Gilberto Gil e um fã
24 junho 2026 às 09h45

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Um dos maiores artistas do mundo, não só o da música, vai completar 84 anos nesta semana. E, como nas propagandas de loja em alto-falante de quermesse, quem ganhou o presente foi o autor destas linhas. Bem antecipado, inclusive, mais perto do meu aniversário (23.jan) que do dele (26.jun). Encontrei Gilberto Gil em 2 de fevereiro de 2026 na casa de José Mussi, amigo em comum completamente incomum: é 1 dos maiores antiquários de Brasil e Portugal.
Salvador festejava Iemanjá, homenageada a partir do título de uma parceria de Gil com o ator Othon Bastos. Na canção, contam a história de Mané, que partiu para pescar e estava demorando. Sua mulher foi à praia rezar pela volta, mas a Rainha do Mar o queria. A esposa clamou a Deus, que a atendeu: a jangada trouxe pouca pesca, mas o marido veio junto, salve Nossa Senhora, salve Nosso Senhor.
Iemanjá surge em outro clássico, “Beira Mar”, de Gil e seu conterrâneo Caetano Veloso, irmão de Maria Bethânia, que se tornou octogenária dias atrás (18.jun.2026). A grande dupla da Bahia canta que a cor de sua devoção é o azul:
“Não qualquer azul, azul
De qualquer céu, qualquer dia
O azul de qualquer poesia
De samba tirado em vão
É o azul que a gente fita
No azul do mar da Bahia
É a cor que lá principia
E que habita em meu coração”
Oportunidade tamanha, nem se tivesse dado um salve a Nossa Senhora, outro a Nosso Senhor. Não perdi a chance. Para rememorar criações inesquecíveis assim, puxei conversa e fomos esticando. Falamos a respeito de sua trajetória e de seu repertório. Tietando alguém de quem sou fã, perdi o senso e cantei um pouco de seu portfólio que trago na mente há coisa de meio século. Minha voz era abaixo do nível, todavia, em meio às raridades dos séculos 17 a 19 juntadas por Mussi, ao menos as letras elevavam o patamar.
Caipira de Goiás, comecei por minha predileta, “Lamento sertanejo”, que em parte me descreve, em toda parte me torna feliz, principalmente com Gil e Dominguinhos:
“Por ser de lá / Do sertão, lá do Cerrado / Lá do interior do mato/ Na certa por isso mesmo/Não gosto de cama mole/ Não sei comer sem torresmo”. Gil concordou que representa imensa fatia do Brasil.
Disse-lhe que “Refestança” foi o 1º show seu a que assisti, no Ginásio de Esportes da Vila Canaã, Goiânia, em 1977. Como no espetáculo, ali, na presença da estrela, desatei os cintos da insegurança e cantei para ele a música que dá nome à turnê e ao disco gravado com Rita Lee, “que a esperança é vontade, que a bonança é verdade, que a verdade é amar”.
Os 2 artistas vinham sendo perseguidos pelos militares e a censura da Idade Média estabeleceu 18 anos como idade mínima para entrar no local. Eu tinha 16 e decidi correr o risco. Comprei o ingresso normalmente, aguardei, fui para as catracas com aquela cara de adulto responsável, ninguém me pediu Carteira de Identidade e tive a leve impressão de que entrava tarde. Entrei e esgoelei todas as músicas, como ali, na sala de Mussi, em tom mais baixo e audiência mais alta em exigência, nela os também ex-parlamentares Antônio Carlos Júnior e Joaci Góes.

Como o Código Civil considera o filho socioafetivo e o natural igualmente legítimos, sou irmão de ACM Jr., pois Antônio Carlos Magalhães me adotou. Fui colega dos 2 no Senado e procurei retribuir ao herdeiro do líder um naco do que aprendi com o pai. Sucedi, um mandato depois, ACM na Comissão de Constituição e Justiça, em que ACM Jr. se sobressaiu em relatorias importantes. Testemunhei que a inteligência e o acolhimento podem ser questão de genética, pois o tímido economista brilhante herdou a sabedoria do bacharel em medicina e doutor em política e gestão. Enquanto isso, ACM Jr. testemunhava ali o que tenho: só o que Deus me deu, como decretou João Gilberto, nada da garganta privilegiada tipo a do outro Gilberto.
Para os padrões rodriguianos, Joaci Góes só não é unanimidade na Bahia por ser intelectual. Bem-sucedido no ramo do empreendedorismo, teve uma carreira no Legislativo, foi deputado federal na turma que redigiu a Constituição de 1988 e agora se dedica à cultura. No Estado, integra a Academia de Letras e preside o Instituto Histórico e Geográfico. Tenho um cliente que ambos admiramos, o almirante Almir Garnier. Eventual boa impressão que poderia ter deixado ao novo amigo certamente se dissipou quando me ouviu recitar sem ritmo os versos de Gilberto Gil.
Antes de a noite se desmanchar na boca do dia, entoei para ele um trechinho de “O sonho acabou dissolvendo a pílula de vida do doutor Ross na barriga de Maria”. Gil se admirou:
“Ih, aí é coisa velha mesmo.”
Havia relatado que o conhecia desde “Domingo no parque”, pois minhas irmãs torciam para ele nos festivais, no caso, o 3º de MPB na TV Record. Neste, apesar de nosso entusiasmo longe do teatro, ficou em 2º lugar, atrás da belíssima “Ponteio”, que Edu Lobo fez com José Carlos Capinam e cantou com Marília Medalha. Ih, aí é coisa novíssima mesmo, pois as de Gil e Edu estão dentre as maravilhas da humanidade elaboradas no Brasil.
Passou da saudade para a emoção ou um misto dessas duas palavras que o imortal da Academia Brasileira de Letras Bem Compostas conhece no íntimo, quando lhe disse que meses antes, em 26 de abril de 2025, havia visto em São Paulo seu show da turnê “Tempo Rei”. Nele, ouvimos embevecidos o dueto com a filha Preta Gil, que 7 semanas depois partiria para o azul, não qualquer azul, azul de qualquer céu, qualquer dia, o azul de qualquer poesia, de samba tirado em vão: é o azul que a gente fita no azul do mar da Bahia, é a cor que lá principia e que habita em nosso coração.
Mais 84 anos de poesia, samba e mar para Gilberto Passos Gil Moreira, tesouro do nosso tempo, de qualquer tempo, que ofusca até as preciosidades de Mussi dos 4 séculos passados.
Demóstenes Torres, 65 anos, é ex-presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, procurador de Justiça aposentado e advogado.
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