Ana Beatriz Santana

O apito do árbitro indica fim de jogo no estádio SoFi, em Los Angeles. O que para a seleção neozelandesa é sinônimo de alívio e desaceleração, para a equipe iraniana, representa o início de uma nova partida, marcada pela extensão da pressão e do cansaço. Dessa vez, o confronto ocorre fora de campo e dentro da chamada terra da liberdade.
Na atual Copa do Mundo, o governo dos Estados Unidos impôs uma restrição diplomática à equipe do Irã, a qual impede o pernoite do time persa em território americano. Nesse contexto, reacende-se o debate sobre a politização do esporte e suas repercussões: como conflitos geopolíticos internacionais podem transbordar seus efeitos para uma competição mantida sob a retórica de neutralidade?

É fato que disputar uma Copa do Mundo representa uma oportunidade para as seleções de reafirmar a própria identidade nacional e cultural. Em decorrência da boa performance em campo, um país é capaz de ganhar prestígio e reconhecimento perante os demais, ao passo que intensifica o sentimento de união e pertencimento da população interna.

Para o Irã, a edição de 2026, que marca sua sétima participação, é a chance de derrotar o fantasma que assombra a equipe: o fato histórico de nunca terem chegado na fase de mata-mata da competição. Diante disso, o peso de representar uma nação inteira sob os holofotes mundiais adquire uma nova proporção. Agora, para além das pressões comuns a qualquer seleção, o time persa enfrenta os desafios para uma boa recuperação e um bom descanso após os jogos, devido à limitação do ir e vir.

A guerra entre Estados Unidos e Irã, iniciada em fevereiro deste ano, foi motivada pela divergência de compreensão sobre o programa nuclear iraniano e por disputas geopolíticas de controle regional no Oriente Médio, incluindo o fechamento de rotas comerciais marítimas estratégicas, como o Estreito de Ormuz.

Como consequência, e a partir de um discurso securitizador, o governo estadunidense emitiu uma série de restrições à população iraniana, ao ponto de suspender quase que total a emissão de vistos – considerando aquele para fins estudantis – e o congelamento de processos imigratórios, como a expedição de green cards. É debaixo desse clima de tensão que acontece o maior evento internacional de futebol. 

Ao fim da coletiva de imprensa após partida entre Irã e Nova Zelândia, a equipe asiática foi instruída a deixar o território americano imediatamente, condição que implica negativamente o desempenho dos jogadores para as próximas disputas, uma vez que a construção da vitória começa bem antes da entrada em campo.

Isso os coloca em uma posição de desvantagem perante os demais times e, mesmo que não estejam no centro dos conflitos protagonizados por Estados Unidos e Irã, os atletas persas acabam sofrendo as consequências de tais desavenças internacionais. Nesse sentido, o técnico Amir Ghalenoei afirma que a seleção iraniana é a mais oprimida de toda a Copa do Mundo. 

E como se o sentimento de opressão já não fosse o suficiente, ainda é preciso lidar com a sensação de desamparo. Até o presente momento, a Fifa não emitiu um comunicado oficial acerca de toda essa situação. No site oficial da instituição, a Estratégia de Sustentabilidade para a Copa do Mundo de 2026 estabelece um conjunto de compromissos voltados à governança, ao meio ambiente e à dimensão social do torneio.

No pilar social, a entidade afirma que buscará promover o respeito aos direitos humanos, a inclusão e a não discriminação, incorporando esses princípios à organização do evento e às suas relações com governos e demais atores envolvidos. A partir disso, é esperado que medidas sejam tomadas a fim de garantir o fair play dentro da competição, o que envolve a condição de igualdade entre todos os jogadores. 

Na mesma coletiva de imprensa e após empate com a equipe maori, o capitão iraniano, Mehdi Taremi, afirmou que seu time não recebeu o apoio necessário e que “a FIFA pode e deve ajudar mais”. Considerando tal declaração, constata-se que há um certo tipo de contraste entre o que a instituição prega e o que é observado – e sentido – por aqueles que participam do evento. Na perspectiva de nós torcedores, não há inclusão, mas, sim, negligência. Isso porque, apesar de haver ações institucionais ocorrendo nos bastidores, o público não é informado sobre. Portanto, a impressão que passa é de falha corporativa. 

A comunicação é essencial em qualquer tipo de relacionamento, seja entre pais e filhos, aqueles que estão casados ou entre uma associação de futebol que realiza grandes eventos e o seu público. No estudo de Relações Internacionais e governança global, as narrativas são usadas, entre outras formas, para analisar entidades cuja administração ultrapassa fronteiras.

Sob essa ótica, o conceito de accountability (prestação de contas) significa a capacidade de assumir responsabilidade pelas próprias ações, de forma a explicar e justificar decisões com ética e transparência. Sendo assim, é preciso haver uma responsabilização quanto a regras aplicadas de maneira selecionada, principalmente sendo derivadas de conflitos geopolíticos, o que não cabe num evento que deveria ser neutro. Que nas próximas Copas do Mundo, o apito final do árbitro possa significar também alívio e desaceleração para a seleção iraniana.

Ana Beatriz é acadêmica do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Goiás