Ranking de poetas goianos gera controvérsia entre escritores e expõe limites da inteligência artificial na crítica literária
15 julho 2026 às 12h15

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Um ranking que elenca os 33 maiores poetas de Goiás, produzido pela Eureka Comunicação, gerou um debate literário ao combinar metodologia automatizada e critérios de relevância. O estudo posiciona Afonso Félix de Sousa no topo da lista, seguido por Gilberto Mendonça Teles e, apenas na terceira colocação, Cora Coralina, ordem que, por si só, já bastou para provocar reações entre escritores, acadêmicos e leitores.
Para aprofundar a discussão, o Jornal Opção ouviu três figuras da literatura goiana: a presidente da Academia Goiana de Letras (AGL), Lêda Selma; o presidente da União Brasileira de Escritores de Goiás (UBE-GO), Ademir Luiz da Silva; e o poeta, jornalista e editor Carlos Willian Leite. Suas análises revelam tanto o mérito de organizar um panorama consistente quanto às fragilidades de delegar à tecnologia um julgamento que ainda exige sensibilidade humana.
A ferramenta responsável pelo ranking, conforme explicou a Eureka Comunicação, opera a partir de um algoritmo desenvolvido em Python, programado para rastrear a internet e diferentes repositórios públicos. O sistema cruza frequência de publicação, circulação editorial, presença em jornais e revistas, estudos acadêmicos, teses, dissertações, prêmios, antologias, repercussão dos textos e permanência cultural. Todos os autores foram submetidos ao mesmo conjunto de parâmetros.
Contudo, a mesma metodologia que garante imparcialidade também impõe limites. A desigualdade na documentação disponível tende a favorecer escritores com ampla presença em universidades, editoras e acervos digitais, enquanto autores de circulação restrita, obras esgotadas ou arquivos não digitalizados podem ser subavaliados. Além disso, o modelo mede presença e repercussão, mas não realiza leitura direta das obras nem análise estética aprofundada, uma distinção que os três entrevistados fizeram questão de sublinhar.
Lêda Selma analisou diretamente a confiabilidade do método. “Isso é feito com inteligência artificial e a gente sabe que é muito cheio de erro”, afirmou. A presidente da AGL exemplificou com sua própria trajetória: “Algumas pesquisas de IA informam que eu tenho 14 livros publicados, mas eu já tenho 21 livros publicados. A inteligência artificial não está pronta ainda para fazer esse aparato literário”.

Ela também questionou a decisão de divulgar dois rankings em sequência, referindo-se ao levantamento paralelo também de poetas goianos, o que, em sua visão, gerou confusão sobre qual versão teria validade. A escritora comentou ainda a posição de nomes consagrados. “O Hugo de Carvalho Ramos, que é uma referência importantíssima, está em uma posição que não tem cabimento”, disparou, referindo-se ao quarto lugar do autor no outro ranking, dos 33 maiores ficcionistas de Goiás. Para ela, há também distorções semelhantes entre os poetas: “A Maria Helena Chein, por exemplo, está lá embaixo entre os poetas e isso não faz sentido nenhum”.
Em contraponto, Carlos Willian Leite, que também figura na lista dos 33 poetas, adotou um tom mais conciliador com a proposta, embora tenha manifestado divergências pontuais. “Concordo, de maneira geral, com o recorte e com os autores incluídos. Minha principal divergência está na ordem”, declarou. Ao ser questionado especificamente sobre Cora Coralina, o editor separou os planos simbólico e estético: “Eu não a colocaria entre os cinco maiores poetas do estado quando o critério é estritamente estético. Sua importância histórica, simbólica e biográfica é imensa, mas não deve ser confundida automaticamente com superioridade poética”.

