Euler de França Belém
Euler de França Belém

Barbara Heliodora era uma grande crítica de teatro porque escapou ao populismo patropi

Era tão corajosa e dura que, se fosse homem, já teria apanhado de diretores e atores de teatro

Eu dizia a amigos, de brincadeira: a Barbara Heliodora — sem acento no primeiro “a” do prenome — não morre, é eterna. Aos que perguntavam se estava falando sério, eu acrescentava: “Claro, note que, com mais de 80 anos, continua escrevendo e traduzindo. Não vai morrer. Não pode morrer. É o ponto de contato de Shakespeare — e sem a fajutice da psicografia — com o Brasil”. Pois é: eu estava brincando — todos morrem, inclusive a Roberto Marinho, Barbara Heliodora, Bertrand Russell e, quem sabe, José Sarney. Barbara Heliodora morreu na sexta-feira, 10, aos 91 anos, no Rio de Janeiro.

Mas alguns se tornam mesmo eternos, inscrevendo seus nomes na história — ao menos na história cultural — da humanidade. Quem era o prefeito de Paris no tempo de Gustave Flaubert? Nem os franceses sabem. Mas quem não sabe que Flaubert é autor de dois romances magistrais, “Madame Bovary” e “A Educação Sentimental” (talvez seu melhor livro, porém menos emblemático, dado o tema do adultério e a crise judicial, do que o outro)? Barbara Heliodora escrevia artigos-ensaios em “O Globo” — alguns até pequenos e circunstanciais —, mas quase todos devem sobreviver, como os textos de Décio de Almeida Prado e Sábato Magaldi.

A crítica teatral de Barbara Heliodora surpreendia porque não era populista, não queria agradar, mas entender e explicar o trabalho de criação, adaptação, direção e atuação dos atores. “A crítica condescendente é um engano”, assinalava. Quando Gerald Thomas apareceu como o suprassumo da renovação teatral, com suas pirotecnias cenográficas, alguns críticos de teatro, embasbacados, teceram-lhe loas. Cheguei a pensar, lendo as “críticas” (aspas urgentes) que era uma espécie de Samuel Beckett reencarnado. Alerto: claro que não cheguei a pensar. Porém, quando li as críticas corajosas de Barbara Heliodora, concluí: tá aí uma mulher que não tem medo de denunciar empulhações da cultura inculta (e não estou insinuando que Gerald Thomas é uma empulhação, porque ele tem seu valor).

Barbara Heliodora era uma educadora e, por isso, sabia que era preciso alertar o espectador sobre a qualidade, ou falta de, das obras teatrais encenadas. Suas críticas eram luminosas, enxutas, sem tergiversações. Nada de politicamente correto, mas também nada de exagero para chamar a atenção. Sua crítica era sólida, dado seu amplo conhecimento de teatro e da cultura em geral, e direta. Provocava reações destemperadas. Acredito que, se fosse homem, teria apanhado pelo menos umas cinco vezes.

A Barbara Heliodora que mais me agrada é a tradutora de Shakespeare. Suas traduções são de excelente nível. Porque, além de domínio perfeito das línguas Portuguesa e Inglesa, conhecia toda a obra do dramaturgo e poeta britânico e era leitora de seus principais intérpretes. O autor de “Hamlet”, “Rei Lear” e “Otelo” era seu alimento diário — daí as traduções escorreitas. Suas versões, sem apagar a história das obras — que está vinculada à língua de seu tempo e ao teatro (daí o tom, digamos, quase declamatório) —, o tempo em que estão vinculadas, torna Shakespeare nosso contemporâneo. Desdatando-o, por assim dizer, mas sem destruir a força do tempo em que as peças foram criadas. Shakespeare fica mais vivo no português “criado” por Barbara Heliodora para torná-lo nosso contemporâneo.

Não bastasse ter traduzido Shakespeare, escreveu minuciosamente — explicando-o com o máximo de clareza — sobre o bardo. Suas obras perdem quase nada — se perdem alguma coisa — para livros fundamentais de Harold Bloom e Frank Kermode (autor de uma obra seminal sobre o autor de “Macbeth”). “Falando de Shakespeare”, “Reflexões Shakesperianas” e “Shakespeare: O Que as Peças Contam —Tudo o Que Você Precisa Saber Para Descobrir e Amar a Obra do Maior Dramaturgo de Todos os Tempos” são livros cruciais, deliciosas e, mesmo, eruditas. Se traduzidos para o inglês, Harold Bloom, que diz que Shakespeare inventou o homem moderno, por certo adoraria.

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