Política é feita de sinais. Durante a minha trajetória no jornalismo, escutei essa frase por diversas vezes. Nada na política é despretensioso. Tudo tem um motivo. E, muitas vezes, o significado não vem no agora, mas meses depois ou até anos mais tarde. Meu colega Euler de França Belém sempre diz que uma eleição é o ensaio para outra. Nesta lógica, 2026 é o ensaio para 2028, que se refletirá em 2030. Mas parece que a dança que a esquerda tem feito em Goiás não leva a disputa para os próximos campeonatos ou, no máximo, um coadjuvante apagado.

A demora para escolher um nome para ser colocado como pré-candidato foi o primeiro sinal de que o planejamento — se é que houve um — foi pífio. E escolheram um nome que não tem agradado a todo o campo: Luis Cesar Bueno. Até o momento, ele é o pré-candidato ao governo de Goiás pelo PT, partido mais expressivo da esquerda e do presidente Lula da Silva, que também busca a reeleição. Diante disso, o presidente entende que é importante ter palanques fortes nos estados para que seu projeto político possa vingar.

Apesar de o eleitorado de Goiás representar pouco mais de 3% dos eleitores aptos de todo o Brasil, seria importante ter um representante à altura para fazer palanque para a reeleição de Lula. Afinal, isso não é um capricho apenas do PT, mas de qualquer partido que tenha um postulante à Presidência da República.

Só que todo o campo da esquerda em Goiás tem se mostrado muito perdido. Luis Cesar Bueno tem sua história na política: foi vereador por duas vezes na capital e deputado estadual por quatro mandatos. Mas lhe falta capilaridade política para conseguir unificar o campo em torno do seu projeto. Se continuar da forma como está hoje, arrisco dizer que Lula sequer aparecerá em Goiás durante a campanha eleitoral. E isso também enfraquece o nome do postulante ao Executivo estadual do partido. Soa como um: “Se nem o presidente apoia, eu vou apoiar por quê?”.

Adriana Accorsi era a preferida e tenta, há algumas eleições, conquistar êxito em um cargo majoritário. Mas sem sucesso. A situação se inverte nas disputas para deputada federal. Ela obteve uma votação expressiva, com 96.714 votos, sendo a sexta deputada federal mais votada entre os 18 eleitos. Seu desempenho puxou Rubens Otoni para garantir uma cadeira na Câmara dos Deputados. A presidente do PT em Goiás sabe que o partido também enfrenta uma alta rejeição no Estado. Concorrer ao Executivo, em vez de tentar novamente uma vaga no Legislativo, seria trocar o “certo pelo duvidoso” — a expressão está entre aspas porque, na política, tudo pode acontecer.

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Adriana Accorsi, deputada federal e presidente do PT em Goiás | Foto: Reprodução

Em meio às preferências, surge o nome de Aava Santiago, presidente do PSB em Goiás. Com sua capacidade crítica e articulação invejável, Aava tem ganhado espaço no imaginário do eleitorado da esquerda goiana. Nos últimos anos, conquistou projeção política nacional, passou a ter um trânsito importante no Palácio do Planalto e ainda conseguiu superar uma barreira política: é evangélica, segmento que tradicionalmente tem maior afinidade com pautas defendidas pela direita. Aava permaneceu fiel à sua religião e seguiu dialogando com o campo progressista. O resultado apareceu nas urnas: saltou de 2.865 votos, em 2020, para 10.482, em 2024.

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Aava Santiago: vereadora sinaliza a seu projeto para deputada federal | Foto: Samuel Oliveira/Jornal Opção

Vendo que o palanque está incerto e desorganizado, Lula chamou Adriana e Aava para uma conversa em Brasília na última semana. Durante o encontro, que durou cerca de duas horas, o presidente lançou mão de argumentos para convencê-las a disputar cargos majoritários. O cenário ideal para Lula seria Aava candidata ao Senado e Adriana ao governo de Goiás. Ao Jornal Opção, Aava afirmou que o presidente não foi incisivo e que respeita a decisão de ambas de manterem seus projetos para a Câmara dos Deputados, mas pediu que refletissem sobre a possibilidade.

Aava reforçou seu compromisso em fortalecer o PSB em Goiás, mas não descartou a possibilidade de “se sacrificar por esse projeto”, dando a entender que pode, sim, atender ao pedido do principal líder do PT. Conforme noticiado pelo Jornal Opção, Adriana já comunicou ao presidente nacional do PT, Edinho Silva, que disputará uma vaga de deputada federal, descartando a sua participação na corrida ao Palácio das Esmeraldas. Aava também reafirmou seu projeto para a Câmara dos Deputados.

Aava e Adriana: Lula queria que as duas fossem candidatas majoritárias em Goiás | Foto: reprodução/redes sociais

Se essas posições forem mantidas, a chance de a esquerda construir um palanque forte para Lula — e até mesmo lançar um candidato competitivo ao governo — torna-se quase nula.

Enquanto isso, a direita parece muito mais organizada, pelo menos em Goiás. Daniel Vilela, pré-candidato à reeleição, conta com uma “superbase”, formada por grandes partidos, como MDB, União Brasil, PSD, PP, Republicanos, entre outros. Além de dispor da máquina pública, Daniel tem investido de forma expressiva em inteligência artificial para fortalecer políticas públicas em diferentes áreas, da segurança à saúde, passando pela modernização de processos administrativos para melhorar a experiência do cidadão.

Wilder Morais, apesar de ainda discreto em sua movimentação estadual como pré-candidato pelo PL, pode ser beneficiado pela força do bolsonarismo em Goiás. Sua imagem tende a ser vinculada, aos poucos, ao nome que vier a ser escolhido por Jair Bolsonaro para disputar a Presidência da República — atualmente é o de Flávio Bolsonaro. Pode-se discordar de sua forma de fazer política, mas ele ao menos se colocou como pré-candidato com certa antecedência, o que representa um avanço na organização do campo para o processo eleitoral.

Marconi Perillo, pré-candidato pelo PSDB, tem retomado espaço gradualmente e apostado na memória afetiva do eleitor para reconstruir sua imagem e encontrar um lugar na disputa. O tucano foi governador de Goiás por quatro mandatos e também senador. Ou seja, terá legados para apresentar ao eleitorado. E isso é reconhecido, inclusive, por alguns nomes que hoje integram a base do governo.

Com três pré-candidatos desse porte, a esquerda — que nunca governou Goiás — ainda se dá ao luxo de brincar de salada mista: de olhos vendados, tentando acertar quem será o pretendente escolhido. Para completar o cenário, o Psol goiano lançou a pré-candidatura de Cíntia Dias ao governo. É uma ótima debatedora, mas também possui pouca expressividade eleitoral para o tamanho do desafio que o campo enfrenta.

Diante de tudo o que está acontecendo, a sensação que fica é a de que não há diálogo entre as forças da esquerda. Ou, então, que cada grupo trabalha silenciosamente para não entrar na mira e acabar sendo escolhido para uma disputa considerada difícil. Com isso, não há um planejamento consistente para tentar reverter a baixa popularidade do campo em Goiás e construir um projeto capaz de chegar ao cargo máximo do Estado, no Palácio das Esmeraldas.

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