A declaração mostra uma das tensões do debate: notoriedade e qualidade literária nem sempre caminham juntas, e o algoritmo, por mais sofisticado que seja, não consegue distinguir essas camadas. Carlos Leite ressaltou que o levantamento precisou ser reproduzido em cinco rodadas independentes até alcançar uma ordenação estável, o que demonstra consistência metodológica, “mas não significa que a lista seja incontestável”.
Já Ademir Luiz da Silva, dirigente da UBE-GO, preferiu enfatizar a natureza provocativa do ranking em vez de se apegar às posições. “Toda lista é imperfeita. Tanto as feitas por humanos quanto as compiladas por IA”, ponderou. Ele admitiu que alteraria a ordem se pudesse “Eu colocaria o Gilberto Mendonça Teles em primeiro lugar”, mas reconheceu que essa preferência carrega subjetividade: “Sua obra me parece advir de um plano estético mais elaborado. Mas talvez o que mais pesa é o fato dele ter sido meu amigo. Uma resposta humana, demasiadamente humana”.

Quando questionado se sentia falta de algum nome, Ademir foi direto. “Senti falta da poeta Sônia Elizabeth”. Já Carlos Willian Leite, sob o mesmo questionamento, avaliou que “não identificou uma ausência capaz de comprometer o conjunto”, embora tenha ressalvado que “toda seleção deixa nomes relevantes de fora”. Lêda Selma, por sua vez, revelou que ela e outros dois escritores chegaram a relacionar diversos nomes ausentes, reforçando a percepção de que a lista está longe de ser exaustiva.
Apesar das ressalvas, os três entrevistados convergiram em um ponto: rankings como esse cumprem a função de estimular o interesse pela literatura goiana. Ademir Luiz destacou que “listas e polêmicas ajudam a chamar atenção, sobretudo com relação aos autores menos conhecidos”. Carlos Willian Leite endossou a visão ao afirmar que o mérito do levantamento “está justamente em organizar um recorte relevante, sustentado por critérios claros e mecanismos consistentes de validação. Ele não encerra a discussão sobre a poesia goiana. Ao contrário, cria um ponto de partida para novas leituras, comparações e debates”. Lêda Selma, entretanto, manteve sua desconfiança quanto às intenções por trás da iniciativa: “Isso é uma forma de causar polêmica e de perder a credibilidade”.
A ferramenta organiza o que está acessível, mas não substitui o olhar crítico nem a leitura direta das obras. Como sintetizou Ademir Luiz, “essa lista é uma leitura do cenário, não é o cenário”.
Ranking completo dos 33 maiores poetas de Goiás:
- Afonso Félix de Sousa
- Gilberto Mendonça Teles
- Cora Coralina
- Delermando Vieira
- Valdivino Braz
- Aidenor Aires
- Yêda Schmaltz
- José Godoy Garcia
- Pio Vargas
- Leo Lynce
- Darcy França Denófrio
- Brasigóis Felício
- Adalberto de Queiroz
- Heleno Godoy
- Edival Lourenço
- Carlos Willian Leite
- Lêda Selma
- Geraldo Dias da Cruz
- Gabriel Nascente
- Hélverton Baiano
- Salomão Sousa
- Tagore Biram
- Miguel Jorge
- Leodegária de Jesus
- Celso Cláudio Carneiro
- Jamesson Buarque
- Elias Antunes
- Ubirajara Galli
- Alcione Guimarães
- Maria Helena Chein
- Antônio Geraldo Ramos Jubé
- Caio Meira
- Wesley Peres
Ranking completo dos 33 maiores ficcionistas de Goiás:
- José J. Veiga
- Bernardo Élis
- Edival Lourenço
- Hugo de Carvalho Ramos
- Antônio José de Moura
- Eli Brasiliense
- Miguel Jorge
- Augusta Faro
- Heleno Godoy
- Maria Helena Chein
- Maria José Silveira
- Delermando Vieira
- Alaor Barbosa
- Rosarita Fleury
- Ademir Luiz
- Flávio Carneiro
- André de Leones
- Carmo Bernardes
- Waldomiro Bariani Ortêncio
- Brasigóis Felício
- Solemar Oliveira
- Hélverton Baiano
- Wesley Peres
- Adelice da Silveira Barros
- Marietta Telles Machado
- Carlos Fernando Magalhães
- Ursulino Leão
- Anatole Ramos
- Cássia Fernandes
- José Eduardo Mendonça Umbelino Filho
- Dionísio Pereira Machado
- Leonardo Teixeira
- Cristiano Deveras
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