Uma hora, quatro minutos e quarenta e nove segundos. Esse foi o tempo do novo programa que Paulo Figueiredo publicou nesta terça-feira, 30. O tema: “As mulheres votam mal?”. Sim, é claro que esse tempo foi utilizado totalmente para defender a sua fala anterior: que mulheres “estatisticamente votam mal e, principalmente, as solteiras”. Os argumentos de uma pessoa privilegiada — e foragida da Justiça, para deixar registrado — são extremamente nocivos ao sexo feminino.

Mas uma coisa eu não posso negar: Paulo foi extremamente inteligente ao utilizar a vitrine gratuita que a mídia brasileira lhe proporcionou. Mais evidência para o seu nome e para o seu canal. Infelizmente, ele utiliza esse espaço para fazer um desserviço: proferir centenas de palavras contra as mulheres para tentar se colocar como o dono da verdade absoluta.

Durante sua apresentação, Paulo começa atacando a mídia brasileira pelo recorte da fala polêmica que fez na última semana. Um ponto me chama a atenção: as profissionais que Paulo ataca são apenas jornalistas do sexo feminino. Andreia Sadi, da GloboNews, e Roseann Kennedy, do Estadão, foram as mais citadas por ele. Não há nenhuma avaliação negativa de textos escritos por homens sobre o assunto. E aí fica um questionamento: por quê?

Ao longo de sua apresentação, o influencer, apesar de dizer que não, quer se apresentar como um homem muito mais inteligente do que todas as mulheres brasileiras e americanas. E isso nem é mostrado nas entrelinhas. Acontece de maneira explícita. Mais de uma hora de programa de um homem branco, que se diz patriota, do bem e muito moral, tentando colocar a culpa nas mulheres se o Brasil não está no rumo que ele “acha certo”.

Paulo apresenta pesquisas que mostram que as mulheres têm tido mais afinidade com pautas defendidas pela esquerda, enquanto os homens têm apresentado comportamentos mais conservadores. Ele exibe um mapa americano que mostra que, se apenas mulheres tivessem votado em 2024, Kamala Harris – do Partido Democrata – teria sido eleita presidente dos Estados Unidos. O que, para ele, demonstra que as mulheres votariam muito mal e que a terra do Tio Sam foi “salva” graças aos votos masculinos, que elegeram Donald Trump.

Ao mostrar um mapa brasileiro com uma imagem feita claramente com o auxílio do ChatGPT, ele afirma que a situação é semelhante, mas ainda pior. Isso porque, de acordo com as informações que constam na ilustração, Lula teria vencido em 23 estados e no Distrito Federal apenas com os votos dados pelas mulheres nas eleições de 2022. Os homens consolidaram a vitória de Bolsonaro em apenas três estados: Santa Catarina, Roraima e Rondônia.

A situação, infelizmente, só piora. Paulo Figueiredo atrela essa mudança de perfil das mulheres à nova geração, oportunidade em que aproveita para atacar o feminismo e equipará-lo a uma “coisa do demônio” — uma tática comumente utilizada pelo campo conservador extremista, que busca ascender o radicalismo por meio de uma manipulação que tem como pilar a fé das pessoas.

Paulo insinua que as “mulheres pensantes” são aquelas que têm uma aliança no dedo colocada por um homem que cumpre a função de provedor da casa. Essas tendem a votar melhor porque “seguem o voto do marido”, segundo as suas palavras. Esse ponto me pegou. Parece que estou vendo uma pessoa reafirmando que a submissão da mulher ao homem é algo positivo, ao mesmo tempo em que essa situação flerta com a possessividade. Sabe aquele feminicídio que ocorre porque o alecrim-dourado não aceita o fim do relacionamento? Pois é. Está atrelado a esse discurso do influencer, mascarado como um diálogo para “salvar o país” do “regime maldito da esquerda”.

Para defender a sua opinião, Paulo rasga toda a história dos dois países: Brasil e Estados Unidos. Neste, o direito foi concedido de maneira universal às mulheres em 1920, após uma luta sufragista. Mas calma lá: a luta não parou. Apesar disso, nem todas tiveram direito de ir às urnas. As mulheres negras só tiveram esse direito garantido em 1964, com a Lei de Direitos Civis.

No Brasil, essa conquista foi oficializada em 1932, na era de Getúlio Vargas. Apesar disso, a luta já ultrapassava os 50 anos, tendo sido iniciada no século XIX, quando as mulheres reivindicavam espaço na participação política em um cenário dominado exclusivamente por homens. Situação que, por mais que elas sejam maioria no eleitorado, ainda não anda muito diferente no século XXI e não tende a mudar tão cedo, já que, infelizmente, os pares não votam em seus pares.

