A advogada Tana Paula, que integra a defesa do ex-pastor Davi Passamani, que foi preso em 2024 por acusação de assédio, afirmou ao Jornal Opção que a ação movida contra a Igreja Casa não busca recolocá-lo na liderança da instituição.

Segundo a advogada, o processo, protocolado em 25 de junho, trata de supostos casos de esvaziamento patrimonial, desvio de royalties da banda Casa Worship e confusão administrativa entre diferentes pessoas jurídicas ligadas ao antigo núcleo familiar do pastor. A equipe de reportagem obteve os autos do processo com documentos que, segundo a defesa, corroboram a ação.

Davi Passamani deixou a liderança da Igreja Casa após ser alvo de denúncias de assédio sexual feitas por fiéis em 2023. As acusações deram origem a investigações e processos judiciais, levando ao afastamento do pastor da direção da instituição. Posteriormente, ele foi preso preventivamente em 2024 no âmbito das investigações. Passamani nega ter cometido os crimes pelos quais é acusado e responde aos processos na Justiça.

Desde então, a igreja funciona pelo comando da ex-esposa de Davi, a pastora Giovanna Lovaglio, que também acusou o cantor de assediá-la sexualmente. Nas redes sociais, ela descreveu as acusações como um ataque estratégico e maldoso feito em um momento de fragilidade pessoal dela, acusando-o de calote no pagamento das pensões.

De acordo com a defesa, o principal questionamento é a transferência de ativos e das doações de fiéis para um novo CNPJ, mantido sob o nome “Igreja Casa” e funcionando no mesmo endereço da antiga Casa Ministério Cristão. Enquanto isso, segundo a ação, o CNPJ antigo, vinculado a Davi Passamani, teria permanecido apenas com as dívidas da instituição.

A defesa afirma que a atual administração é composta por integrantes do antigo núcleo familiar do pastor — entre eles a mãe, a filha e o genro — e sustenta que houve apropriação privada de uma entidade religiosa sem fins lucrativos.

Eles alegam que criaram um CNPJ novo para contornar a dívida da igreja, mas, na verdade, criaram um CNPJ com o mesmo nome, Igreja Casa, e toda a arrecadação passou a ser feita nesse novo documento”, afirmou Tana Paula.

Como indício do suposto desvio patrimonial, a defesa aponta que a arrecadação da instituição teria caído de R$ 5,5 milhões em 2023 para R$ 288 mil em 2025. Paralelamente, uma ação de despejo tramita na Justiça contra a Casa Ministério Cristão por uma dívida de aproximadamente R$ 730 mil, acumulada até junho de 2026, referente a aluguéis que, segundo a defesa, deixaram de ser pagos desde o início de 2024.

A advogada também afirma que os administradores já têm conhecimento da ação judicial, apesar de ainda não terem sido formalmente citados, diferentemente do que teria sido informado pela defesa da igreja. Ela ainda questiona o patrimônio e o padrão de vida da atual administração enquanto a instituição enfrenta dificuldades financeiras.

A administração alega que o endividamento aconteceu por causa do Davi, mas não foi isso que aconteceu. A igreja tinha condições financeiras de continuar funcionando sem estar no vermelho como está hoje.”

Segundo a defesa, a venda da banda Casa Worship para a Warner Music, em 2025, por um valor que seria superior a R$ 10 milhões, não teria sido registrada na contabilidade oficial da igreja. Também alega que cerca de R$ 1,3 milhão em royalties da banda teriam permanecido na empresa CW Produções Ltda., ligada à pastora Giovanna, sem repasse à instituição.

Diante dessas alegações, a defesa pede à Justiça o afastamento imediato da atual diretoria, o bloqueio de bens e ativos da CW Produções Ltda. e dos gestores, além do rastreamento financeiro dos valores pagos pela Warner Music. Também foi solicitada uma liminar e o encaminhamento do caso ao Ministério Público de Goiás.

Posicionamento

Em nota divulgada à imprensa, a atual diretoria da Igreja Casa negou as acusações e afirmou que elas são infundadas. A instituição atribuiu a queda nas receitas ao afastamento de fiéis após as denúncias envolvendo Davi Passamani e informou que a atual gestão trabalha para quitar dívidas deixadas pela administração anterior.

A igreja também afirmou que negocia um acordo para permanecer no imóvel onde funciona, declarou possuir documentação contábil que comprovaria a regularidade da gestão e informou que uma auditoria independente está em andamento. Ainda negou qualquer desvio de royalties e disse que a criação de um novo CNPJ teve como objetivo marcar uma nova fase da instituição.

Por fim, a nota afirma que Davi Passamani descumpriu um acordo judicial ao voltar a citar a pastora Giovanna e a Igreja Casa e informa que adotará as medidas judiciais cabíveis.

Confira a nota na íntegra:

“Esclarecimentos públicos sobre acusações veiculadas contra a Igreja

A Igreja, por meio de sua atual Diretoria e de sua assessoria jurídica, vem a público, de forma formal e respeitosa, manifestar-se sobre as recentes acusações veiculadas na imprensa e em outros meios de comunicação, as quais reputa como infundadas, descontextualizadas e desprovidas de qualquer lastro probatório idôneo.

