Depois de ser o procurador-Geral de Justiça mais jovem do Brasil, aos 34 anos, tomei posse no Senado 8 dias depois de completar 42. Não chegava a ser um Irajá Abreu (eleito no Tocantins aos 35), um Gladson Camelí (no Acre aos 36), um Randolfe Rodrigues (no Amapá, aos 37), todavia pela média da Casa era considerado novo.

Logo fui adotado pelos mais experientes, sobretudo o baiano Antônio Carlos Magalhães e o maranhense Edison Lobão. Infelizmente, ACM nos deixou em 2007, uma grande perda para o Brasil e para mim ainda mais. O sentimento de orfandade só não foi maior porque me aproximei indelevelmente de Lobão, que meses depois sairia do Legislativo para ser ministro de Minas e Energia.

Um golpe duplo para o Congresso ficar sem 2 de seus sábios. Padeci sem meus mestres. Menos mal que ambos foram substituídos pelos filhos e xarás, ACM Jr. e Lobão Filho. Do 1º me tornei amigo; do outro, irmão.

Histórias assim foram rememoradas em Goiânia ao receber “Memórias e Testemunhos – Revelações políticas” (G. Ermakoff Casa Editorial), livro de Lobão pai, na Escola Superior de Advocacia da Ordem dos Advogados do Brasil seção de Goiás, na noite desta 2ª feira (16.jun.2026). À tarde, na Copa, o goleiro Vozinha, de Cabo Verde, havia parado a poderosa Espanha e movimentado o mundo a partir de Atlanta, nos Estados Unidos. À noite, o show foi de Lobão, que se emocionou ao lotar o auditório, merecido pelo bem que fez a este continente. Lançado originalmente em 2025, o livro continua a percorrer o Brasil em 2026, com sessões de autógrafos, palestras e eventos de apresentação.

Nossa convivência permanece, pois no escritório de advocacia sou sócio de outro filho seu, Márcio Lobão, cuja mulher, Marta Fadel, levou o lendário líder para colher ali o reconhecimento popular. Por isso, não me surpreendi com o vigor físico do moço que em dezembro chegará aos 90 anos. Posou para fotos com centenas de admiradores, gravou vídeos, deu entrevistas, autógrafos, ouviu discursos elogiosos dos presidentes da OAB/GO, Rafael Lara, e da ESA, Rodrigo Lustosa.

No fim, ainda teve ânimo para embevecer a numerosa plateia ao contar casos inéditos e outros que estão no volume. Demonstrou conhecimento de Cícero, da Bíblia e dos bastidores do Poder, em que brilhou durante 6 décadas. Recebeu parabéns pela trajetória, pela sabedoria e também pelo vigor físico: nada de demonstrar cansaço após 3 horas seguidas sendo abraçado, andando daqui para ali, dali para acolá, ouvindo, falando, sorridente, demonstrava gostar dos afagos verbais.

Com a multidão sequiosa para que continuasse a assinar nos livros, por fim, aproveitou que estava em pé atendendo a alguns e contou o ocorrido com seu conterrâneo José Sarney, 96 anos. Disse que, tempos atrás, o ex-presidente da República e autor do prefácio encarou a tarefa e aguentou 99 autógrafos, no 100º demandou ambulância e internação.

Claro que é melhor sair com a mão enfaixada do que o evento ser um fracasso, porém, sei quão difícil se torna quando a fila supera músculos e nervos.

Tinha 50% da idade de Lobão e capenguei diversas vezes, caligrafia legível e texto comprido nos primeiros 30 exemplares, contava alguma coisa até os 50, passou dos 100 já só rabiscava: “Para o Fulano, um abraço do Demóstenes” com a letra horrível, dos 200 em diante só um singelo “DTorres” de pura garatuja, o punho travava, a mão se enrijecia, semana inteira com os dedos doendo.

Quando exerci cargos, apelava para a rubrica nos milhares de documentos diários no esporte nacional, que não é o futebol, mas a burocracia. Por isso, respeito tanto o carimbo e sua versão moderna, a assinatura eletrônica.

Se a palestra de Lobão é instrutiva e divertida, a impressa é uma memorável aula de 220 páginas, fruto de 60 anos de participação. Sarney chama-o de “delicioso livro”, “biográfico sem ser uma biografia” no qual Lobão “abre sua caixa de segredos não contados”. Decreta: “É uma excelente leitura. Aproveite”.

Em Goiânia, foi lembrado que Lobão é atemporal, pela fé na tecnologia, que como ministro catapultou o pré-sal e a eletrificação no campo.

“Memórias e testemunhos” tem uma espécie de posfácio do editor George Ermakoff contando que o quase nonagenário fez no WhatsApp a introdução e os 31 capítulos. Redigia, impecável como ao se destacar nos principais veículos de comunicação, nos quais foi de repórter do jornal “Última Hora” fazendo matéria no Norte de Goiás a diretor da TV Globo em Brasília.

O homem que ainda hoje arregimenta grande público começou do nada, como conta Ermakoff:

“Aos 13 anos foi mandado (de Mirador (MA), onde nasceu) estudar fora e seguiu para Barão de Grajaú, na fronteira com o Piauí. Numa viagem-aventura varou o sertão maranhense por 3 dias, alojado numa carroceria com 1 grupo de 30 pessoas. À noite, cada 1 estendia a sua rede para dormir sob o frio e o sereno, para descansarem e poderem aguentar o chacoalhar do caminhão do dia seguinte”.

Eis o personagem que se tornou protagonista de fatos que viu e influenciou de JK a Lula, passando por todos os presidentes militares. Entre na internet e procure uma forma de saborear “Memórias e testemunhos”.

Demóstenes Torres, 65 anos, é ex-presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, procurador de Justiça aposentado e advogado.

Leia também: Discutem taxas e Pix e se esquecem de CV e PCC