“Dark Horse”, ou “O Azarão”: raramente o nome de um filme fez tanto sentido. E eu vou te explicar o porquê. A produção cinematográfica já virou assunto antes mesmo da estreia. A principal bomba envolvendo o longa tem nome: Daniel Vorcaro, dono do Banco Master — alguém de quem, atualmente, muitos preferem não lembrar qualquer proximidade. A polêmica ganhou força após reportagem do The Intercept Brasil revelar que Flávio Bolsonaro teria pedido dinheiro ao banqueiro para financiar a produção cinematográfica.

De acordo com a matéria, cerca de R$ 61 milhões teriam sido pagos entre fevereiro e maio do ano passado. Ao longo dos dias, novos desdobramentos vieram à tona. Apesar de a negociação ter sido conduzida diretamente por Flávio Bolsonaro, outros intermediários também participaram das tratativas, como Eduardo Bolsonaro (PL) e Mário Frias, ex-secretário de Cultura e produtor executivo do longa.

Em um primeiro momento, Flávio negou a informação, mas depois revelou a aliados que a relação com o banqueiro foi “exclusivamente para pedir dinheiro para o filme de Jair Bolsonaro”. “O que acontece é que, com o passar do tempo, ele simplesmente parou de honrar as parcelas do contrato. Sim, existia um contrato e, caso essas parcelas deixassem de ser pagas, havia uma grande chance de o filme sequer ser concluído ou veiculado. Em função disso, inclusive, procuramos outros investidores para finalizar o projeto”, disse Flávio na ocasião.

O senador também afirmou a diversos veículos de imprensa que havia uma cláusula de confidencialidade no contrato do filme, o que o impedia de revelar a relação com o banqueiro. Além disso, admitiu o envio de recursos de Vorcaro para uma conta do advogado de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto, nos Estados Unidos.

A reportagem do The Intercept Brasil também revelou um áudio em que Mário Frias agradece ao banqueiro pelo apoio financeiro ao projeto. A gravação foi enviada em 11 de dezembro de 2024 e, nela, o ex-secretário afirma que manteria Vorcaro informado sobre o andamento do longa.

“Só te agradecer, meu irmão. Vamos mexer com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país, tá? Preciso, de vez em quando, te falar como as coisas vão andando, tá?”

Mas as polêmicas vão além. Karina Ferreira da Gama, dona da produtora responsável pelo filme, a Group Entertainment, nunca lançou um longa-metragem, seja no Brasil ou no exterior. Em entrevista recente à TV Globo, ela informou que o filme está orçado em US$ 13 milhões e que o montante investido por Vorcaro corresponde a 92% do orçamento atual. Apesar disso, afirmou que o banqueiro teria atuado apenas como intermediário dos valores, e não como doador direto ao projeto.

“Quando ele [Vorcaro] foi preso, a gente já estava filmando. Eu tinha folha de pagamento para quitar, profissionais para receber. E nenhum deles sentiu o impacto porque todo mundo arregaçou as mangas. ‘Gente, vamos ver onde a gente ajuda, quem pode apoiar’. Nossa vida, todos os dias, era falar com pessoas da iniciativa privada que pudessem apoiar o projeto.”

Apesar disso, Karina admite que, após a prisão de Vorcaro, os responsáveis pelo filme precisaram buscar novos investidores para viabilizar a produção. Ela afirmou ainda que o banqueiro foi procurado por Flávio Bolsonaro em 2024, “quando não havia nenhuma informação contra Vorcaro”.

Mesmo assim, Flávio Bolsonaro já citou Vorcaro como investidor e patrocinador de “Dark Horse”, e não apenas como intermediador. Segundo investigações da Polícia Federal, a produção teria recebido recursos da empresa Entre Investimentos e Participações, ligada ao banqueiro.

Polêmicas no set

Além das questões financeiras, a produção também foi alvo de denúncias sobre más condições de trabalho durante as filmagens em São Paulo. Cerca de 15 pessoas registraram reclamações no Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões no Estado de São Paulo (Sated-SP). Os relatos incluem agressões físicas e revistas pessoais consideradas constrangedoras no set.

O relatório sobre as condições trabalhistas durante as gravações foi divulgado em dezembro, mas os problemas ainda não foram solucionados. A Go Up Entertainment chegou a firmar um acordo “para apresentar os contratos e regularizar as questões pendentes”, mas, posteriormente, teria se recusado a cumprir o combinado.