O vídeo de Paulo é uma violência contra TODAS as mulheres. Um tapa na cara de cada uma, já que, na sua visão, elas não deveriam nem ter conquistado esse direito. E isso não é uma fala explícita do influencer, mas, sim, algo que está nas entrelinhas. Ou seja, a palavra sendo mais agressiva do que uma ação física.

É um absurdo um homem associar o estado civil de uma mulher a algo que demonstre que ela é capaz de pensar e que fará melhores escolhas diante das urnas. Nesse mundinho utópico que há na cabeça de Paulo Figueiredo, me questiono onde ficam as mães solo, as mulheres solteiras ou as que foram literalmente abandonadas pelos maridos? Paulo as considera seres de inteligência discreta, sem qualquer tipo de capacidade intelectual para votar. Ou seja, para Paulo, as mulheres que não têm um homem ao lado não possuem intelecto para decidir os rumos do país.

A fala é o suprassumo da misoginia. A culpa é das mulheres pelo Brasil ser governado por um partido de esquerda. Mesmo não sendo direto, ele culpa as mulheres por estar foragido nos Estados Unidos. E elas são culpadas por tudo. Uma, inclusive, pela existência dele sobre esta Terra.

Para ele, o feminismo trouxe consigo a destruição das famílias, já que as mulheres estão se separando mais, casando-se menos e votando mal. O intelectual, que afirma ter sido um guru de Olavo de Carvalho, jamais imagina que talvez as mulheres estejam se casando menos porque possuem o direito de fazer o que querem da vida e passaram a entender que a felicidade delas não está necessariamente atrelada a um homem. A mulher entendeu que pode ser feliz sozinha, sem filhos. Do mesmo modo que pode se sentir feliz casada e com filhos. Ou sozinha e com filhos. Ou casada e sem filhos. Mas, para ele, o feminismo é a causa do aumento da infelicidade entre mulheres que vivem em países onde o movimento prospera. Segundo o influencer, “as mulheres nunca foram tão infelizes como agora”.

Paulo tem dificuldade em aceitar que as mulheres passaram a entender que não precisam viver em um relacionamento abusivo apenas para servir de fachada perante a sociedade. Não precisam estar sorrindo durante o dia e sofrendo os mais diversos tipos de violência à noite, quando o companheiro chega em casa, apenas para parecerem “adequadas” perante leis criadas por homens e revestidas de contornos punitivistas, equivocadamente associados às religiões. Mesmo com esse conhecimento, as mulheres ainda são mortas pelos seus companheiros. Os mesmos que dizem amá-las. E afirmo com todas as letras: seu discurso contribui para que mais mulheres morram nas mãos de homens irracionais, como você tem se mostrado.

Paulo comete também violência política de gênero ao insistir que as mulheres devem reafirmar constantemente sua capacidade para conquistar espaço no meio político. Ao voltar a criticar Michelle por não apoiar Flávio Bolsonaro, insinua que ela não deve “ter lido um livro sobre política” na vida. Ou seja, que não entende nada da ciência que tem como objetivo promover o bem-estar da sociedade. Apenas ele. O grandão. O intelectual. O que sempre tirou nota 10 na escola.

O discurso de Paulo é o que qualquer homem abusivo faz. Ainda joga a direita no meio, vendendo-a como intolerante às diferenças, as quais ele reconhece existirem no mundo criado por Deus. Mas volto a afirmar: cada palavra dele é perigosa. “As pessoas que mais amo na vida são mulheres, tanto que tive duas.” Frase dita por ele no final do vídeo. Não soa familiar essa tática? Promover um discurso racista, homofóbico ou misógino e, depois, tentar amenizar a situação com uma frase bem construída para insinuar que o comentário não se caracteriza como criminoso, mas, sim, como algo inclusivo? Paulo não ama as mulheres. Arrisco dizer que nem mesmo a mãe, a esposa e as duas filhas. A prova disso é esse vídeo, no qual a maior parte do tempo é dedicada a criticá-las.

Paulo é um machista confesso, como vários que existem por aí e que usam o campo da direita para difundir um discurso de ódio que tem tornado a convivência humana insustentável. E, como manda o modus operandi, ele termina o vídeo com um versículo bíblico. Cita João 8:32, que afirma que “a verdade vos libertará”. Mas o que Paulo esquece é que a Bíblia não especifica uma verdade absoluta. Ele vende a dele, mas será que é a verdade descrita no livro sagrado por Jesus Cristo? Fica o questionamento…