução penal.
A hipótese, uma vez mais, demonstra claro abuso no uso do instituto da delação. Quando o indivíduo aceita tornar-se um colaborador, parece razoável sustentar que abdicará necessariamente de um só direito constitucional: o de permanecer em silêncio. As demais garantias permanecem intocadas.
Ressalte-se que, nesses casos, de nada importa o aspecto consensual do acordo. Determinados direitos, por maior que seja a vontade de alguns, são irrenunciáveis. Até porque, amanhã ou depois nos depararíamos com acordos em que o delator, em troca de uma redução de pena, deseja abrir mão da sua sagrada garantia de não ser torturado, aceitando ser açoitado em praça pública. Ora, diriam alguns, se for consensual...
Não menos problemática tem sido a divulgação reiterada do conteúdo das delações premiadas. Já nos acostumamos a ligarmos a televisão e nos deparamos com filmagens de sala de audiências em que delatores, sem sinais de enrubescimento (como se eles próprios não tivessem sua parcela de culpa), descrevem detalhadamente as peripécias de terceiros. E ansiosamente aguardamos o dia seguinte, torcendo para que mais uma empresa seja citada, mais um político seja incluído no “rolo”, enfim, que possamos ver saciados nossos mais primitivos desejos de ver a “Justiça” sendo feita.
Esquecemo-nos, contudo, que o delator é um sujeito com interesse. É movido por uma possibilidade de decréscimo de sua pena, sendo que somente alcançará esse objetivo se fornecer informações eficazes para identificação dos coautores da empreitada criminosa. Ao depor, pode se restringir ao que sabe. Porém, pode também, como qualquer pessoa interessada, falar menos do que sabe; falar mais do que sabe; incluir supostos inimigos ou mesmo proteger amigos. Nessas circunstâncias, parece temerário não assegurar o devido sigilo, para pessoas que não guardam relação com o processo, do depoimento de delatores enquanto não advier uma sentença sobre o mérito da causa.
Por fim, reitere: a delação premiada pode, sim, ser meio de prova de extrema utilidade para apuração de delitos. Imprescindível, contudo, evitar que ela se torne, ainda que a pretexto de combater a impunidade, em mero instrumento arbitrário à disposição do Estado. Certamente haverá quem diga que essas “formalidades” apontadas acima são desimportantes. Tais vozes normalmente bradam que, em nome de um “bem” maior - a tal da “verdade” -, há de se relevar certas coisas. Parafraseando Agostinho Marques Neto, pergunto normalmente a essas pessoas: e quem nos salvará da bondade dos bons?
Daniel Zaclis é sócio do escritório Costa, Coelho Araújo e Zaclis Advogados e mestrando em Direito Processual Penal na Faculdade de Direito da USP.


