*Emídio Brasileiro, Educador, Jurista e Cientista da Religião

Eclesiastes é o vigésimo quinto livro da Bíblia e o quarto entre os escritos poéticos e sapienciais do Antigo Testamento. A tradição hebraica atribui sua autoria a Salomão (970–931 a.C.), conhecido por sua sabedoria. O termo “Eclesiastes”, de origem grega, significa “o pregador”.

Com 14 capítulos, o livro pode ser dividido em cinco partes fundamentais:

I – Introdução: o tema da vaidade humana (1:1-11).
II – A busca de sentido em todas as coisas (1:12-2:26).
III – A soberania de Deus e os limites humanos (3:1-5:20).
IV – As vaidades da riqueza, da sabedoria e da vida terrena (6:1-8:17).
V – A certeza da morte e o dever de temer a Deus (9:1-12:14).

A obra apresenta o Pregador, filho de Davi e rei em Jerusalém, que declara: “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade.” A frase sintetiza o tema central do livro: a transitoriedade de todas as coisas humanas. Ao observar o ciclo da natureza e a repetição dos acontecimentos, o autor conclui que nada é novo “debaixo do sol” e que as realizações humanas se dissipam com o tempo. A memória das pessoas e das obras se apaga, revelando a fragilidade da existência e levando à reflexão sobre o sentido da vida diante da efemeridade do mundo.

O Pregador afirma ter recebido de Deus a missão de investigar com sabedoria tudo o que ocorre debaixo do sol. Em sua busca, percebe que o aumento do conhecimento também traz inquietação, e que a sabedoria humana, embora superior à insensatez, não elimina a dor nem satisfaz plenamente o espírito. Ao se dedicar aos prazeres e às conquistas materiais, realiza grandes obras e acumula riquezas, mas conclui que tudo é vaidade, já que a morte iguala sábios e tolos e o fruto do trabalho pode ser perdido. Ainda assim, reconhece que desfrutar do trabalho, comer, beber e alegrar-se com o que se tem é um dom de Deus. Dessa forma, propõe uma primeira resposta ao dilema humano: viver com sabedoria e aceitar com serenidade a vontade divina.

O texto também destaca a ordem do tempo estabelecida por Deus: “há um tempo determinado para cada propósito debaixo do céu: nascer e morrer, plantar e colher, chorar e rir, amar e aborrecer”. Essa alternância revela a soberania divina e os limites humanos diante do mistério da existência. O autor observa as injustiças do mundo, o sofrimento dos justos e a opressão dos fracos, mas mantém a convicção de que Deus julgará todas as ações. Valoriza ainda a amizade e a cooperação, afirmando que “melhor são dois do que um”, pois um auxilia o outro. Também adverte contra a irreverência diante de Deus, recomenda prudência nas palavras e sinceridade nos compromissos. Denuncia o apego às riquezas, que gera inquietação e vazio, e ensina que a verdadeira alegria está em aceitar com gratidão o que Deus concede. Assim, conclui que a felicidade não depende da abundância material, mas do reconhecimento de que tudo provém das mãos divinas.

O Pregador observa que muitos acumulam riquezas e honras, mas não conseguem desfrutar o que possuem, pois o desejo é insaciável e a morte iguala ricos e pobres. Defende que é melhor aceitar com gratidão o que Deus concede do que perseguir incessantemente o que não se alcança. Reflete também sobre os limites da sabedoria: ela orienta o homem, mas não revela plenamente os mistérios divinos. Por isso, exorta ao equilíbrio — evitando tanto o excesso de justiça quanto a impiedade —, pois a verdadeira prudência consiste em temer a Deus. Diante das injustiças da vida, recomenda alegria moderada e valorização das coisas simples, como o alimento, o vinho e o trabalho. Conclui que a sabedoria humana não é capaz de compreender integralmente as obras de Deus, sendo a reverência e a humildade os caminhos para a verdadeira sabedoria.

O livro reforça que todos, justos ou ímpios, sábios ou tolos, compartilham o mesmo destino: a morte. Por isso, convida à simplicidade, à gratidão e ao desfrute dos dons da vida, com consciência de sua brevidade. Valoriza a sabedoria, mas alerta para o poder destrutivo da insensatez, recomendando prudência, domínio da linguagem e discernimento. Também incentiva a prática do bem e a confiança em Deus, lembrando que todas as ações serão julgadas.

Ao final, exorta o jovem a alegrar-se em seus dias, sem esquecer o Criador antes da velhice, descrita poeticamente como o declínio da vida humana e o retorno do espírito a Deus. O livro conclui afirmando que o dever essencial do homem é temer a Deus e guardar seus mandamentos, pois Ele julgará todas as obras. Assim, Eclesiastes ensina que, embora tudo seja “vaidade” sob o sol, a vida encontra sentido na fé, na humildade e na obediência à vontade divina.

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