Imagina você sair de casa para o trabalho, começar o seu difícil ofício diário e, no momento em que realiza as suas funções, ser surpreendido com desrespeito, hostilidade e violência? Infelizmente, essa tem sido a rotina de diversos coletores de lixo pelo Brasil. Diariamente, diversos trabalhadores desse segmento têm sido vítimas de agressões físicas e verbais constantes, sem qualquer tipo de fundamento.

O mais recente caso registrado mostra o quanto o ser humano anda cada vez menos empático e crente de que tudo pode ser resolvido à base de socos, murros e pontapés. Dois coletores, Thales Rangel e Bruno Bernardo, e o motorista Douglas Peres foram agredidos por um homem no momento em que realizavam a coleta do lixo no local. O caso aconteceu na Vila Mutirão.

Segundo as vítimas, o agressor pediu para que o motorista retirasse o caminhão do lixo para que ele pudesse ter acesso ao condomínio. O pedido foi atendido antes mesmo do fim da coleta de todo o material produzido naquele condomínio. O motorista retirou o caminhão da entrada para que ele passasse. Mesmo assim, o homem saiu violentamente de dentro do veículo e partiu com toda a fúria para cima dos trabalhadores.

Com um pedaço de pau, o homem conseguiu acertar a cabeça de um dos trabalhadores, Thales, que levou sete pontos devido a um corte provocado por um dos golpes. O que chama atenção é que, até então, ninguém chegou para separar a briga. Os trabalhadores se defenderam, estavam no seu direito. Também partiram para cima daquele morador e, somente assim, no momento em que o homem também apanhava, conseguiram cessar as agressões.

Douglas, Thales e Bruno trabalham porque precisam. Como qualquer pessoa que possa estar lendo este texto. Trabalhar não é hobby para ninguém. Acaba sendo uma obrigação necessária para colocar comida na mesa, luz e água dentro de casa e cobrir outros custos necessários de uma residência.

Ninguém merece ser desrespeitado no ambiente de trabalho. Isso é fato. Quando o ambiente de trabalho é as ruas, essa violência parece ganhar uma dimensão ainda maior. Você está exposto aos olhos do julgamento da sociedade, que não para para refletir sobre o descarte incorreto de alguns materiais, como seringas, vidro, entre outros.

A realidade é que, quando você está em uma posição de subserviência, algumas pessoas pensam que está no dever de aguentar qualquer tipo de situação. A humilhação se torna uma forma de mostrar superioridade por parte de um ser humano desprezível, que vê um coletor, um gari, um telefonista, uma caixa de supermercado ou qualquer outra pessoa do segmento de serviços em posição de inferioridade.

Douglas, Thales e Bruno têm histórias. São seres humanos. Trabalhadores. Que merecem respeito como qualquer outro. Em entrevista ao Jornal Opção, eles alegaram que sentem medo e até mesmo que se sentem invisíveis perante a sociedade. Uma prática muito comum quando as pessoas querem ignorar algo ao seu redor.

Essa invisibilidade não é distraída. Ela não é momentânea. Ela é reflexo de uma sociedade individualista e aporofóbica, ou seja, que tem aversão a pessoas com menos condições financeiras. Os pobres. A classe que acaba sendo marginalizada por servir e que, ao mesmo tempo, faz a roda da economia girar ou, neste caso, mantém o ambiente limpo e com mais qualidade de vida para os moradores.

As marcas vão além da agressão física. Bruno afirma que o psicológico fica abalado. Afinal, você não sabe se amanhã será agredido de novo e qual será essa forma de agressão. Hoje foi a física, mas há outra que também deixa marcas: a verbal. Comentários jocosos são recorrentes. Gestos como coçar o nariz para insinuar um odor desagradável são constantes e deixam os trabalhadores constrangidos. Até o acesso à água para beber é negado ou, muitas vezes, é oferecida apenas água quente para uma pessoa que passa oito horas embaixo de um sol forte durante a sua rota.

Goiânia tem se tornado um celeiro perigoso para os trabalhadores da coleta de lixo. Seja pela falta de consciência na separação dos resíduos ou pela falta de empatia de uma sociedade doente que quer tudo de imediato e do seu jeito, com o agravante de achar que a força física é capaz de resolver qualquer problema.

Outra equipe foi agredida exatamente nessas circunstâncias. Um homem foi visto agredindo e ameaçando coletores da LimpaGyn na semana retrasada. O agressor foi identificado como um perito criminal, que se achou no direito de ameaçar os trabalhadores por portar uma arma de fogo em vez de recorrer ao diálogo.

Em dezembro do ano passado, outra equipe foi agredida por lutadores de jiu-jítsu após deixar um saco rasgado de lixo para trás. Os coletores foram cercados por um grupo que partiu para cima dos profissionais. Não recolher um saco rasgado é orientação da empresa, o que demonstra a falta de cuidado de cada morador até mesmo com o acondicionamento dos seus resíduos.

Bruno, o trabalhador mais recentemente agredido, disse que, na semana anterior, havia se furado com uma agulha ao pegar uma sacola de supermercado, ou seja, sem qualquer tipo de identificação de que aquilo se tratava de um material perigoso. Afinal, naquele momento ninguém sabe com qual finalidade aquele instrumento foi utilizado, o que pode levar o trabalhador a ser exposto a algum tipo de infecção.

Além de todos os receios, há um ainda mais grave: o de perder a vida, como aconteceu com Laudemir de Souza Fernandes, de 44 anos. Ele era gari e foi assassinado a tiros pelo empresário Renê da Silva Nogueira Júnior. O caso aconteceu no ano passado, em Belo Horizonte (MG). Hoje, o empresário é réu e vai passar por júri popular, mas a família do gari nunca mais o viu depois daquele dia 11 de agosto.

Laudemir foi morto enquanto coletava o lixo nas ruas de BH | Foto: arquivo pessoal

A violência foi causada porque o homem se irritou com o trânsito provocado enquanto os trabalhadores recolhiam o lixo em um bairro da capital mineira. O empresário chegou a exigir que o caminhão deixasse a rua para que o carro dele passasse. Ele discutiu com a motorista do caminhão e, em seguida, desceu do veículo e atirou contra os coletores, momento em que Laudemir foi atingido. A indiferença do empresário com a vida do trabalhador foi tamanha que ele foi à academia após o crime, local onde acabou preso.

Empresário Renê da Silva Nogueira Júnior se tornou réu pela morte do coletor | Foto: montagem

A sociedade precisa rever os seus conceitos. Não adianta o discurso bonito nas redes sociais, de ser cristão, seguir os ensinamentos de Deus e não ter paciência com o próximo. Ou tratar o próximo com tamanha indiferença e desprezo, achando que você vale mais do que ele, que tem mais preferência devido ao seu poder aquisitivo ou que, por causa disso, é superior. Sinto lhe informar que, no final dessa trajetória, não há distinção quanto à nossa finalidade.

Respeito ao próximo é o mínimo para se viver em uma sociedade em harmonia. Se você está lendo este texto e já teve alguma dessas atitudes aqui descritas, repense os valores que defende. Ou melhor, passe a aplicá-los na prática e não fique apenas na teoria. Hoje destacamos as agressões contra Douglas, Thales e Bruno, mas quantas outras foram cometidas e permanecem engasgadas dentro desses trabalhadores? Imagine se a vítima dessas agressões fosse você. Empatia é simples: basta praticá-la.

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