O caso também é investigado pela Procuradoria Regional do Trabalho em São Paulo, ligada ao Ministério Público do Trabalho (MPT-SP). O órgão apura denúncias de assédio moral e agressões físicas durante a produção do filme. “O MPT informa que abriu inquérito para investigar denúncias de irregularidades no meio ambiente de trabalho ocorridas no set de filmagem de documentário em produção. A investigação segue seu rito normal”, informou a instituição em nota.

Ao jornal O Globo, um ator de 21 anos afirmou ter sido agredido durante uma diária de gravação no Memorial da América Latina, em 21 de novembro de 2025. Ele atuava como figurante e teria entrado no set com um celular, o que não era permitido. Durante a revista, afirma que foi arrastado e empurrado para fora do espaço, além de receber tapas e socos. Segundo ele, não havia local adequado para guardar o aparelho.

Sobre os pagamentos, figurantes recebiam R$ 100 por diária e foram informados, no momento da contratação, de que o valor seria pago em até 15 dias. No entanto, muitos afirmam que o prazo expirou sem que o pagamento fosse realizado.

“Passou o prazo, e questionei a efetivação do pagamento. Fui informada de que seriam 15 dias úteis. Depois desse período, recebi uma nova justificativa: o pagamento só seria feito após 30 dias da filmagem, prazo que não havia sido combinado inicialmente. Desde então, tenho tentado contato para obter uma posição, mas o contratante demora a responder e, quando responde, é ríspido e mal-educado. O valor combinado pela diária foi de R$ 100 e, até o momento, não houve pagamento nem esclarecimento definitivo sobre o prazo”, relatou uma atriz no início de dezembro.

Além disso, havia cobrança de R$ 10 pelo transporte até os locais de gravação, valor descontado do cachê da diária. Em relação à alimentação, as reclamações apontavam tratamento desigual entre atores brasileiros e americanos. Os brasileiros recebiam apenas um kit lanche para jornadas que, em alguns casos, ultrapassavam oito horas. Já os atores americanos tinham direito a café da manhã, almoço e lanche da tarde.

Roteiro

O roteiro do filme, escrito em inglês, apresenta Bolsonaro como um candidato provocador e “azarão” (dark horse), que desafia o sistema político brasileiro. A narrativa alterna entre debates acalorados, momentos íntimos com a família e uma trama de conspiração liderada por Paulo Pontes, também chamado de “Cicatriz”, um traficante que contrata Adélio Bispo — identificado no roteiro como Aurelio Barba — para assassinar o então candidato.

Em outro trecho, Bolsonaro é descrito como um capitão que colocou a própria carreira em risco ao denunciar corrupção dentro da hierarquia militar, o que teria resultado em prisão e corte marcial na década de 1980. O episódio é tratado como o catalisador de sua entrada na política.

No longa, sua ascensão política ocorre após anos como um deputado federal “obscuro”. Em 2018, ele emerge como líder da coalizão “Boi, Bíblia e Bala”, prometendo romper com o sistema político. O personagem utiliza um estilo de comunicação direto e agressivo, frequentemente atacando a imprensa e a esquerda.

Um dos finais alternativos do roteiro mostra Paulo Pontes em uma reunião secreta com homens influentes, entre eles alguém descrito como uma pessoa que “poderia ser um ministro da Suprema Corte”. Eles desligam a televisão que transmitia a posse de Bolsonaro, simbolizando a continuidade de uma oposição oculta.

Mas e aí, o filme vai sair?

O longa sobre a vida de Bolsonaro ainda é investigado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), já que a produção não teria comunicado oficialmente a realização do projeto à agência. Pelas normas da Ancine, produzir uma obra cinematográfica estrangeira no Brasil sem a devida comunicação pode gerar multas entre R$ 2 mil e R$ 10 mil.

Falado em inglês, o filme é estrelado, dirigido e escrito por americanos. A produtora responsável, a Go Up Entertainment, tem sede no estado da Califórnia, nos Estados Unidos, segundo informações do próprio site da empresa. Apesar disso, também está registrada como agente econômico na Ancine desde julho de 2025, com sede em São Paulo.

Até o momento, a empresa não apresentou pedido de registro nem para as gravações nem para o lançamento comercial do filme no Brasil. Além disso, a produção também foi alvo de processo movido por Beyoncé, após um teaser utilizar a música Survivor sem autorização da cantora. Diante de tantos acontecimentos, dá até para entender por que o longa recebeu o nome de “O Azarão”.

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