Preliminarmente, é preciso registrar, com a seriedade que o tema exige, que a Instituição rechaça veementemente todas as alegações que lhe foram atribuídas. Trata-se de imputações que não correspondem à realidade dos fatos e que, à luz dos elementos já reunidos por esta Instituição, parecem revestir-se de nítido caráter de vingança e ressentimento pessoal, movidas por interesses que em nada se relacionam com a busca da verdade ou com o zelo pela transparência institucional. A Igreja não hesitará em adotar todas as medidas judiciais cabíveis para a devida responsabilização de quem quer que tenha, de má-fé, propagado informações inverídicas com o único propósito de lhe causar prejuízo moral e institucional.

1. Da alegada queda nas receitas entre 2023 e 2025

É fundamental esclarecer que a Igreja não possui finalidade lucrativa, mas sim função eminentemente social e religiosa. Sua receita não decorre de atividade empresarial ou comercial, mas exclusivamente da liberalidade dos fiéis, por meio de doações e ofertas voluntárias — fonte de receita que, por sua própria natureza, é instável e dependente da boa vontade e da generosidade espontânea daqueles que participam da comunidade religiosa.

A variação de receita registrada no período mencionado encontra explicação direta e evidente: devido a sucessão de vários escândalos de assédio sexual envolvendo o Sr. Davi e sua consequente prisão, ocorrida ao longo de 2023 e 2024 respectivamente, provocaram o afastamento de expressivo número de fiéis, o que, por óbvio, refletiu-se na redução das doações recebidas pela Instituição. Trata-se de consequência natural e previsível de um episódio que em nada se relaciona com a atual gestão.

Cumpre destacar, ainda, que a atual Diretoria, que assumiu a administração da Igreja após a renúncia do Sr. Davi ao final de 2023, vem trabalhando incansavelmente para honrar e quitar dívidas e obrigações junto a fornecedores — débitos esses contraídos durante a gestão anterior, sob a responsabilidade do próprio Sr. Davi. A atual administração tem atuado com transparência e responsabilidade para sanear a situação financeira herdada, em benefício da continuidade das atividades religiosas e sociais da Instituição.

2. Sobre a questão do eventual despejo

No que se refere às notícias sobre eventual despejo, esclarece-se que a Igreja se encontra em tratativas de boa-fé com o Locador, buscando a formalização de acordo que permita a sua permanência no imóvel e o regular adimplemento dos valores devidos. Trata-se de negociação conduzida com transparência, refletindo o compromisso institucional de honrar seus compromissos financeiros.

3. Da comprovação documental e da auditoria independente

A Igreja possui a integralidade dos documentos contábeis pertinentes — balanços e balancetes — que demonstram, de forma clara e objetiva, a destinação dos recursos financeiros da Instituição, evidenciando o pagamento de obrigações de interesse legítimo da Igreja, bem como das dívidas deixadas pelo Sr. Davi após sua renúncia.

Adicionalmente, encontra-se em curso auditoria independente, conduzida por empresa terceirizada especializada, abrangendo não somente o exercício da presidência da atual quanto também da presidência anterior, com o objetivo de corroborar, com ainda maior grau de segurança técnica, a regularidade da gestão financeira da Instituição. Toda a documentação e os resultados da referida auditoria serão oportunamente apresentados no âmbito do processo judicial competente, submetendo-se ao devido crivo do Poder Judiciário.

4. Da questão relativa aos royalties

Quanto às alegações envolvendo suposto desvio de royalties, informa-se que a matéria já é objeto de processo judicial autônomo, no qual a Igreja apresentará todos os documentos e provas necessários para demonstrar, de forma inequívoca, que o alegado desvio jamais ocorreu. Trata-se de acusação infundada, que será integralmente esclarecida perante o juízo competente.

5. Da constituição de novo CNPJ (Igreja Casa)

Em relação à criação de novo Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica sob a denominação “Igreja Casa”, esclarece-se que referida providência decorreu da legítima intenção da nova Diretoria de imprimir uma nova fase de renovação institucional, buscando dissociar a imagem da Instituição da grave crise decorrente da prisão e das condutas dos assédios sexuais praticadas pelo Sr. Davi. Trata-se de medida de gestão institucional, absolutamente lícita, voltada à reconstrução da credibilidade e da confiança dos fiéis, e não a qualquer finalidade escusa.

6. Do descumprimento de acordo judicial pelo Sr. Davi

Por fim, registra-se que o Sr. Davi vem descumprindo reiteradamente o acordo judicial firmado com a Pastora Giovanna, no âmbito de processo judicial criminal de violência a mulher (5139961-46.2024.8.09.0051), no qual restou expressamente pactuado que ele se absteria de mencionar, citar ou referenciar, direta ou indiretamente, o nome da Pastora Giovanna, bem como a Igreja à qual esta se encontra vinculada. Diante do flagrante descumprimento dessa obrigação, serão adotadas as medidas judiciais cabíveis para fazer valer o que foi legitimamente pactuado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Igreja reafirma que se encontra plenamente respaldada por documentos e provas robustas, os quais serão apresentados no momento processual oportuno, no âmbito do processo judicial competente, demonstrando, de forma cabal, que as acusações veiculadas não passam de alegações infundadas, desprovidas de qualquer fundamento fático ou jurídico.

A Instituição permanece confiante na Justiça e seguirá atuando com transparência, responsabilidade e serenidade, reiterando seu compromisso com a verdade e com todos os seus fiéis, colaboradores e parceiros.

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