Fim da escala 6 x 1: um debate que precisa ser equilibrado e não contaminado pela disputa política
17 junho 2026 às 07h46

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Sergio Naves
Seja você empregado ou empregador é de suma importância reconhecer a enorme relevância do debate acerca da melhoria da qualidade de vida para os trabalhadores brasileiros. Buscar relações mais equilibradas entre empresas e colaboradores é um compromisso que deve estar sempre presente em uma sociedade moderna.
No entanto, é preciso ter uma visão igualmente equilibrada e sensata sobre a propalada PEC que põe fim à escala 6 x 1 no Brasil. Da forma como vem sendo conduzida sua discussão, a mudança, ao invés de melhorar, pode representar um retrocesso para diversos setores produtivos do país.
Antes de mais nada, é preciso destacar que não se trata de ser contra o trabalhador, mas sim manter a sustentabilidade econômica de empresas, em especial as micro e pequenas, que respondem pela manutenção de mais de 90% das vagas de emprego no Brasil.
Vale lembrar que países que reduziram recentemente a sua jornada de trabalho, como o Chile, adotam modelos graduais, com prazo de adaptação, negociação e regras de transição. Portanto, não se trata apenas de reduzir horas, mas de reorganizar produtividade, tecnologia, custos e modelos de trabalho.
A redução da jornada de trabalho é um tema complexo e não pode ser tratada de forma genérica, exige responsabilidade, estudos técnicos, análise por setor econômico e amplo diálogo entre trabalhadores, empregadores, entidades representativas e poder público.
Outro ponto que merece atenção é o atual momento político. Uma pauta tão sensível deveria ser discutida com maior profundidade, após o período eleitoral, evitando com que a matéria seja contaminada pela disputa político-ideológica.
O fim da escala 6×1, se imposto de forma uniforme e sem transição adequada, pode inviabilizar ou pressionar fortemente setores que dependem de operação contínua, atendimento presencial, funcionamento aos fins de semana, produção em turnos e resposta rápida ao consumidor. No caso específico da moda, a preocupação é ainda maior, já que a sua cadeia produtiva desde o agronegócio, especialmente com a produção de algodão e fibras; passa por fiações, tecelagens, malharias, tinturarias, lavanderias, estamparias, modelagem, corte, costura, acabamento, embalagem, estoque, transporte, atacado, varejo, exportação e termina na loja. É uma cadeia ampla e intensamente geradora de empregos.
Na Região da 44, em Goiânia, essa realidade é ainda mais evidente, já que o nosso polo confeccionista reúne milhares de pequenos empreendedores, que precisam operar com produção contínua, prazos curtos, sazonalidade e reposição rápida. Uma mudança brusca na jornada, sem planejamento, pode elevar custos, reduzir competitividade, encarecer produtos e colocar empregos em risco.
O Brasil precisa proteger o trabalhador, mas também precisa proteger o trabalho. Não há avanço social verdadeiro quando uma mudança, mesmo com a melhor intenção possível, resulta em fechamento de empresas, perda de postos formais de trabalho, aumento da informalidade e redução da renda das famílias.
Vale lembrar que o Brasil, no mercado internacional, concorre com grandes potências industriais e economias altamente competitivas, especialmente na Ásia. A Índia, por exemplo, mantém referência legal de até 48 horas semanais em atividades industriais. A China, embora tenha regras formais próprias para jornada padrão, opera em um ambiente de altíssima escala produtiva, forte intensidade industrial, elevada capacidade logística e grande pressão competitiva internacional. Mas o objetivo do Brasil não deve ser o de copiar modelos de longas jornadas, nem abrir mão da proteção ao trabalhador, mas reconhecer que competitividade, custo de produção, produtividade, tecnologia e preservação dos empregos precisam fazer parte desse debate.
Sérgio Naves é empresário e presidente da Associação Empresarial da Região da Rua 44 (AER44)
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