A Copa do Mundo que exclui parte do mundo
02 julho 2026 às 17h11

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Anna Cler Meirelles
O maior evento esportivo global, a Copa do Mundo, teve seu início, politicamente, muito antes da abertura, em 11 de Junho. O prêmio da Paz da Fifa, distinção criada em dezembro de 2025, teve como seu único e primeiro ganhador o presidente estadunidense, Donald Trump.
Com esse – pouco sútil – ato, a Fifa mostra a posição do atual presidente da instituição, Gianni Infantino, perante o governo hegemônico trumpista. A situação se torna ainda mais constrangedora com as agressões óbvias à diversidade étnica e racial realizadas pelos EUA. Como a organização de um evento multicultural e diverso demonstra tamanho apoio a atos políticos assim?
É importantíssimo ressaltar os megaeventos esportivos como uma peça essencial para realce do poder geopolítico, não sendo algo, portanto, comum apenas aos Estados Unidos, ou aos outros dois países que sediam a Copa – Canadá e México
Até mesmo países do Brics+ visaram inserir-se cada vez mais neste meio futebolístico, fato percebido nas edições de 2010, 2014 e 2018, que foram sediadas, respectivamente, na África do Sul, no Brasil e na Rússia. A Fifa sofreu uma transformação para se tornar uma potência política. Afinal, essa é a instituição parte da hierarquia global que rege um esporte cultural capaz de ligar países do Sul Global à outra ponta do mapa
Sendo assim, por que motivo se menciona a imagem estadunidense no maior evento esportivo de 2026? Pode-se responder a essa pergunta ao ver que as ações da atual hegemonia ultrapassam apenas o que é perceptível ao interesse acadêmico, como as questões do soft power, ou “poder brando”, proposto por Joseph Nye. E sim, são perceptíveis ao olho público como um todo.
A deportação de Omar Artan, árbitro somali — eleito o melhor do continente africano em 2025 — é um caso que escancara como as políticas internas de um país podem se sobressair ao interesse supranacional e de inclusão.
A Copa do Mundo é, para Trump, um projeto político em si. Excluir culturas específicas, como as latinas, africanas e orientais, do maior evento popular multicultural condiz com a imagem que os Estados Unidos projeta mundialmente.
Afinal, o caso de Omar foi além de um algo exclusivo e absurdo – há um rol de deportações e inquirições ao qual diversos indivíduos foram submetidos A semelhança entre todos os afetados? Pessoas do Sul Global. Segue-se um padrão racial e étnico na escolha de países periféricos no sistema internacional como principais afetados pela discriminação estadunidense.
A cumplicidade da Fifa, como agente de poder no sistema internacional, é inegável. Essa Copa pode movimentar até 30,5 bilhões de dólares (cerca de 160 bilhões de reais), mas outro custo em si chega a ser maior e ocorre por fora dos campos de futebol.
Das 104 partidas do campeonato, 78 são sediadas em cidades estadunidenses rodeadas pelo ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA. Sendo este apontado, em cobertura midiática global, como cruel e discriminatório em seus meios, como separação de famílias e deportações infundadas, e motivos xenófobos.
Não por acaso, é justamente a Fifa quem acoberta cada um desses episódios. A entidade, proclamada como guardiã do esporte como ferramentas de paz e integração entre povos, escolhe diariamente e deliberadamente a não interferência. Tem como posição final que decisões migratórias são responsabilidade exclusiva dos países anfitriões, lavando suas mãos diante do que ela mesma ajudou a construir
Assim, há aparente ironia: a mesma Copa, que pausa o mundo todo para entretenimento, não abriga verdadeiramente este “mundo”, como um todo. As quatro últimas Copas implementaram sistemas de prioridade vinculados àqueles que compareceram ao evento presencialmente.
No entanto, a situação atual prioriza apenas os países mais ricos. E isso não é uma escolha feita às pressas ou sem pensar, mas, sim, uma estratégia política que deixa claro a escolha estadunidense e da Fifa. A Copa do Mundo mais cara e lucrativa é, também, a mais excludente.
Anna Cler Meirelles é acadêmica do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Goiás



