A “bondade” de Daniel Vorcaro não tem lado: vai da direita à esquerda e para no centro
20 junho 2026 às 21h00

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Preso há mais de dois meses sob a suspeita de realizar fraudes financeiras no liquidado Banco Master, a cada etapa da Operação Compliance Zero é possível notar que Daniel Vorcaro transitava em todos os espectros políticos do país. Com ele, não havia preferência de qual partido a pessoa era, desde que atendesse aos seus interesses. Nada de novo no nosso Brasil, não é mesmo?
As viagens caras, as festas regadas a muito luxo e ostentação, os camarotes privativos… o banqueiro não economizava esforços para agradar seus companheiros que, aos poucos, estamos descobrindo os seus interesses. Vale lembrar que o homem que hoje está privado da liberdade na Superintendência da Polícia Federal está sendo investigado por gestão fraudulenta, emissão irregular de títulos de crédito falsos e manipulação do mercado, além de formação de uma organização criminosa estruturada de forma semelhante a uma máfia, lavagem de dinheiro e corrupção.
Após a novela transitar muito entre a direita e o centro, agora o personagem da vez é a esquerda, sendo representada por Jacques Wagner, líder do governo Lula da Silva (PT) no Senado. Qual o enredo da vez: Daniel Vorcaro teria dado um apartamento no valor de R$ 2,5 milhões ao senador, além de ter pago propina no valor de R$ 3,5 milhões. Durante a operação, em um dos endereços em que o senador fica hospedado, foram apreendidos US$ 49 mil em espécie e uma coleção de relógios. Na Bahia, reduto eleitoral de Wagner, foram localizados mais dólares, euros e reais em espécie.
A operação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, que é relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). É claro que o episódio se tornou munição entre os políticos, que passaram a destilar um princípio de moral que tem existido mais na teoria do que na prática. A bancada do PL passou a destilar críticas, como Rogério Marinho, senador potiguar que disse que “o povo brasileiro precisa tomar conhecimento, contra ou na contramão da narrativa que o PT faz, que uma coisa é uma relação entre privados, outra coisa é uma relação de troca de favores entre o poder público e um privado que, de alguma forma, consegue se imiscuir de uma forma criminosa nos negócios do país”.
Líder da oposição no Congresso, Izalci Lucas tomou um tom mais ameno, mas disse que acha “que fica difícil para ele conduzir as reuniões aqui com essa investigação”.
Só que, quem tem telhado de vidro, não é bom apontar imediatamente na cara do outro. O discurso anticorrupção é lindo, mas não podemos esquecer que, recentemente, o protagonista desse episódio era Flávio Bolsonaro, que é pré-candidato à Presidência da República pelo PL. O filho número 1 de Bolsonaro teve áudios revelados em uma reportagem do The Intercept Brasil, em que foi flagrado pedindo dinheiro para Dark Horse, filme que contará a história do pai dele, Jair Bolsonaro.
O longa ainda será o mais caro da história do cinema nacional, onde foram investidos aproximadamente R$ 75 milhões, sendo que pelo menos R$ 61 milhões vieram dos fundos irregulares de Daniel Vorcaro. Apesar disso, a produtora do filme, GoUp Entertainment, e o produtor-executivo do longa, Mário Frias, afirmaram que a obra não teria recebido nenhum valor de Vorcaro ou do Banco Master.
A justificativa sobre ter escolhido uma produtora internacional para a realização do filme seria uma suposta tentativa de censura, caso o filme fosse produzido por uma empresa nacional. Outro ponto de embate seria o fato de uma transferência no valor de US$ 2 milhões para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e que tem como um dos responsáveis legais Paulo Calixto, advogado de Eduardo. Daí a investigação sobre se o valor teria sido utilizado para financiar a estadia dele nos Estados Unidos.
O postulante ao cargo mais alto do país negou qualquer intimidade com Vorcaro, mesmo com áudios trazendo ele chamando Vorcaro de irmão duas vezes. Ele disse que é “o jeito carioca de falar”.
Além disso, Flávio confirmou que visitou o empresário na casa dele, em São Paulo, assim que ele deixou a prisão para cumprir a pena domiciliar com monitoramento por tornozeleira eletrônica no final do ano passado.

Mas não para por isso. A Compliance Zero ainda investigou Ciro Nogueira, figurinha carimbada no Centrão, em Brasília. O senador piauiense teria recebido ao menos R$ 6 milhões em mesadas de Daniel Vorcaro, entre 2024 e 2025. A informação consta nos autos do processo que apura uma suposta fraude financeira na atuação do banco e que tramita no STF (Supremo Tribunal Federal), e que tem como relator o ministro André Mendonça.
Segundo os autos dos processos, Vorcaro e Ciro mantinham uma relação marcada pela “convergência de interesses ilícitos” e pela obtenção mútua de vantagens. O banqueiro teria transferido ao senador valores mensais de ao menos R$ 300 mil durante 20 meses.
Além da mesada, que forma um montante milionário, Ciro teria obtido um “benefício econômico direto” de pelo menos R$ 468 mil em despesas com viagens e refeições no exterior custeadas por Vorcaro.
Entre os episódios citados está uma viagem a Courchevel, tradicional estação de esqui nos Alpes franceses. Nos dias 21 e 22 de janeiro de 2025, Vorcaro teria arcado com R$ 122.112 em gastos de Ciro em dois restaurantes da região. Vorcaro ainda teria bancado hospedagem e alimentação do senador em cidades como Nova York, Paris e Lisboa. O valor, segundo a PF, não estima custos com voos particulares utilizados em ao menos três viagens internacionais de ida e volta ao Brasil, nem em dois deslocamentos realizados dentro dos EUA.
Ainda de acordo com a investigação, como eram “mais que amigos, friends”, Ciro teria atendido interesses de Vorcaro no Senado. A investigação mostrou, por exemplo, que minutas de propostas legislativas eram elaboradas por uma equipe de Vorcaro e enviadas a Ciro, para que o senador as apresentasse no Congresso.
Uma delas ficou conhecida como a “emenda Master”, que propunha aumentar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito), beneficiando diretamente o Master, que usava a garantia para atrair investidores.

Moral da história: não tem moral. As figuras políticas podem mudar de partido, passar da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, se fixar no Centro, mas a realidade é que ninguém está em vantagem para apontar o dedo na cara de ninguém.
A conjuntura desse texto mostra, inclusive, que interesses de pessoas de alto poder aquisitivo ganham uma celeridade maior do que pautas que realmente trazem impacto significativo para a grande maioria dos brasileiros, que é formada por pessoas que saem cedo para trabalhar e podem não conseguir, durante a sua vida, juntar nenhum dos valores que aqui foram citados.
As investigações da PF mostram que ainda há mais coisa para vir. E, da forma que estão trabalhando, corroboro com o início desse texto: que a “bondade” de Daniel Vorcaro não tem lado: passa pela direita, pela esquerda e para no centro.
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