Alessandra Lobato

Repórteres e assessores estavam atentos aos comentários e às conversas paralelas, mas principalmente à ausência do presidente dos Estados Unidos, que faltava para compor a mesa oval com os líderes mundiais do G7. Ele chegou atrasado, momentos depois do presidente francês, Emmanuel Macron, sugerir o início da cúpula sem ele. Porém, Donald Trump não estava satisfeito com a atenção recebida por sua chegada tardia, porque, logo em seguida, esboçou a seguinte frase diante de seus colegas de profissão: “Eu sou o chefe”. 

Entre risadas e olhares desconfiados, os líderes do G7, que se reuniram entre os dias 15 a 17 de junho, na cidade de Évian-les-Bains, na França, deixaram essa passar, assim como tantas outras atitudes do governante americano. Contudo, a palavra “chefe” não foi usada despretensiosamente por Trump, ela indica o reforço de uma estrutura hierárquica global, em que os Estados Unidos é quem detém a autoridade e possui o papel de comando. Alemanha, Canadá, França, Itália, Japão e Reino Unido seriam apenas subordinados, então? 

Desde o início do segundo mandato de Trump, líderes mundiais se tornaram mais atentos e parcimoniosos com os Estados Unidos. E não seria diferente com os membros restantes do G7, porque apesar de estarem entre as maiores potências econômicas e democráticas do mundo, eles ainda estão à mercê das atitudes americanas. Entretanto, Trump consegue ir além do esperado e causar um forte impacto, com discursos de anexação de territórios, como a Groenlândia, tarifas adicionais e uma possível retirada de forças militares do continente europeu. 

E, assim, com apenas uma palavra, o chefe de Estado americano impõe a sua chefia unilateral. Afinal, Trump ainda vive a década de 90, período em que os Estados Unidos ascenderam como uma superpotência global, logo após a queda da União Soviética. Ao continuar se isolando e tomando decisões desacompanhado de seus colegas, ele parece desconhecer o multilateralismo, mesmo diante de crises transfronteiriças, como a emergência climática e o colapso das instituições internacionais. 

As tratativas da cúpula até tentaram iniciar sem Trump, mas o complexo de superioridade dele não permitiria que os problemas do mundo fossem discutidos sem os Estados Unidos. Dessa forma, o protagonismo vilanesco dos EUA não foi abordado, visto que pautas necessárias como a transição energética, o apoio às organizações internacionais e cumprimento de seus tratados, além do papel dos países nos conflitos mundiais, como a Guerra da Ucrânia e a Guerra do Irã, foram deixadas de lado ou pouco ressaltadas. 

Contudo, os temas debatidos no G7 só reafirmaram a subordinação dos membros em relação aos Estados Unidos, visto que buscavam manter o interesse de Trump e sua permanência na reunião. Alguns chegaram a apontar que os textos foram moldados para agradar o presidente. Narcotráfico, segurança das cadeias de fornecimento de minerais críticos e tráfico de migrantes foram alguns dos nove temas endossados pelo grupo fundado em 1975, como resolutiva à crise do petróleo de 1973, e que atualmente parece reproduzir ordem mundial assimétrica em que se tenta manter a hegemonia estadunidense.

Diante de tais subordinados, o multilateralismo pede socorro a países que não se renderam às exigências do “chefe” americano. O que ressalta a importância de grupos como o Brics+, que preza a cooperação multilateral sem hierarquias e debate questões transfronteiriças relevantes a todos. O multilateralismo pode até estar em crise, mas ele não precisa que o “Coyote” o jogue no penhasco. Assim, torcemos, para que, como no desenho, seja o autoconfiante e mirabolante coiote que caia.

Alessandra Lobato é acadêmica do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Goiás