Trump, Irã e a conta que o mundo já começou a pagar
28 maio 2026 às 18h38

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Depois de três meses de guerra e uma trégua frágil que mal completou seis semanas, Estados Unidos e Irã parecem se aproximar de algum tipo de acordo. O problema é que ninguém sabe exatamente qual acordo seria esse — nem mesmo quais concessões cada lado estaria disposto a fazer. Ainda assim, bastou a sinalização de uma possível reabertura do Estreito de Ormuz para o mercado reagir: o petróleo caiu de mais de US$ 100 para cerca de US$ 95 o barril. É um alívio momentâneo, mas longe de representar estabilidade.
O mundo vive hoje a maior crise de oferta de petróleo de sua história recente. E junho pode aprofundar ainda mais esse cenário. A ameaça de escassez de combustível e derivados deixou de ser uma hipótese distante para se tornar uma preocupação concreta. O planeta inteiro já sente os efeitos econômicos da guerra — da inflação crescente ao risco de recessão nas principais economias.
Grande parte dessa instabilidade deriva da própria condução americana do conflito. Donald Trump entrou na guerra sem um objetivo claro e com uma estratégia marcada pelo improviso. Inicialmente, queria desmontar o programa nuclear iraniano, neutralizar o arsenal de mísseis, interromper o financiamento a grupos extremistas e até provocar uma mudança de regime em Teerã. Nada disso aconteceu.
Mesmo sofrendo perdas severas, inclusive com a morte de lideranças importantes, o Irã resistiu militarmente, preservou capacidade ofensiva e ainda conseguiu atingir infraestrutura energética em países vizinhos. O fechamento do Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial — foi uma demonstração de força que expôs os limites da ofensiva americana.
Trump apostou no maximalismo. Quis impor rendição total sem estar disposto a assumir o custo político e militar de uma invasão terrestre. O resultado foi previsível: objetivos grandiosos, resultados limitados e um acordo agora cercado de ambiguidades.
O mais irônico é que o próprio Trump ajudou a desmontar o único mecanismo que anteriormente havia conseguido conter o programa nuclear iraniano. Em 2015, EUA, europeus e Irã assinaram um acordo que previa inspeções internacionais e limites claros para o enriquecimento de urânio. Foi o próprio Trump, em seu primeiro mandato, quem abandonou unilateralmente esse entendimento. Agora, volta à mesa tentando negociar condições semelhantes, mas em um cenário muito mais instável e perigoso.
Do lado iraniano, as exigências também revelam que Teerã não se considera derrotado. O regime pede indenizações pela guerra, flexibilização das sanções econômicas, liberação de bilhões de dólares bloqueados no exterior e até algum grau de controle sobre Ormuz. É improvável que consiga tudo isso, mas o simples fato de negociar nesses termos já mostra que os Estados Unidos não alcançaram a vitória estratégica que prometiam.
Enquanto isso, o relógio político corre contra Trump. A inflação voltou a pressionar os americanos, os combustíveis dispararam e a popularidade do presidente segue baixa. As eleições de meio de mandato se aproximam, e os custos da guerra começam a pesar diretamente no bolso da população. Famílias americanas já gastaram centenas de dólares a mais com energia desde o início do conflito. Na Europa, o cenário também se deteriora, com crescimento fraco, inflação persistente e bancos centrais interrompendo cortes de juros.
A verdade é que, apesar da retórica agressiva, Trump precisa urgentemente de uma saída política. E o Irã sabe disso. Talvez por isso o tempo pareça jogar a favor de Teerã. O conflito desacelerou, os ataques diminuíram e as conversas diplomáticas se intensificaram. Isso, por si só, já é melhor do que a escalada militar dos últimos meses.
Mas o mundo não pode se contentar apenas com uma trégua indefinida. A economia global continua pendurada na incerteza de um estreito marítimo e na imprevisibilidade de líderes que demonstraram pouca capacidade de cálculo estratégico. Um acordo real, verificável e duradouro deixou de ser apenas uma necessidade diplomática. Tornou-se uma urgência econômica global.
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