*Emídio Brasileiro, Educador, Jurista e Cientista da Religião

Cântico dos Cânticos, também conhecido como Cânticos dos Cânticos ou Cantares de Salomão, constitui o vigésimo sexto livro da Bíblia e o quinto entre os escritos poéticos e sapienciais do Antigo Testamento. A tradição hebraica atribui a autoria a Salomão (970–931 a.C.). Sob a forma de diálogos e cânticos de amor, o texto eleva a experiência afetiva humana à condição de símbolo do vínculo eterno entre o Criador e a criatura, entre Deus e a alma que O busca.

Composto de 8 capítulos, o livro pode ser dividido em 5 partes fundamentais:

I – O Despertar do Amor (1:1-2:7).

II – O Amor em Florescimento (2:8-3:5).

III – A União e o Cortejo Nupcial (3:6-5:1).

IV – A Separação e o Reencontro (5:2-6:13).

V – A Plenitude e a Eternidade do Amor (7:1-8:14).

O cântico inicia-se com a voz apaixonada da amada, que suspira pela presença do amado: “Beije-me ele com os beijos da sua boca, porque melhor é o teu amor do que o vinho.” É o primeiro despertar do amor, cheio de encanto e admiração. A beleza do amado é exaltada, e o desejo de comunhão cresce como perfume derramado. Nesse prelúdio, o amor ainda é promessa e expectativa; é a descoberta de um sentimento novo e sagrado. Espiritualmente, essa fase simboliza o despertar da alma para Deus: o momento em que o coração humano começa a desejar o contato com o divino.

Em seguida, o amado vem sobre os montes e chama a amada: “Levanta-te, querida minha, vem comigo.” A primavera floresce, as aves cantam e o perfume das vinhas enche o ar. É o tempo da juventude do amor, quando o sentimento se expande como a vida em renovação. Contudo, em seu sonho, a amada perde o amado e sai à sua procura pelas ruas até encontrá-lo novamente. Nessa fase, o amor amadurece pela busca e pelo reencontro. Simbolicamente, representa a resposta da alma ao chamado divino: Deus convida, e a alma O segue; às vezes, O perde de vista, mas O procura com fidelidade até reencontrar Sua presença.

O cortejo nupcial que se segue exalta a realeza e a majestade de Salomão, figura do Amado celestial. Salomão surge envolto em perfumes e esplendor. A amada é descrita como radiante e perfeita, e o amado a contempla com ternura. Enfim, consuma-se o encontro: o amor atinge a sua plenitude e é celebrado com alegria e paz. Nesse estágio, o amor humano é elevado à união espiritual, símbolo da aliança entre Deus e a alma fiel. O jardim do amor, onde ambos se encontram, representa o espaço sagrado da intimidade espiritual. O casamento, no plano simbólico, representa, ainda, a união mística entre Deus e o Seu povo ou, na leitura cristã, entre Cristo e a Igreja, selada pelo amor que transcende toda limitação terrena.

A amada, adormecida, ouve o amado bater à porta. Ela hesita e, quando decide abrir, ele já partira. Desesperada, sai pelas ruas à sua procura e é ferida pelos guardas, mas não desiste. Descreve a beleza do amado e reafirma seu amor até que o reencontra. Quando o reencontro se consuma, nasce a confissão jubilosa: “Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu.” É a afirmação da reciprocidade e da entrega plena. Esse episódio reflete os períodos em que a alma sente a distância de Deus e experimenta o vazio interior. Contudo, a alma aprende que o amor verdadeiro resiste à ausência e se fortalece nas provações.

O poema atinge o seu cume poético e teológico no versículo: “O amor é forte como a morte; as suas brasas são labaredas do Senhor.” O amor é proclamado como força eterna e divina, poder invencível que nenhuma água pode apagar. Tal amor não se limita ao sentimento humano, mas traduz o princípio vital que sustenta toda a criação e revela a natureza do próprio Deus. O amado exalta a beleza e a dignidade da amada; ela, por sua vez, afirma sua entrega total. O amor, agora maduro e estável, é apresentado como força invencível. É a fase da união definitiva entre a alma e o divino, em que o amor atinge sua dimensão eterna. O amor vence a dor e torna-se reflexo do Amor de Deus: absoluto, puro e imortal.

O Livro de Cântico dos Cânticos é uma alegoria do amor em sua dimensão mais elevada e espiritual. A intensa relação entre os amantes exprime a busca do espírito pela união com o divino ou com ideais superiores, o que reflete a lei de amor que rege a evolução dos espíritos. Ademais, o amor não se limita ao aspecto físico ou passional, mas representa uma força transformadora que conduz ao progresso moral. As imagens de desejo e encantamento presentes no livro podem ser compreendidas como expressões simbólicas da afinidade espiritual, da harmonia entre os seres e da atração baseada na sintonia moral. Dessa forma, o livro deixa de ser apenas um cântico humano e passa a ser visto como uma exaltação do amor puro, que aproxima os espíritos e os eleva em direção à perfeição.

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Compêndio da Bíblia – 25. Eclesiastes